11/11/2011

Em Voo


Dizem que voltamos sempre aos lugares onde fomos felizes.
Então, chega um tempo em que já não conseguimos conter mais o que nos quer extravasar do peito.
Balançamos, balançamos... e o salto acontece.

"Para mim um balanço
é mesmo balançar,
balançar até dar balanço
e sair..."

Mesmo sem rede.
E temos que abrir as mãos, como diz a canção da Mafalda Veiga.
Abrir as mãos, as asas... e voar.

Mesmo que antes tenhamos tido as mãos presas, as asas cortadas.

Mas chega a altura de soltar o grito:

"Agarras a minha mão
com a tua mão
e prendes-me a dizer
que me estás a salvar.
De quê?
De viver o perigo.
De quê?
De rasgar o peito.
Com o quê?
De morrer,
mas de que paixão?
De quê?
Se o que mata mais é não ver
o que a noite esconde
e não ter
nem sentir
o vento ardente
a soprar o coração..." !!!

Por mais frágeis que sejam as asas, elas são para VOAR!                                         comentar

14/10/2011

Vindimas


Começa a cair o Outono sobre as terras e as gentes. Com ele vêm as vindimas.
Os carros de bois apetrecham-se de tinas e cestos para recolher as uvas vindimadas. No ar, um aroma doce paira juntamente com o sol por cima das nossas cabeças. Até parece que é o sol que é perfumado.

A mãe fez-me uma saia em plástico transparente, com elástico na cintura, para eu vestir por cima da roupa. Assim não me sujo nem me molho se chover. O meu cortar dos cachos para o cesto de verga é intervalado pelo depenicar de bagos saborosíssimos para a boca. Hoje é uma barrigada! A navalha que me coube para cortar os cachos não resulta tão bem como uma tesoura e é perigosa para os meus desastrados dedos, mas não havia uma tesoura para mim e, para o trabalho que eu faço, dá muito bem, foi a resposta que ouvi quando reclamei. Mas é uma aventura e um prazer andar pelo meio das videiras, quase encoberta por elas, e escutar as conversas dos adultos, que até se esquecem dos mais novos por ali à solta.
As mulheres, que andam a dias por dias nas vindimas de uns e de outros, nunca se fartam de tagarelar. Ali se desfiam vidas, próprias e alheias, se descobrem segredos guardados quase a sete chaves, mas, afinal, não tão bem guardados assim. A Manuela foi enganada pelo namorado; a mulher do ti Augusto Silva, já daquela idade, anda grávida outra vez, coitada; a Celeste já está a passar da idade casadoira e agora arranjaram-lhe uma alcofa com um rapaz que ela nem conhecia; a Alzira escreve-se com um rapaz que está no Brasil; o Zé da ti Olinda deixou a Rosalina, um namoro já de há uns anos, e enrabichou-se por uma da banda de além… e por aí afora: a ti Amélia e a cunhada agora não se dão por causa das partilhas do sogro e andam a pôr os homens delas, que são irmãos, um contra o outro…
As vindimas são de uvas e são de gente. E eu fico a pensar em como as vidas dos adultos são tão complicadas, ou como eles próprios as complicam. Nas vindimas cortam-se cachos e corta-se tudo, até os meus dedos. Pois é, cortei-me. Tinha que ser: com esta navalha, a minha distracção a ouvir o que não era para mim, e a minha natural aptidão para os desastres, só podia! O tio, que andava por ali a acarretar os cestos cheios de cachos para a tina no carro de bois, raspou, com a navalha, um bocado de feltro do seu chapéu preto e colou-mo no golpe para não saírem por lá as tais ditas “tripas grossas”, como de costume. Como, por causa disto, já não me dava jeito continuar a vindimar, segui carreiro acima até à adega.

Pela parede da adega trepa uma lagartixa e entra por uma fresta. Lá dentro é fresco. O chão é de terra negra pisada pelos pés, como pisadas pelos pés vão ser as uvas dentro do depósito de cimento quadrado. Ainda está vazio, à espera das uvas que vão chegar mais logo para se transformarem num mosto viscoso e peganhento que depois será vinho. Nos anos passados fui reparando nisso tudo: como as uvas eram pisadas e deixadas a ferver durante dias no depósito, sendo mexidas novamente com os pés, de vez em quando, até o vinho estar pronto a ser retirado para as pipas onde continuava ainda a ferver; como os engaços eram depois espremidos na prensa para fazer mais vinho – o vinho do repiso; e como estes engaços depois de espremidos eram abafados para fazer aguardente na alambiqueira.
Este ano não deverá ser diferente. Está tudo a postos.

29/08/2011

Droga Maldita!


O lado negro acabou por levar vantagem.
Existe um reino dos mortos-vivos que lança uma capa negra, como rede pesqueira, sobre um mar ingénuo e carente.
As aves partiram em debandada, sem rumo nem norte, deixando-o entregue à sua má sorte. E ele não se conseguiu desenvencilhar, nunca mais, da rede. Ainda espreitou, algumas vezes, por um buraco que alguém lhe alargou, mas o corpo não obedeceu e acabou por sucumbir à desgraçada mente, cada vez mais fraca e doente. Tó. Droga maldita, que escreve a morte sem piedade nem dó.
RIP.

Acolhe nos braços, Pai, este teu filho pródigo.

19/08/2011

Desfolhada


A madrugada e a manhã foram longas.
Aquece. Está quente. Cada vez mais quente. Tão quente de uma luz de fogo que doira.
Espigas de milho, loiras, reluzem na eira ao calor do sol.
À medida que estas haviam sido despidas das camisas, logo cestos as tinham aparado para, depois de cheios, serem levadas para a eira e estendidas ao sol a corarem como oiro.
Era uma montanha enorme, que custou a vencer.
Os milheiros tinham sido cortados da terra com foicinhos, um a um, dias antes. Também me calhou a mim, para aprender, mas os canoilos eram grossos e a minha habilidade não era nenhuma. Cortei-me num dedo. A mãe disse que saíam por lá as tripas grossas. E “vai-te embora, vai-te embora… que não sabes fazer nada.”
Não percebi isso das “tripas grossas”, assim como há muitas outras coisas que não percebo, e depois riem-se de mim por eu não perceber, mas também ninguém me explica nada, e uma pessoa não nasce ensinada. E não é verdade que eu não saiba fazer nada, chateia-me que me digam isso, é só que há trabalhos a que não estou habituada. Mas a mãe tem a mania de me comparar com as outras raparigas que têm à volta da minha idade, que começaram a trabalhar ainda crianças e que, por isso, trabalham como “gente grande”, como ela diz, e que eu não presto para nada. Eu não lhe levo a mal de ela me dizer que não presto para nada, porque penso que percebo o que ela quer dizer: que sou muito miúda e franzina e assim não tenho força nenhuma. É que ela nunca teve jeito para as palavras.
Enrolei um lenço no dedo, por causa do sangue que escorria, e fui para casa, mas isso já passou e hoje já deu para ajudar a descamisar o milho.
Foi o ti Joaquim Fernandes que trouxe todo o milho na palha, em várias carradas de carro de bois, para o troço da oliveira ao pé da adega da nossa antiga casa. É aí que está a eira. Ontem à noite juntou-se um grande grupo à volta da montanha de milheiros e deram-lhe um grande avanço, à luz da lua e do petromax. Hoje começámos cedo. A tia e a madrinha vieram ajudar-nos, à mãe e a mim, e acabámos com o que faltava. O pai tinha-me arranjado, de um pau de moita, um bico para descamisar as espigas, e eu desenrasquei-me muito bem.
Agora cheira a espigas de milho acabadas de desfolhar. Um cheirinho tão bom e doce, que o sol espalha por aí além.

04/08/2011

Pontos nos iiiiiii


Os olhos são espelhos da alma.
Quando a alma dói, quando chora ou ri, ou tem sono, frio ou fome… ou quando adoece… os espelhos da alma mostram-na nos seus diferentes tons.
Mas, e se são os espelhos a adoecer? Como podem eles saber?
Há já algum tempo que os meus olhos se magoam. E a alma magoa-se por eles.
É o espelho que se vira ao contrário. É o mundo que fica invertido. Raiam-se os olhos como um espelho partido. Espetam-se na alma aos pedaços. E até o corpo fica ressentido.
Parecem fungos, ou farpas, que se introduzem nas frestas e distorcem os reflexos de luz. São areias movediças. São pontes levadiças que não me deixam passar. São cancelas, são tramelas, ciscalhadas, gramíneas, remelas, e quero livrar-me delas.
Acho que preciso de um colírio. Para lavar os espelhos. Para tirar pó dos cantos. Para lhes dar outro brilho. Para escorrer até dentro e regar bem a alma.
Porque o espelho a aprisionou. E a alma não se vê no espelho.
Tenho de marcar consulta no oftalmologista.
Ou terei de desistir de ti…

21/07/2011

Papoilas no Trigo


Hoje a mãe fez-me levantar cedíssimo. Se há coisa que não gosto é de me levantar cedo. Gosto de me deixar dormitar no quentinho até o sol entrar bem pela janela. Mas hoje, ainda o sol não tinha nascido, já ela me sacudia para que me levantasse. Que tinha que ser, que tínhamos de fazer uma madrugada a cortar trigo enquanto ele estava macio, que senão depois abria o sol e custava mais, porque o calor apertava e a palha ficava áspera. Caramba… ia ser duro. E logo eu que não tinha jeito nenhum com o foicinho! De que lhe iria servir o meu trabalho, se eu não faria nada que jeito tivesse? Já quando foi no tempo de cortar o arroz não consegui levar o eito para a frente como as outras mulheres (como se eu fosse uma grande mulher!...) e elas cortaram o meu eito na frente e deixaram-me sozinha para trás. Isso foi uma grande vergonha e humilhação, e elas fartaram-se de rir, mas se eu não conseguia acompanhá-las, não conseguia, pronto. Se elas fossem outras tinham-me dado um eito mais estreito.
Eu não me dou bem com este tipo de trabalho na agricultura. Mas a mãe é que é viciada, só gosta de andar na terra, até se esquecendo das horas. Por isso é que o pai, muitas vezes, se chateia e ralha quando ela não vem mais cedo fazer o almoço ou o jantar. E se eu experimento cozinhar uma vez por outra, nunca é conforme à vontade dela, porque não era aquilo que ela tinha em mente fazer, ou porque não saiu nada de jeito, ou porque não me tinha mandado, é sempre ralhete. Então para a outra vez não faço e ela que ouça do pai quando se atrasar.
Bem, lá me levantei e fui atrás dela de má vontade, ainda estava neblina e orvalho. Os caracóis andavam a passear pelo fresco da madrugada. As rolas arrulhavam de um lado e um galo cantava de outro. Eu perdia-me nessas contemplações, e a mãe: “Anda rapariga, que não é para ir a contar os passos!”
Mal chegámos, começámos na ceifa pondo o trigo cortado a descansar em molhos sobre o restolho. A mãe andara lá noutras madrugadas e já estava, por isso, uma grande área ceifada. Hoje era para cortar o resto. Dali a algum tempo tinha bolhas de água na mão direita, pelo trabalho com o foicinho. De nada me valeu queixar-me. “Isso é de não estares habituada. Tens que andar mais vezes… vá mas é depressa que isto não é trabalho só para mim.”
O sol começou a levantar-se e com ele começou a vir, mais intensamente, o aroma doce e agradável a palha cortada. Ah, e havia papoilas pelo meio do trigo. Havia papoilas pelo meio do trigo… Comecei a ficar mais alegre, talvez por isso, ou porque o sol sorria, ou talvez porque comecei a ver o campo de trigo, quase todo cortado, como um espectáculo fascinante.
E eu já só pensava que não faltava muito para terminarmos. E de tarde seria para ir à praia. A mãe tinha prometido.

08/07/2011

Voo de Peneireiro


José Miguel sentou-se na esplanada do café e perdeu os olhos, por entre as copas das árvores, num ponto fixo no horizonte. Um ponto que era apenas um nome: Luísa.
Esse nome martelava-lhe no pensamento com insistência e corroía-o em ânsias obsessivas. Tentara libertar-se, mas era como se estivesse numa praia depois de ser vomitado pelo mar e, ao mesmo tempo, desejando esse sal que o cuspira.
Como é que se deixara naufragar naquelas águas? A tempestade, que até parecera que amainara, afinal, tinha regredido e virara-lhe o barco antes que ele tivesse tempo de chegar a um qualquer porto.
Respirava. Pelo menos respirava depois de dar à costa. Estava vivo. Tomar consciência disso era um alívio, mas também sofrimento. Quando é que voltaria a respirar sem aquela dor no peito? Se calhar estava na hora de tirar férias, de sair de Coimbra por uns tempos. Talvez fazer uma viagem, conhecer outros lugares, outras pessoas. Tirar a vista desse ponto do horizonte, tão perto e, ao mesmo tempo, tão longe.
Mas ali se mantinha a pairar, tentando equilibrar-se, de olhos fitos no sustento da sua felicidade, qual voo de peneireiro, que se sustém parado no ar com um bater agitado de asas, na mira do seu alimento. Contudo, nem se decidia a descer à terra, no voo picado necessário à sua sobrevivência, nem a voar para longe.

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