04/08/2011

Pontos nos iiiiiii


Os olhos são espelhos da alma.
Quando a alma dói, quando chora ou ri, ou tem sono, frio ou fome… ou quando adoece… os espelhos da alma mostram-na nos seus diferentes tons.
Mas, e se são os espelhos a adoecer? Como podem eles saber?
Há já algum tempo que os meus olhos se magoam. E a alma magoa-se por eles.
É o espelho que se vira ao contrário. É o mundo que fica invertido. Raiam-se os olhos como um espelho partido. Espetam-se na alma aos pedaços. E até o corpo fica ressentido.
Parecem fungos, ou farpas, que se introduzem nas frestas e distorcem os reflexos de luz. São areias movediças. São pontes levadiças que não me deixam passar. São cancelas, são tramelas, ciscalhadas, gramíneas, remelas, e quero livrar-me delas.
Acho que preciso de um colírio. Para lavar os espelhos. Para tirar pó dos cantos. Para lhes dar outro brilho. Para escorrer até dentro e regar bem a alma.
Porque o espelho a aprisionou. E a alma não se vê no espelho.
Tenho de marcar consulta no oftalmologista.
Ou terei de desistir de ti…

21/07/2011

Papoilas no Trigo


Hoje a mãe fez-me levantar cedíssimo. Se há coisa que não gosto é de me levantar cedo. Gosto de me deixar dormitar no quentinho até o sol entrar bem pela janela. Mas hoje, ainda o sol não tinha nascido, já ela me sacudia para que me levantasse. Que tinha que ser, que tínhamos de fazer uma madrugada a cortar trigo enquanto ele estava macio, que senão depois abria o sol e custava mais, porque o calor apertava e a palha ficava áspera. Caramba… ia ser duro. E logo eu que não tinha jeito nenhum com o foicinho! De que lhe iria servir o meu trabalho, se eu não faria nada que jeito tivesse? Já quando foi no tempo de cortar o arroz não consegui levar o eito para a frente como as outras mulheres (como se eu fosse uma grande mulher!...) e elas cortaram o meu eito na frente e deixaram-me sozinha para trás. Isso foi uma grande vergonha e humilhação, e elas fartaram-se de rir, mas se eu não conseguia acompanhá-las, não conseguia, pronto. Se elas fossem outras tinham-me dado um eito mais estreito.
Eu não me dou bem com este tipo de trabalho na agricultura. Mas a mãe é que é viciada, só gosta de andar na terra, até se esquecendo das horas. Por isso é que o pai, muitas vezes, se chateia e ralha quando ela não vem mais cedo fazer o almoço ou o jantar. E se eu experimento cozinhar uma vez por outra, nunca é conforme à vontade dela, porque não era aquilo que ela tinha em mente fazer, ou porque não saiu nada de jeito, ou porque não me tinha mandado, é sempre ralhete. Então para a outra vez não faço e ela que ouça do pai quando se atrasar.
Bem, lá me levantei e fui atrás dela de má vontade, ainda estava neblina e orvalho. Os caracóis andavam a passear pelo fresco da madrugada. As rolas arrulhavam de um lado e um galo cantava de outro. Eu perdia-me nessas contemplações, e a mãe: “Anda rapariga, que não é para ir a contar os passos!”
Mal chegámos, começámos na ceifa pondo o trigo cortado a descansar em molhos sobre o restolho. A mãe andara lá noutras madrugadas e já estava, por isso, uma grande área ceifada. Hoje era para cortar o resto. Dali a algum tempo tinha bolhas de água na mão direita, pelo trabalho com o foicinho. De nada me valeu queixar-me. “Isso é de não estares habituada. Tens que andar mais vezes… vá mas é depressa que isto não é trabalho só para mim.”
O sol começou a levantar-se e com ele começou a vir, mais intensamente, o aroma doce e agradável a palha cortada. Ah, e havia papoilas pelo meio do trigo. Havia papoilas pelo meio do trigo… Comecei a ficar mais alegre, talvez por isso, ou porque o sol sorria, ou talvez porque comecei a ver o campo de trigo, quase todo cortado, como um espectáculo fascinante.
E eu já só pensava que não faltava muito para terminarmos. E de tarde seria para ir à praia. A mãe tinha prometido.

08/07/2011

Voo de Peneireiro


José Miguel sentou-se na esplanada do café e perdeu os olhos, por entre as copas das árvores, num ponto fixo no horizonte. Um ponto que era apenas um nome: Luísa.
Esse nome martelava-lhe no pensamento com insistência e corroía-o em ânsias obsessivas. Tentara libertar-se, mas era como se estivesse numa praia depois de ser vomitado pelo mar e, ao mesmo tempo, desejando esse sal que o cuspira.
Como é que se deixara naufragar naquelas águas? A tempestade, que até parecera que amainara, afinal, tinha regredido e virara-lhe o barco antes que ele tivesse tempo de chegar a um qualquer porto.
Respirava. Pelo menos respirava depois de dar à costa. Estava vivo. Tomar consciência disso era um alívio, mas também sofrimento. Quando é que voltaria a respirar sem aquela dor no peito? Se calhar estava na hora de tirar férias, de sair de Coimbra por uns tempos. Talvez fazer uma viagem, conhecer outros lugares, outras pessoas. Tirar a vista desse ponto do horizonte, tão perto e, ao mesmo tempo, tão longe.
Mas ali se mantinha a pairar, tentando equilibrar-se, de olhos fitos no sustento da sua felicidade, qual voo de peneireiro, que se sustém parado no ar com um bater agitado de asas, na mira do seu alimento. Contudo, nem se decidia a descer à terra, no voo picado necessário à sua sobrevivência, nem a voar para longe.

29/06/2011

Experiências e Disparates


Agora que já não ando na escola sobra-me tempo para dar e inventar.
O rádio toca de manhã à noite e eu vou aprendendo a dançar, sem ninguém ver, e escrevendo, aos poucos, as letras das canções. Assim que estão completas passo-as a limpo para outro caderno. É só estragar papel, ralha o pai. Já tenho uma grande colecção… um dia, quem sabe, ainda hei-de cantar num conjunto, como o mano, e aprender a tocar viola. Oh, sim, encanta-me tanto o som das cordas da viola que hei-de ter uma e aprender a tocar.

Também não perco os folhetins da Emissora. E, principalmente, a “Simplesmente Maria” que dá na Rádio Renascença, e que a minha amiga Manuela vem escutar todos os dias comigo, de ouvido colado ao rádio, porque ele não apanha muito bem este posto, mas mesmo assim é melhor do que o dela que não apanha mesmo nada. À conta disso, volta e meia lá vão pilhas novas, para se ouvir melhor, e o pai a ralhar: eu estou para ver quem é que paga as pilhas!... não sei que raio de encanto é que vocês têm aí, que nunca mais acabam com essas confissões de cabeças encostadas! Assim como são duas raparigas, se uma fosse um rapaz eu já desconfiava!… E nós ficamos vermelhas que nem pimentões, mas no dia seguinte voltamos ao mesmo.

Outra coisa que queria aprender e que já consegui foi a costurar à máquina. Não foi muito fácil, porque eu não dava o balanço ao pedal até ao fim e a máquina andava para trás encravando a linha toda na canela. Teve que vir a mãe desencravá-la e ralhou que só visto, como é seu hábito. Mas enquanto ralhar e não bater, vou escapando e continuando com as experiências e os disparates. Mas a tia costuma dizer que a estragar é que se aprende. E eu acho que quando se quer muito uma coisa, com algum esforço consegue-se.
Pois bem, depois de tanto tentar, mas sem agulha nem linha, só com o tecido por baixo do calcador, lá consegui dar o balanço certo e o tecido já começou a correr sempre para trás. Vitória! Depois foi só colocar a agulha e chatear a mãe mais um bocado para que me viesse ensinar a enfiar a linha na máquina. Agora já sei coser a direito que é uma beleza. O pai até já disse que me vai mandar aprender a costura e a bordar à máquina. E eu acho que, assim como assim, até pode nem ser má ideia, que até saio daqui para a liberdade lá fora…

21/06/2011

Pontos nos iiiiii


O que é que eu faço aqui?
Colo o nariz ao vidro da janela e pergunto-me: mas o que é que eu faço aqui, neste mundo tão grande e frio?
Penso em abri-la e debruçar-me no parapeito, sorver um sopro de vento, um doce-amargo do tempo...
E há tanta vida lá fora à espera para eu passar.
Ouço, ao longe, tambores... ouço-te as palavras no vento. Grito por ti, para que me livres do pesadelo, mas o vento sopra ao contrário e não chega até ti o eco da minha voz.
Quando ousarei partir o vidro da janela e abrir as asas para me soltar?

02/06/2011

Gaivotas


A praia estende-se pelo enorme areal quase deserto a esta hora. O sol cai a pique sufocando-me os olhos de luz. Torra.

Acabei de almoçar e apeteceu-me vir espreitar o mar; quero aproveitar bem estes dias de inteira liberdade, sem os pais a controlar-me.
Eles, depois de eu muito os chatear, lá me deixaram vir passar esta semana na praia com as primas, na casa que elas alugaram. Mas eu prometi que teria juízo, e tenho. Só vou para a praia quando as primas também vão… bem, excepto agora. Elas não quiseram vir a esta hora, com tanto calor, e eu não pude esperar. O mar é tão perto que eu o avistava no intervalo das dunas, e o seu barulho fazia eco em mim.

Primeiro, sentei-me no muro a olhá-lo. Uma imensidão que toca no céu sem nuvens, onde as gaivotas se perdem. Depois, avancei até à orla da espuma, atraída pelo enrolar das ondas inquietas. Fui deixando os rastos dos pés na areia húmida, junto aos das gaivotas, até os mergulhar na água ansiosa. Que fria! Recuei. Caminhei ao longo da areia beijada pelo mar, a apanhar conchinhas, fugindo aos pulinhos de cada vez que o mar se aproximava.

Recolhi-me, por fim, junto às barracas da praia, procurando um pouco da sua sombra. Estendi a toalha à sombrinha e tirei o vestido; por baixo, o fato de banho novo que eu tanto queria. É azul-escuro, com umas risquinhas em azul mais claro no peito, que dão com a cor dos meus olhos, os quais protegi do sol nesta sombra onde me deitei a olhar o céu longamente. Apurei todos os sentidos. Um bando de gaivotas passa a voar – três e três: seis; sete; oito e mais outra: nove. E é o marulhar das ondas; o vento do mar nas narinas e nos ouvidos; as abas da barraquinha a dar a dar. Mais outro bando de gaivotas – doze – a voar. Para onde voam as gaivotas?

Agora voa uma em sentido contrário. Eu sou como essa gaivota. Perdida. Solitária. Se calhar, rejeitada pelo bando e que, por isso, voa para o outro lado. Também eu, muitas vezes, me afasto à procura de um lugar para mim, um lugar só meu, onde só eu entro. Eu e as gaivotas que me voam nos sonhos.

19/05/2011

Cresci II


Cresci.
E o que é que se ganha em crescer? Ter doze anos já não é o mesmo que ter dez ou onze. É verdade que eu já não queria ser uma criancinha pequena e gosto que me olhem como uma rapariguinha crescida, mas às vezes é uma chatice. Chatice e não só. Também dói. Agora, depois de ser menstruada pela primeira vez, já sei que ser mulher também dói. E muito. Quando isso aconteceu, na semana passada, doeu tanto, tanto, que eu não sabia o que fazer para que as dores parassem; estas eram maiores do que a vergonha que tive de engolir para pedir ajuda à mãe. E ela, em vez de me ajudar logo, até parece que ficou com um sorriso de troça: “Ah, isso é o sinal da mulher.” O sinal da mulher, o sinal da mulher…, isso sabia eu! Não que ela alguma vez me tivesse dito alguma coisa; se não tivesse sido a avó, enquanto ainda vivia, a falar comigo de mulher para mulher, seria apanhada desprevenida e o choque seria bem maior. Só que a avó não me disse que dava dores assim tão insuportáveis. E eu rebolava em cima da cama e no chão sem encontrar posição nenhuma que me desse algum conforto. Depois a mãe lá me arranjou uma toalha quente para pôr em cima da barriga, e as dores lá foram amainando. De cada vez que penso nisso começo a temer a próxima vez.

(Publicado em: Memória Alada, 2011)

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