09/09/2026

Marcas… de água

A avó foi sempre uma mulher muito religiosa. Com ela aprendi, muito cedo, muita da doutrina que só iria aprender, mais tarde, na catequese. Agora, que já sou mais crescida, começou a falar comigo de mulher para mulher. Eu, ainda um pouco envergonhada pelo que ela me conta e ensina, começo já a sentir-me uma rapariga crescida. Nunca a mãe ousou falar comigo destes assuntos de mulheres. As coisas que ela já me contou! Nem sei se deva reproduzir tudo, pois são coisas de me fazer corar. Se a mãe sabe pode ficar aborrecida, com o génio que tem! Mas a avó diz que eu tenho que saber estas coisas, que são muito importantes para uma mulher. Ela contou-me que há meninas com a minha idade que já são mulheres e que eu também posso ser brevemente. Ser mulher quer dizer que irei ter a menstruação uma vez por mês. Esta é um sangramento que indica que o meu corpo está preparado para poder vir a ter filhos. Por isso, não me convém que eu brinque com os rapazes, porque as mulheres devem ser recatadas, e eles não têm que saber nada disto.
Ela contou-me que, no seu tempo, as meninas não sabiam de nada e eram apanhadas de surpresa quando sangravam pela primeira vez e algumas ficavam aterrorizadas a pensar que iam morrer. Mas com ela foi diferente. Contou-me que foi mulher muito tarde. Tinha quase vinte anos, já namorava até o avô, e menstruação nada. Foi preciso ir para a praia, no Verão, durante quinze dias. Lá, um banheiro dava-lhe banho no mar todos os dias logo pela manhã, que ela até engolia uns pirolitos. Como eu não sabia o que eram pirolitos, ela explicou. O que me lembrou o que um amigo das minhas outras duas primas também há dias me fez.

Estas minhas primas, a Graciete e a Sílvia, são filhas da minha tia Rosária, irmã da minha mãe. Alguns domingos, depois da missa, fico com elas toda a tarde. Num destes domingos fui com elas e os tios à praia. E foi lá que encontraram o tal amigo. Este queria brincar a empurrá-las para dentro das ondas. Elas fugiam e como ele não as apanhava, fui eu que paguei. Pegou em mim ao colo e mergulhou-me numa onda enorme. Como eu não estava a contar, engoli muita daquela água salgada, não só pela boca mas também pelo nariz, que até me engasguei toda. É isso que é engolir um pirolito.

Com os banhos na água do mar, a avó ficou, finalmente, menstruada pela primeira vez. Diz que sangrou tanto que a melhor solução que encontrou foi a de vestir umas ceroulas do pai dela, porque diz que no seu tempo as mulheres não usavam cuecas. Perante a minha cara de espanto, ela pareceu-me um pouco embaraçada, mas lá foi contando que as saias eram compridas e que usavam uns saiotes que, nessas alturas, enrolavam às pernas presos com um alfinete.
Pronto, não me parece que deva entrar em mais pormenores. Mas que ela me tem ensinado muito... isso tem!

(Publicado em livro: Memória Alada, 2011)

07/09/2026

A Casa dos Ratos 1.1


Ficou quieto e mudo, pensando numa solução. Sabia que podia vir a ser uma estragação naquela casa se os deixasse ficar, mas não se atrevia a matá-los. E se os criasse como animais domésticos? Mas surgiram-lhe algumas dúvidas: seriam domesticáveis? E não seriam novos demais para os criar? E se os ratos forem portadores de doença logo que nascem? Será que haveria alguma vacina para eles? E que alimentação lhes havia de dar?…
Ainda olhou em redor à procura de algo para onde os deslocar, pois ali no trigo é que não os queria! Não vendo nada que jeito tivesse, acabou por levantar a aba da camisola, improvisando-a numa espécie de bolsa, onde os depositou, fechando-a depois, cuidadosamente, de encontro a si.
E rumou a casa. Chegado à cozinha entreabriu a aba da camisola para mostrar à mulher e à filha, ainda com caras de sono:
— Olhem o que eu encontrei! Quatro ratitos…
— Eh, estás doido ou quê?... chega isso para lá!...
— Tão lindinhos, pai, e tão pequenininhos, ainda são de mama.
— Arranjem-me uma caixa, ou algo para os deitar… um ninho fofinho…
— Não deves estar bom da cabeça, isso são animais cheios de doenças que se transmitem aos humanos – protestou a mulher contra aqueles hóspedes que não desejava ter em casa.
— Mas eu vou criar estes ratos como animais domésticos. Levo-os ao veterinário para ele me aconselhar… e vaciná-los.
— Eu acho melhor soltá-los lá fora…
— Isso é que não! Ainda podiam vir fazer muitos estragos.
— Então mata-os, ou dá-os ao gato.
— Estás louca?!
— Então está bem. Se quiseres apanhar uma doença, cria-os. Esta agora… criar ratos!... para quê? – resmungou a mulher virando-lhe as costas.
— Ó pai, acho que eles precisam de leitinho, vou embeber um algodão em leite para eles sugarem.
— Mas primeiro arranja-me lá uma coisa para os pôr…

06/09/2026

Subir o Caminho VII

As pedras... Por vezes as pedras que nos surgem no caminho são ásperas e pesadas, impossíveis de remover. Pedregulhos e penedos soltos que têm de ser contornados para encontrarmos um caminho mais macio e sereno. Caminho que se vai fazendo ao caminhar, a cada passada. 

Quando a vida flui e caminhamos naturalmente pelos nossos pés, livres e sacudidos, sem dores musculares ou nas articulações, desimpedidos de muletas ou bengalas, torna-se mais fácil a caminhada, mas não isenta de tropeços ou atrasos. Há sempre que prestar atenção às pedras do caminho. Elas estão por lá. Podem espreitar onde não esperamos. Até num caminho já tantas vezes trilhado, podemos ser surpreendidos, apanhados desprevenidos por um grande calhau ou pedranceira, rolados do alto, estatelados ao comprido, sem eira nem beira. Há que contornar, ultrapassar, e seguir.

A Vida é o que é; e as pedras sempre serão o que são. É isso que temos que interiorizar, porque não podemos mudar isso. Nada a fazer senão aceitar, por muito que nos custe e atrapalhe o nosso caminho. Desviemo-nos, portanto, dos pedregulhos. Não deixemos que nos importunem, e prossigamos a caminhada sem que nos embaracem os passos. 

Pedras no caminho sempre as houve. Há que aprender com o passado para caminhar no agora, rumo ao futuro idealizado. Mas quem aprende?...

Há montes e vales, riachos de água fresca, desertos, oásis... e tantas mais coisas que fazem parte do caminho. Da subida.

Há também as asas do vento e o embalo do sentimento, para ir saboreando algum pequeno voo.

Mas uma certeza nos deve guiar: não caminhamos sozinhos. E isso nos deve animar.


“Eu caminho, sem ver o caminho
Eu caminho por sendas de paz.
Mas eu sei que há alguém
que me ajuda no caminho.
Mas eu sei que há alguém
e com Ele irei caminhar.”

(Sendas de Paz)


04/09/2026

[2] Outras Gotas

(anterior)

A IPSS local tomou conhecimento das aparentes necessidades do José, através de um dos directores, que atentou na situação e levou o problema à reunião de direcção. A direcção deliberou avaliar a situação e estudar as possibilidades de resolução. Talvez conseguir-lhe um subsídio eventual para as obras do telhado e trazê-lo para o Centro de Dia onde tomaria as refeições e o banho.
Dois dos directores ficaram responsáveis pelo caso e, no dia seguinte, falaram com a Assistente Social da Instituição.
Seria preciso, primeiro, conhecer a fundo a situação e dar apoio perceptivo ao José, ou seja, ajudá-lo a perceber e a avaliar o seu problema, a dar-lhe significado e a estabelecer objectivos realistas e, só depois, dar-lhe o apoio instrumental: ajudá-lo a resolver o problema através da prestação concreta de bens e serviços. O problema é, primeiramente, do José, ele é que tem de querer resolvê-lo, se conseguir perceber que tem um problema e que o quer resolver.
Combinaram fazer uma visita ao José, ficando incumbido de o abordar, para conseguir agendar a visita ao domicílio, o director que trouxe o problema à discussão, o qual teria mais hipóteses de ser bem sucedido, uma vez que tem alguma confiança com ele.

Passados dois dias a visita estava marcada. O José disse que sim, que podiam ir lá falar com ele quando quisessem. Seria então no dia seguinte.

Continua

03/09/2026

Sombras I

O tempo convidava a um mergulho naquela água reluzente. Mas o calor escaldante que se fazia sentir desenhava-se numa capicua de sofrimento. Caminhando pela beirinha da piscina, puxando pela mão o seu irmãozinho que ainda mal andava, o menino procurava desesperadamente com o olhar. No bolso, a chave de casa - uma mansão antiga, grande demais para dois meninos sozinhos. O pequenino chorava, ora caindo, não conseguindo acompanhar o passo agitado do irmão, ora sendo arrastado e obrigado, pelo mais velho, a levantar-se. A criançada ficou curiosa perante o espectáculo, e alguns adultos pareciam temer que os dois pequenos caíssem à água. Que se passaria com estes meninos que destoavam daquele ambiente? Infrutíferas buscas causavam cada vez mais desânimo neste menino de olhar cansado e fugidio. Havia já duas noites e dois dias em que tudo se resumia a uma espiral de angústia devastadora. Não a encontrava nos locais de lazer, que tão bem conhecia, habituado que estava a que ela os lá levasse. Procurara-a e não a encontrara. Urgia, agora, repensar a estratégia, antes que o desalento e o pânico se instalassem por completo. Sentado na soleira da porta da igreja, esperava. Talvez uma luz divina o iluminasse. Então pareceu-lhe que um anjo lhes falhava. Respondeu às suas perguntas como se o céu os tivesse vindo socorrer. Tinha necessidade de confiar em alguém. Contou tudo. O que acontecera, as suas inquietações, os seus medos e o como já não sabia mais que fazer para calar o irmãozinho. Aquele anjo bondoso tranquilizou-os e até conseguiu que o pequenino adormecesse. Escutava inebriado aquela voz melodiosa que lhe respondia serenidade e esperança. Então pôde acalmar um pouco, recostando-se de encontro ao seu peito, fechando os olhos, sentindo pousar em si a sombra das suas asas delicadas.


01/09/2026

A molha


Os pingos grossos de chuva levantaram o cheiro a terra molhada. 

A manhã acordara suavemente, com ténues raios de sol a espreitar por entre as nuvens que anunciavam a primeira chuva do Outono. Esperá-la tornou-se em ânsia crescente à medida que ela mais se fazia adivinhar.
E ela, então, espreitou ao longe. Observei-a a começar, para lá do arvoredo, a pintar tudo de branco até chegar aqui. 
Primeiro um pingo. Logo outro e outro… e o cheiro a terra molhada a elevar-se com a suavidade e doçura de um chupa-chupa, que apetece saborear devagarinho. 
Chamei-a, “vem chuva, vem!...”, e ela não se fez rogada. Veio lamber o alpendre de um lado ao outro, enquanto eu, com uma vassoura, a ajudava a poli-lo de um brilho molhado apetecível, removendo a sujidade à sua frente. De pés descalços na água morna, cabelo e roupa a escorrer, senti-me a brilhar mais do que o alpendre. Toda eu era riso por dentro e por fora, feliz por poder apalpar o Outono que me beijava. 

Agora, depois de ter ouvido das boas da mãe e de mudar de roupa, olho-o da janela, de cara encostada ao vidro embaciado. O Outono e a chuva podem ser sonhos quentes que molham o rosto e embalam a alma. A mãe, sempre tão azeda e fria, sabe lá alguma coisa disso!

02/08/2026

Cresci


Chegou o Verão e, com ele, as férias grandes. …
Eu gosto do quentinho do Verão. Do cheiro das flores dos pinhais, que a brisa da tarde me faz chegar, quando passo lá perto. E também do canto das cigarras. Só tenho medo duma coisa: das cobras que costumam aparecer nesta altura.
E gosto das idas à praia. Mas este ano preciso de um fato de banho novo, pois o que tenho já é pequeno. Acho que cresci muito desde que comecei este caderno. Já foi há tanto tempo, que as páginas até já estão soltas.
Sim, é verdade: cresci. Quando o comecei, andava na terceira classe e agora já acabei o segundo ano do ciclo… quero dizer, acabei a escola, pois já está decidido que não vou continuar. Os pais pensam que aceitei isso pacificamente, mas eu, embora não tenha feito dramas, sinto alguma revolta dentro de mim, pois não era isso que eu queria. E pior me sinto quando a mãe repete, para quem a quer ouvir, o que os professores disseram que “quem é bom é que sai!”. Mas, um dia, ainda hei-de ganhar coragem e dizer-lhes, bem na cara, que me quebraram as pernas!
Quebraram-me, sim, as pernas e, com elas, os sonhos de vir a ser professora.
Posso dizer que a minha meninice morreu. Cresci.
Ao longo deste tempo fui aqui rabiscando alguns retalhos soltos, como soltas se acham as folhas do caderno, da vida desta infância que agora me foge. De fora ficaram muitas coisas por contar, que se perderam no tempo, e que este se encarregará de, aos poucos, talvez, apagar completamente.
A minha história mais que perfeita acaba aqui.
Agora só quero um fato de banho novo.

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