21/03/2026

A gente habitua-se

(reposição)

A gente habitua-se. Quer se queira que não, a gente acaba sempre por se habituar...
Habitua-se ao passado, que mais do que passado, torrado, moído, cru ou cozido; cosido ou tecido, ou só alinhavado; espalmado, enrolado, estendido, comprido ou nem tanto; tanto nos mói como nos mata, tanto nos afasta como nos oprime e ou muitas vezes nos salva ou redime.
A gente habitua-se ao presente, que é presente, dádiva ou castigo; por vezes um perigo e outras sorte; muitas vezes vida e outras morte.
A gente habitua-se ao futuro. Maduro ou duro; que pode ser resplandescente ou escuro, negro, fumegante, frio, quente, fervente, escaldante, pungente; sempre igual ou diferente; mas que se anseia puro, vivente.
A gente habitua-se!
Quer se esperneie quer não, acaba sempre por se habituar... e conformar...
Ou não...

18/03/2026

[2] Outras Gotas


(anterior)

A IPSS local tomou conhecimento das aparentes necessidades do José, através de um dos directores, que atentou na situação e levou o problema à reunião de direcção. A direcção deliberou avaliar a situação e estudar as possibilidades de resolução. Talvez conseguir-lhe um subsídio eventual para as obras do telhado e trazê-lo para o Centro de Dia onde tomaria as refeições e o banho.
Dois dos directores ficaram responsáveis pelo caso e, no dia seguinte, falaram com a Assistente Social da Instituição.
Seria preciso, primeiro, conhecer a fundo a situação e dar apoio perceptivo ao José, ou seja, ajudá-lo a perceber e a avaliar o seu problema, a dar-lhe significado e a estabelecer objectivos realistas e, só depois, dar-lhe o apoio instrumental: ajudá-lo a resolver o problema através da prestação concreta de bens e serviços. O problema é, primeiramente, do José, ele é que tem de querer resolvê-lo, se conseguir perceber que tem um problema e que o quer resolver.
Combinaram fazer uma visita ao José, ficando incumbido de o abordar, para conseguir agendar a visita ao domicílio, o director que trouxe o problema à discussão, o qual teria mais hipóteses de ser bem sucedido, uma vez que tem alguma confiança com ele.

Passados dois dias a visita estava marcada. O José disse que sim, que podiam ir lá falar com ele quando quisessem. Seria então no dia seguinte.

Continua

15/03/2026

Arrepiar Caminho II


Escuto mas não sei 

Se o que ouço é silêncio 
Ou deus

Escuto sem saber se estou ouvindo 
O ressoar das planícies do vazio 
Ou a consciência atenta 
Que nos confins do universo 
Me decifra e fita

Apenas sei que caminho como quem 
É olhado amado e conhecido 
E por isso em cada gesto ponho 
Solenidade e risco 
(Sophia de Mello Breyner Andresen) 

Acho que vou aventurar-me um pouco mais para cima, quero conhecer este lado do caminho. 
Começo, na dezena, os Mistérios Gloriosos. Subo mais um pouco para lá da curva, o que estará para lá? Será alguma estrada que vire depois à esquerda, para ir dar àquela capelita? Mas não, não encontro nenhum indício disso. Agora é a direito em estrada de areia lavada pela chuva; ali mais à frente vislumbro uma cortada à direita, quem sabe se não irá desembocar num outro caminho, do lado de baixo, que eu conheça? Experimento. Até porque é já um pouquito tarde para voltar para trás antes que se faça noite. Sigo por aí, é sempre a curvar à direita; sim, deve ir dar lá a baixo. Aperto o passo, afoitando-me por este caminho de sulcos de rodas de tractores, por entre pinheiros e matos. 

Nem dou pelo que a floresta pode em si encerrar. As florestas e os matagais são mães e pais de muitos bichos: rastejantes, roedores; com asas; corredores; dos que trepam às árvores; dos que perfuram a terra; dos que têm tocas; dos que fazem ninhos; lobos, raposas, cobras e lagartos; formigas; abelhões e outros que tais; monstros; lobisomens; ladrões e salteadores… e tantos outros dos que ouvimos falar nos telejornais. Ah, mas não. Isto só me aflorou à mente de raspão. Não vou pensar mais nisso. Aqui, não. Não há aqui nada disso. Sob os meus pés sorriem pequenas flores, dentro dum relvado verdinho, é macio este caminho.

Este caminho é cheio de metáforas. 

A mão vai passando as contas e há alguém que vai rezando; não me parece ser eu… talvez o meu coração. Porque a cabeça, essa, levita, abstraída, sei lá, pela paisagem bonita. Ave Maria, cheia de graça…

14/03/2026

Sombras I

O tempo convidava a um mergulho naquela água reluzente. Mas o calor escaldante que se fazia sentir desenhava-se numa capicua de sofrimento. Caminhando pela beirinha da piscina, puxando pela mão o seu irmãozinho que ainda mal andava, o menino procurava desesperadamente com o olhar. No bolso, a chave de casa - uma mansão antiga, grande demais para dois meninos sozinhos. O pequenino chorava, ora caindo, não conseguindo acompanhar o passo agitado do irmão, ora sendo arrastado e obrigado, pelo mais velho, a levantar-se. A criançada ficou curiosa perante o espectáculo, e alguns adultos pareciam temer que os dois pequenos caíssem à água. Que se passaria com estes meninos que destoavam daquele ambiente? Infrutíferas buscas causavam cada vez mais desânimo neste menino de olhar cansado e fugidio. Havia já duas noites e dois dias em que tudo se resumia a uma espiral de angústia devastadora. Não a encontrava nos locais de lazer, que tão bem conhecia, habituado que estava a que ela os lá levasse. Procurara-a e não a encontrara. Urgia, agora, repensar a estratégia, antes que o desalento e o pânico se instalassem por completo. Sentado na soleira da porta da igreja, esperava. Talvez uma luz divina o iluminasse. Então pareceu-lhe que um anjo lhes falhava. Respondeu às suas perguntas como se o céu os tivesse vindo socorrer. Tinha necessidade de confiar em alguém. Contou tudo. O que acontecera, as suas inquietações, os seus medos e o como já não sabia mais que fazer para calar o irmãozinho. Aquele anjo bondoso tranquilizou-os e até conseguiu que o pequenino adormecesse. Escutava inebriado aquela voz melodiosa que lhe respondia serenidade e esperança. Então pôde acalmar um pouco, recostando-se de encontro ao seu peito, fechando os olhos, sentindo pousar em si a sombra das suas asas delicadas.


09/03/2026

[1] Gotas

O José tem 76 anos. Fala-se de miséria habitacional, concretamente ao nível do telhado, que se encontra degradado, deixando que as gotas de chuva lhe entrem em casa e caiam em cima da cama. Imagina-se o que lá vai dentro. Além disso, o seu aspecto denuncia falta de cuidados de higiene pessoal, em que as pulgas encontraram poiso; parece, ainda, não usufruir de uma alimentação digna, sendo visto, na rua, a comer apenas bocados de pão com alguma outra coisa. O José é portador de algum atraso mental e vive sozinho, sem suporte familiar, depois de terem falecido, primeiro o cunhado, única pessoa com maior tino naquela família, e depois a irmã, que lhe cuidava da alimentação e da roupa.

Ninguém pediu nada. Há olhos para ver. Ouvidos para ouvir. E uma pele para se arrepiar.
Há uma intervenção para fazer.

Continua

07/03/2026

Ao Domingo


- Só agora? Ficaste a despir o padre?!
Já me habituei a este tipo de ralhete, de voz forte, do pai, ao domingo quase à hora de almoço. Ele quer que eu ajude a mãe na cozinha, mas é ela que não me quer lá… manda-me sempre de lá para fora, diz que eu só atrapalho, que não sei fazer nada… quando a culpa não é minha, é ela que não me ensina. Por isso, não tenho que me apressar. Na casa de Deus estou melhor do que na minha.
Não tarda, vou fazer doze anos e já há um certo tempo que pensava em ajudar a dar catequese, mas tinha vergonha de o dizer ao senhor prior. A Fernanda, que fez a Profissão de Fé comigo, ajuda no grupo do primeiro ano e eu comecei a achar que também podia ir aprendendo. Há dias disse-o à tia e ela, num domingo destes, levou-me à sacristia, no fim da missa, e falou com o senhor prior.
Não sou de falar muito. Sou um bocado tímida. Por isso, a tia falou por mim.
Comecei logo no domingo seguinte e estou a gostar muito. Para já, fiquei a auxiliar no grupo do segundo ano; tenho um guia para seguir as lições e cabe-me preparar uma por mês. Posso dizer que é muito interessante como e o que se aprende assim, a ensinar, muito mais do que quando frequentava a catequese para aprender.
É esta a razão de me demorar a chegar a casa e, também, porque gosto de me encontrar com as minhas amigas pelo caminho. Mas o domingo é um dia diferente dos outros dias da semana. Será assim tão difícil de perceber?

24/02/2026

Arrepiar Caminho I


Valha-me Nossa Senhora, 
Mãe de Deus de Nazaré! 
A vaca mansa dá leite, 
 a braba dá quando quer. 
A mansa dá sossegada, 
a braba levanta o pé. 
Já fui barco, fui navio,
mas hoje sou escaler. 
Já fui menino, fui homem, 
só me falta ser mulher. 
Valha-me Nossa Senhora,
Mãe de Deus de Nazaré! 
(Ariano Suassuna, Auto da Compadecida)

A estrada é larga. Asfaltada.
Ouso o caminho quando o sol se reclina, por cima das ramagens, em direcção ao mar. Deixo a estrada principal e desço a ladeira íngreme  via semi-nova, pouco movimentada  rumo à natureza, levando pela trela o meu camarada de passeio. Uns metros adiante, solto-lhe a trela para o deixar correr à sua vontade, agora que a estrada é só para nós.
Faz-se bem este caminho, em modo de passeio, sempre a descer.

A dezena vai-me rolando entre os dedos da mão direita, enquanto os pés vão pisando o asfalto negro na sede da caminhada. Mistérios Dolorosos.

Lá em baixo, no vale, onde o arvoredo se torna mais denso, o meu amigo já anda a farejar as bermas da encruzilhada, enquanto espera que eu lhe indique a direcção a tomar. Hoje vamos virar à esquerda, sempre pelo asfalto, deixando o caminho da direita, em terra batida, para percorrer amanhã. Ainda ao longe, faço-lhe sinal com a mão e ele avança resoluto. Gosta de ir sempre à frente, no comando, como se fosse ele o dono da viagem, e eu permito-lhe esse gosto.

Uma ligeira subida e deixamos o asfalto para trilhar o caminho da floresta que nos fica do lado esquerdo. O caminho é nosso conhecido de outras caminhadas. Descemos agora. Ele corre; eu vou ficando um pouco para trás, assobiando-lhe de tempos a tempos, para que não pense em dispersar-se por outros lugares que não o caminho que levamos. Na bolsa, que levo a tiracolo, enfio a trela – que já me cansa na mão esquerda – e tiro a máquina fotográfica para tirar umas fotos a uns maciços de cogumelos que me surpreendem o olhar, que grande alfobre nasceu aqui!

Continuo. No próximo cruzamento lá está ele novamente à minha espera, olhando-me ansioso. Indico-lhe a subida, à direita, e seguimos quase lado a lado, agora que é a subir. A meio da ladeira há um carreiro à esquerda, por onde já fomos uma vez, até uma pequena capela; e uma curva à direita na continuação desta estrada de pedra sobre pedra. Bordejam-na alecrins, rosmaninhos, silvados de amoras ainda verdes e algumas flores cor-de-rosa de chícharos-selvagens. Tiro mais umas fotos – este mundo é um jardim que me seduz!

Guardo a máquina fotográfica e penso que está na hora de voltar para trás, porque já andámos a metade do tempo que determinei para esta caminhada, e é preciso fazer outro tanto tempo no mesmo caminho de regresso, antes que se faça noite. Mas…

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