09/05/2026

Prova final

Hoje foi o meu exame da quarta. Não foi na minha escola, mas numa da sede do concelho, ao lado da Casa da Criança, onde está uma estátua dum rapazinho a tocar uma trombeta longa.
De manhã, uma prova escrita parecida com as que estava habituada a fazer e, de tarde, a oral. Não achei nada difícil, pois correu-me muito bem. Não dei erros no ditado e acertei todos os problemas. Fiquei aprovada, claro, nem outra coisa estava à espera, depois de tanto esforço despendido! Fiquei a saber que um dos professores é amigo de um dos meus irmãos, pois quando ele viu o meu nome, perguntou-me se eu seria a sua irmã. E conheci uma menina, a Joana, que me disse que ia estudar para o Ciclo e me perguntou se eu também iria. Respondi que não sabia, que o meu pai é que mandava. Então ela insistiu com o meu pai e ele disse que ia pensar no assunto. Estou com esperança de que ele me deixe ir, uma vez que já lá teria uma amiga.

No fim da oral o pai trouxe-me ao parque infantil.
O parque infantil fica no jardim da Várzea e é muito bonito. Tem canteiros de flores no meio de grandes relvados e é coberto de grandes árvores que fazem sombras fresquinhas. De um dos seus lados corre o rio que passa debaixo da ponte.
É a primeira vez que me aventuro no escorrega e nos cavalinhos de roda. Um baloiço, esse já tinha experimentado. Os manos fizeram-me um, na figueira ao pé da eira, e posso balançar-me nele, sempre que me apeteça, durante as tardes depois da escola, desfrutando da sombra da árvore, enquanto me delicio a observar os pardalitos que trabucam nos seus ramos.
Um após outro, experimento os brinquedos novos, entranhando os pés na areia, com a sofreguidão de querer eternizar estes momentos, neste lugar que me parece ser o remate de uma etapa e, ao mesmo tempo, me indicia um universo por descobrir.

(Memória alada, pag. 28)                      comentar

06/05/2026

[4] Ainda mais gotas

Sentiu-se toda aquela miséria. Era necessário fazê-la também entender ao José que, por estar tão habituado a ela, por não conhecer outra maneira de viver, parecia não se incomodar muito. Era preciso fazer-lhe perceber bem o estado degradante que o envolvia e que se agravaria, na certa, com o próximo Inverno. Se viesse um temporal o telhado estava sujeito a ruir.
Mas como é que pode viver aqui, assim, senhor José? O telhado precisa de ser arranjado, senão qualquer dia cai… e mesmo, quando chegar o Inverno chove aqui com força e molha-lhe a cama toda… depois pode ficar doente. Ele assente: Pois era… pois era… mas como é que há-de ser? Se quiser, manda-se cá um pedreiro ver e fazer um orçamento… e tenta-se que alguém dê uma ajuda, ou algum subsídio… Encolhe os ombros. Pergunta-se-lhe quanto recebe de pensão. Diz que não sabe, que é o que lhe dão no banco.
Tenta-se saber como é que passa o dia. Diz que é por aí. Às vezes pega na enxada e entretém-se a roçar umas ervas atrás de casa. E outras, vem para a rua ver e falar com quem passa. Come umas sardinhas assadas com pão ou umas batatas cozidas e bebe uma pinga. Não bebe leite. Mas, às vezes, acolá a dona do restaurante manda-o lá ir buscar uma sopa.
Perguntam-lhe se não gostaria de experimentar a ir até ao Centro de Dia… almoçava lá… vão lá passar o dia pessoas que conhece… tinha lá companhia para se distrair… Nunca se sabe! – Responde.
A Assistente Social insiste se não tem nenhum papel da pensão. Ele procura na carteira… cheia de notas… pasme-se: muitas notas! Um perigo! O dinheiro acumulado de vários meses. Traz aí o dinheiro todo que tem… Não. Tem mais no banco… uma conta a prazo.

(continua)

05/05/2026

[3] Mais Gotas

(anterior)

Dia seguinte. Hora combinada. Ponto de encontro: a casa do José. Esta é na rua principal da localidade – uma fachada baixinha com um telhado aos altos e baixos – e contrasta com a grande maioria das habitações da rua, que são vivendas modernas.
O José já estava à espera na rua quando chegam os três visitadores. Conhece bem dois deles: o homem que falou com ele e uma das mulheres. A outra não sabe quem é. É-lhe apresentada como a senhora doutora da Associação, a Assistente Social. Ele diz que está bem. Entram pelo portão do telheiro e depois na cozinha: um arremedo de cozinha, diga-se. Não tem mesa, nem bancos, só um borralho com uma trempe e uma panela muito farruscada, em cima; ao canto, um montão de pinhas e carolos de milho. Diz que é para ajudar a fazer a fogueira à panela, para cozer as batatas. Junto ao borralho, um alguidar de barro verde, vidrado, com alguma loiça desbeiçada.
Casa de banho? Sim, tem... - responde. O cunhado quando era vivo mandou pôr um chuveiro e um esquentador com uma botija de gás, naquele canto do quartito escuro, ao fundo da casa de fora e mandou cimentar o chão. A água do banho? Escorre lá para fora por um buraco na quina da parede com o chão. Por cima, no tecto sem forro, vê-se o sol pelas frestas das telhas. Não tem medo da botija do gás aqui dentro? Não, nunca aconteceu nada… Mas não tem lavatório… nem sanita, onde é que faz as necessidades? Atão… no pátio, pois. E, lá fora, no alpendre está um espelho… é lá que corta a barba.
A pouca roupa de vestir está empilhada numa tarimba no lado oposto ao chuveiro. E podemos ver onde é a sua cama? Se vocês quiserem… diz com um encolher de ombros. Então vá, mostre-nos lá. Mostrou. Era na casa de fora. O soalho, de madeira carcomida, com uns sacos de linhagem espalhados, a fazer de tapetes, denunciava a chuva que se abatia nele. O telhado, de telhas de canudo velhas e partidas, à vista. Parece que chove cá dentro… Novo encolher de ombros: Hum, quando ela é muita não cabe nas telhas… eu ponho aí no chão uns baldes a aparar.
Na cama de ferro, junto a uma das paredes, um monte de cobertores negros e mantas de retalhos. Lençóis? Não é preciso, assim é mais quentinho. A servir de almofada, um cobertor dobrado, também negro… Um arrepio, seguido de outros dois. Até parece que as pulgas já começam a picar nos corpos…
Encostada à parede do lado oposto, uma arca grande, de madeira, onde estão batatas, milho e feijões. E roupa velha. Nenhuma mesa. Nem cadeiras. A porta da rua não abre. Quando arranjaram a estrada, a casa ficou mais funda, e agora a porta não abre. Quer dizer, abrir abre, mas não se pode passar por lá, porque levou tijolos por fora, para não entrar a água que escorre da estrada…

(continua)

04/05/2026

Neblinas III

Passou o escuro da noite.
Os raios de sol do meio-dia vêm agora, como presente de Deus, envolver com toda a sua magia este ser triste e vago, e ajudar, já não a camuflar uma dor, mas a despertar a sua consciência em todo o seu esplendor.

Os dias têm dado lugar às semanas, estruturando um viver em que eu, qual flor de pétalas murchas, de sorriso tisnado nos lábios, tenho procurado, com alguma garra, buscar uma realidade escondida.
Melhor do que toda a sabedoria humana, essa realidade se me apresenta agora leve e simples.
Afinal, nada seria mais fácil de me ter sido fatal. O que aconteceu só pode ter sido obra de um descuido. Não. Não fechei a janela. Abri a porta. Esta, porque abre para trás, foi violentamente empurrada pela deslocação do ar, levando-me junto com ela, acabando por me fazer morder o pó da beira do caminho.

Agora poderei voltar a ser a menina de sempre, alegre e mimosa, uma vez que o pesadelo, que me tem aterrado, se evaporou como neblina dissipada pelo sol.


(Publicado em livro: Memória Alada, 2011, pág. 24)

30/04/2026

[2] Outras Gotas

(anterior)

A IPSS local tomou conhecimento das aparentes necessidades do José, através de um dos directores, que atentou na situação e levou o problema à reunião de direcção. A direcção deliberou avaliar a situação e estudar as possibilidades de resolução. Talvez conseguir-lhe um subsídio eventual para as obras do telhado e trazê-lo para o Centro de Dia onde tomaria as refeições e o banho.
Dois dos directores ficaram responsáveis pelo caso e, no dia seguinte, falaram com a Assistente Social da Instituição.
Seria preciso, primeiro, conhecer a fundo a situação e dar apoio perceptivo ao José, ou seja, ajudá-lo a perceber e a avaliar o seu problema, a dar-lhe significado e a estabelecer objectivos realistas e, só depois, dar-lhe o apoio instrumental: ajudá-lo a resolver o problema através da prestação concreta de bens e serviços. O problema é, primeiramente, do José, ele é que tem de querer resolvê-lo, se conseguir perceber que tem um problema e que o quer resolver.
Combinaram fazer uma visita ao José, ficando incumbido de o abordar, para conseguir agendar a visita ao domicílio, o director que trouxe o problema à discussão, o qual teria mais hipóteses de ser bem sucedido, uma vez que tem alguma confiança com ele.

Passados dois dias a visita estava marcada. O José disse que sim, que podiam ir lá falar com ele quando quisessem. Seria então no dia seguinte.

Continua

29/04/2026

Sombras I

O tempo convidava a um mergulho naquela água reluzente. Mas o calor escaldante que se fazia sentir desenhava-se numa capicua de sofrimento. Caminhando pela beirinha da piscina, puxando pela mão o seu irmãozinho que ainda mal andava, o menino procurava desesperadamente com o olhar. No bolso, a chave de casa - uma mansão antiga, grande demais para dois meninos sozinhos. O pequenino chorava, ora caindo, não conseguindo acompanhar o passo agitado do irmão, ora sendo arrastado e obrigado, pelo mais velho, a levantar-se. A criançada ficou curiosa perante o espectáculo, e alguns adultos pareciam temer que os dois pequenos caíssem à água. Que se passaria com estes meninos que destoavam daquele ambiente? Infrutíferas buscas causavam cada vez mais desânimo neste menino de olhar cansado e fugidio. Havia já duas noites e dois dias em que tudo se resumia a uma espiral de angústia devastadora. Não a encontrava nos locais de lazer, que tão bem conhecia, habituado que estava a que ela os lá levasse. Procurara-a e não a encontrara. Urgia, agora, repensar a estratégia, antes que o desalento e o pânico se instalassem por completo. Sentado na soleira da porta da igreja, esperava. Talvez uma luz divina o iluminasse. Então pareceu-lhe que um anjo lhes falhava. Respondeu às suas perguntas como se o céu os tivesse vindo socorrer. Tinha necessidade de confiar em alguém. Contou tudo. O que acontecera, as suas inquietações, os seus medos e o como já não sabia mais que fazer para calar o irmãozinho. Aquele anjo bondoso tranquilizou-os e até conseguiu que o pequenino adormecesse. Escutava inebriado aquela voz melodiosa que lhe respondia serenidade e esperança. Então pôde acalmar um pouco, recostando-se de encontro ao seu peito, fechando os olhos, sentindo pousar em si a sombra das suas asas delicadas.


07/04/2026

Marcas

Chegaram as férias grandes. No meu rosto quase não restam cicatrizes muito visíveis. Já nem penso muito nelas, pois não são mais do que pequenas marcas que, mais ou menos perceptíveis, sempre ficam de qualquer acontecimento ou experiência.

Agora passo uma boa parte do dia em casa da avó e, às vezes, até lá passo a noite, na cama de ferro que está na casa de fora. Numa destas noites, parecia-me que a cama se elevava muito alta e me levava a flutuar junto ao tecto. Aflita, chamei pela avó. Esta veio e disse que era febre que eu tinha. Colocou-me na testa um pano molhado com água fria e, dali a pouco, trouxe chá de folhas de laranjeira, que me deu a beber quente, e fez-me deitar novamente, bem abafada. De madrugada acordei a transpirar e a febre passou. A avó disse que a apanhei por ter andado com a cabeça ao sol.

A casa da avó é pequenina. Tem uma cozinha, um quarto e a casa de fora. Tem, ainda, um alpendre onde me lembro que o avô passava as tardes, sentado numa cadeira.
Só a casa de fora é que é a divisão mais ampla. O seu mobiliário consiste numa mesa de centro, quadrada, e quatro cadeiras; uma cómoda, que o pai fez quando ainda só tinha treze anos – contou ele; e a cama de ferro, no canto ao pé da janela e, junto a esta, a máquina de costura, com a sua mesa de ferro rendado.
Da casa de fora para a cozinha, ao lado da parede do quarto, tem três degraus de madeira, onde gosto sempre de me sentar a ver a avó fazer a sua lida. Ela faz a sopa numa panela preta, sobre uma grossa trempe de ferro, colocada por cima do lume, no borralho. Este fica no canto, ao meu lado direito. Por cima do borralho tem a chaminé, apoiada em duas grossas vigas de madeira, sustidas pelo moirão, também ele de madeira grossa. A guarnecer a cozinha tem uma cimalha pela parede fora, em jeito de cantareira, onde a avó coloca os pratos e a outra loiça mais bonita; a pender do tecto, presa com quatro arames, uma tábua comprida onde a avó acomoda a broa.

Contou o pai que, quando era pequeno, certa vez apanhou a avó fora de casa e fritou carne numa sertã que tinha quatro bicos. Só que, entretanto, e ainda sem a ter comido, pressentiu que a avó vinha a chegar e, a toda a pressa, subiu a um banco para esconder a frigideira em cima dessa tábua. Aconteceu que o molho estava muito quente e escorreu-lhe, por um dos bicos da sertã, para a cara, queimando-a toda. Foi então deitar-se na cama, todo tapado com as mantas. A avó foi lá dar com ele e, coitado, ainda apanhou uma tareia, para além das dores que sentia na cara, toda esfolada. Ninguém o mandou ser guloso…

O resto do mobiliário da cozinha compõe-se de uma mesa, em frente às escadas, no canto atrás da porta que dá para o alpendre, onde a avó lava a loiça; outra mesa baixa, ao lado, com um banco e uma cadeirinha de madeira, ao pé, onde se tomam as refeições; uma bancada comprida, por baixo da cimalha; e, encostado à parede, entre as escadas e o borralho, está um armário que tem Santinhos em cima.

No fim do almoço, a avó faz-me rezar com ela, viradas para os Santinhos, a dar graças a Deus pelo alimento que tomámos. Depois, obriga-me a dormir a sesta, fechada no quarto dela. É claro que eu, às vezes, não tenho sono e, por isso, não quero dormir, mas ela tenta convencer-me dizendo que é para dar o repouso ao comer. Tem que ser, senão ela ameaça com os gaifarros. Eu finjo que acredito. Pensa ela que me engana, como quando eu era mais pequena. Então, ia ela do lado de fora da pequena janela do quarto e fazia um barulho com as mãos nos vidros, a fingir que eram os tais gaifarros, para me amedrontar e ver se eu sossegava, mas eu comecei a perceber que era ela. Agora, tal como dantes, são mais as vezes em que, sem que ela dê conta, abro esta janelinha, que dá para o alpendre, e me escapo para o exterior. É tão mais agradável brincar na rua, do que estar fechada no quarto, a ver as aranhas a tecerem as suas cortinas no tecto.

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