07/06/2026

[2] Outras Gotas

(anterior)

A IPSS local tomou conhecimento das aparentes necessidades do José, através de um dos directores, que atentou na situação e levou o problema à reunião de direcção. A direcção deliberou avaliar a situação e estudar as possibilidades de resolução. Talvez conseguir-lhe um subsídio eventual para as obras do telhado e trazê-lo para o Centro de Dia onde tomaria as refeições e o banho.
Dois dos directores ficaram responsáveis pelo caso e, no dia seguinte, falaram com a Assistente Social da Instituição.
Seria preciso, primeiro, conhecer a fundo a situação e dar apoio perceptivo ao José, ou seja, ajudá-lo a perceber e a avaliar o seu problema, a dar-lhe significado e a estabelecer objectivos realistas e, só depois, dar-lhe o apoio instrumental: ajudá-lo a resolver o problema através da prestação concreta de bens e serviços. O problema é, primeiramente, do José, ele é que tem de querer resolvê-lo, se conseguir perceber que tem um problema e que o quer resolver.
Combinaram fazer uma visita ao José, ficando incumbido de o abordar, para conseguir agendar a visita ao domicílio, o director que trouxe o problema à discussão, o qual teria mais hipóteses de ser bem sucedido, uma vez que tem alguma confiança com ele.

Passados dois dias a visita estava marcada. O José disse que sim, que podiam ir lá falar com ele quando quisessem. Seria então no dia seguinte.

Continua

06/06/2026

[1] Gotas

O José tem 76 anos. Fala-se de miséria habitacional, concretamente ao nível do telhado, que se encontra degradado, deixando que as gotas de chuva lhe entrem em casa e caiam em cima da cama. Imagina-se o que lá vai dentro. Além disso, o seu aspecto denuncia falta de cuidados de higiene pessoal, em que as pulgas encontraram poiso; parece, ainda, não usufruir de uma alimentação digna, sendo visto, na rua, a comer apenas bocados de pão com alguma outra coisa. O José é portador de algum atraso mental e vive sozinho, sem suporte familiar, depois de terem falecido, primeiro o cunhado, única pessoa com maior tino naquela família, e depois a irmã, que lhe cuidava da alimentação e da roupa.

Ninguém pediu nada. Há olhos para ver. Ouvidos para ouvir. E uma pele para se arrepiar.
Há uma intervenção para fazer.

Continua

05/06/2026

Sombras I

O tempo convidava a um mergulho naquela água reluzente. Mas o calor escaldante que se fazia sentir desenhava-se numa capicua de sofrimento. Caminhando pela beirinha da piscina, puxando pela mão o seu irmãozinho que ainda mal andava, o menino procurava desesperadamente com o olhar. No bolso, a chave de casa - uma mansão antiga, grande demais para dois meninos sozinhos. O pequenino chorava, ora caindo, não conseguindo acompanhar o passo agitado do irmão, ora sendo arrastado e obrigado, pelo mais velho, a levantar-se. A criançada ficou curiosa perante o espectáculo, e alguns adultos pareciam temer que os dois pequenos caíssem à água. Que se passaria com estes meninos que destoavam daquele ambiente? Infrutíferas buscas causavam cada vez mais desânimo neste menino de olhar cansado e fugidio. Havia já duas noites e dois dias em que tudo se resumia a uma espiral de angústia devastadora. Não a encontrava nos locais de lazer, que tão bem conhecia, habituado que estava a que ela os lá levasse. Procurara-a e não a encontrara. Urgia, agora, repensar a estratégia, antes que o desalento e o pânico se instalassem por completo. Sentado na soleira da porta da igreja, esperava. Talvez uma luz divina o iluminasse. Então pareceu-lhe que um anjo lhes falhava. Respondeu às suas perguntas como se o céu os tivesse vindo socorrer. Tinha necessidade de confiar em alguém. Contou tudo. O que acontecera, as suas inquietações, os seus medos e o como já não sabia mais que fazer para calar o irmãozinho. Aquele anjo bondoso tranquilizou-os e até conseguiu que o pequenino adormecesse. Escutava inebriado aquela voz melodiosa que lhe respondia serenidade e esperança. Então pôde acalmar um pouco, recostando-se de encontro ao seu peito, fechando os olhos, sentindo pousar em si a sombra das suas asas delicadas.


04/06/2026

A molha


Os pingos grossos de chuva levantaram o cheiro a terra molhada. 

A manhã acordara suavemente, com ténues raios de sol a espreitar por entre as nuvens que anunciavam a primeira chuva do Outono. Esperá-la tornou-se em ânsia crescente à medida que ela mais se fazia adivinhar.
E ela, então, espreitou ao longe. Observei-a a começar, para lá do arvoredo, a pintar tudo de branco até chegar aqui. 
Primeiro um pingo. Logo outro e outro… e o cheiro a terra molhada a elevar-se com a suavidade e doçura de um chupa-chupa, que apetece saborear devagarinho. 
Chamei-a, “vem chuva, vem!...”, e ela não se fez rogada. Veio lamber o alpendre de um lado ao outro, enquanto eu, com uma vassoura, a ajudava a poli-lo de um brilho molhado apetecível, removendo a sujidade à sua frente. De pés descalços na água morna, cabelo e roupa a escorrer, senti-me a brilhar mais do que o alpendre. Toda eu era riso por dentro e por fora, feliz por poder apalpar o Outono que me beijava. 

Agora, depois de ter ouvido das boas da mãe e de mudar de roupa, olho-o da janela, de cara encostada ao vidro embaciado. O Outono e a chuva podem ser sonhos quentes que molham o rosto e embalam a alma. A mãe, sempre tão azeda e fria, sabe lá alguma coisa disso!

03/06/2026

A Casa dos Ratos 4

(anterior)

Os ratinhos na sua gaiola
Vão brincando e vão sonhando
Que um dia, não sabem quando
Mas um dia, qualquer dia
Hão-de roer e roer
Ou esticar, ou encolher
Mesmo a muito doer
E passar
De dentro para o outro lado
Debaixo dos bigodes do gato
Que os vigia deitado
Dolente e anafado
À espera de os caçar.
Desengane-se o gatarrão
Que não. Bem pode esperar sentado.

Da prisão à liberdade
Há grades com frestas estreitas
Que os separam do mundo

Aqui têm o que comer
Túneis por onde correr
Camas fofas e quentinhas
E enfeites ao pescoço
E lá fora o perigo espreita
Mas isto de se ser rato
Tem muito que se lhe diga…

Não é com fitas e laços
Nem com uma qualquer espiga
Numa gaiola bonita
Que se prende um ratinho.
A ânsia de aventura
Da frescura da noite ao luar
De liberdade e tontura
A roer o seu belo manjar
Será sempre o que perdura
Para lá de qualquer fechadura
Que teime em o agarrar.

(continua)

02/06/2026

A Casa dos Ratos 3



As fitinhas coloridas iriam dar o nome aos ratinhos. Assim que Bia lhas pusesse ao pescoço os ratinhos já não seriam só ratinhos, mas sim: Verdinho, Amarelinho, Vermelhinho e Azulinho. E isso seria assim que mudassem para a gaiola nova que teriam.

Quem quer admirar os belos ratinhos,
Tão lindos e enfeitadinhos,
Com as suas fitinhas de cores?

Será então que o gato Tonecas,
Se vai perder por eles de amores?

No dia seguinte, quando a Bia acordou, a primeira coisa que fez foi retirar a tampa do cesto e servir aos bebezinhos miolo de pão embebido em leite – o seu biberão – (isto de criar ratos a biberão pode causar alguma confusão), é que os coitadinhos ainda eram de mama. Mas Bia, daqui a pouco, quando fosse comprar-lhes uma gaiola a uma loja de animais, iria trazer-lhes um pacote de comidinha adequada para ratinhos.

Na loja de animais, Bia deslumbrou-se com um mundo de bichinhos e coisinhas para eles. Foi difícil a escolha de uma gaiola, tanta era a oferta: de várias cores, de vários materiais (de vidro, madeira, plástico, metal), vários tamanhos e andares, vários acessórios… ena!
A gaiola que acabou por escolher, depois de se aconselhar com o simpático empregado, é de um material plástico multicolorido, de três andares com três escadinhas; tem duas casinhas, um comedouro e um bebedouro; tem também duas rodinhas de exercício e dois túneis. Será o sonho (ou o pesadelo) dos ratinhos. As escadinhas para trepar, as rodinhas e o túnel servirão para eles se divertirem. Os ratinhos gostam de explorar e o exercício só lhes fará bem.
Comprou algodãozinho de uma fibra adequada para as camas nas casinhas; palhinha de erva aromatizada para espalhar pelo chão e também serradura granulada absorvente para neutralizar os odores; e não podia faltar a comida: uma mistura de grãos de vários cereais, sementes e ração com vitaminas. Disseram-lhe que lhes pode dar também legumes, verduras e frutas; e que deve limpar a gaiola todas as semanas para evitar os maus odores e não atrair formigas, nem os bichinhos apanharem doenças.

Quem quer admirar os belos ratinhos,
Tão lindos e enfeitadinhos,
Numa gaiolinha a brilhar?

Ai! Será agora que o gato Tonecas,
Desistirá de os caçar?

Bia pegou num animalzinho com cuidado para lhe pôr a fitinha ao pescocinho. Esta não podia ficar muito apertada, mas também não muito larga para não cair. Sentiu algum receio de o magoar, mas verificou que o Vermelhinho ficava bem-disposto (e bonitinho!); e assim também o Verdinho, o Azulinho e o Amarelinho, que Bia acomodou no seu novo ninho.

01/06/2026

Luísa


Luísa casara numa manhã de Junho; era Primavera, quase Verão. Tinha sido uma cerimónia íntima no registo civil, apenas com um casal amigo de ambos por testemunhas, seguido de um almoço a quatro; e pronto.
O marido, filho único de pais já idosos, não tinha mais família chegada; por isso não queria grandes cerimónias nem boda e resolvera assim. Ela amava-o e conformara-se; que fossem um do outro, construir uma vida em conjunto, era tudo o que lhe bastava. Mas a sua família não lhe perdoou o casamento fugido e repudiou-a. Acabou, com muito custo, por se habituar a esse afastamento; em contrapartida ganhou outra família: os pais do marido, que passaram a ser a sua única família – eram eles que a estimavam como filha.
Casada ainda não era há um ano quando o marido lhe desapareceu, num dia de nevoeiro, qual D. Sebastião. Passou muito mal. A dor e o pranto pareciam querer roubar-lhe a vida. Dormia mal, comia mal… ou mal dormia e mal comia, ao que se seguiram quebras de tensão, desmaios; enjoos. Definhou. Estava grávida, soube-o depois. Isso a salvou. E foi mãe.
Ter um filho sem pai era ter que ser mãe e pai para ele. Dedicar-se inteiramente àquela criança supria-lhe a falta do marido e ajudava-a a não pensar no sofrimento que a falta dele lhe causava. O filho era vida, alegria ressurgida, amor perpetuado.
Visitava amiudadamente os sogros, os quais deliravam com o neto que ia crescendo esperto e saudável, recordando-lhes saudosamente o filho, ao mesmo tempo que lhes preenchia algum do vazio deixado. As férias e muitos fins-de-semana eram passados juntos, até que um dia mais tarde Luísa se mudou para lá. A idade avançada tornava-os cada vez mais dependentes e não tinham mais ninguém senão a ela e ao menino.
Mas não foi só isso que a levou àquela mudança de cidade e de vida. É que a vida também é feita de repetições…

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