terça-feira

Pétalas murchas

Chama-se Rosa. No seu nome, uma ténue semelhança com a sua vida – nos espinhos que uma e outra possuem. Ela bem que se rodeia de flores que lhe ornamentam o jardim e toda a casa, e que em cada manhã, ainda mal desponta o sol, ela cuida com carinho, colocando água nas suas raízes, e falando com elas como se fossem suas filhas. Mas toda a sua vida foi um movimento constante à procura de um método eficaz de alcançar um farol, ou mesmo um luar que lhe alumiasse a escuridão.

Bem cedo, quase criança ainda, a custo obteve licença dos pais para fazer uma viagem a outro país, à procura da felicidade que tardava em chegar. Mas regressou, passados poucos anos, com o corpo amortecido e pena no olhar. A felicidade não estava lá!

Num Verão cheio de azul experimenta um desconhecido sobressalto no peito ao conhecer um nefelibata que virá a ser o seu marido – um copinho de leite que nunca deixará as saias da mãe. Sentindo-se inundar por um sentimento avassalador, Rosa foi-se deixando levar na conversa deste menino da cidade e, passado algum tempo, uma sombra a vem trespassar ao perceber que se encontra grávida. Essa vulnerabilidade arrasta-a para um casamento a todo o vapor que a vai afastar da família e, lentamente, mergulhar num ostracismo do qual só com algum esforço se libertará.

Comungar difícil este, entre uma rapariga do campo e um moço da cidade. Lisboa é um degrau que a faz mergulhar de cabeça num imenso mar desconhecido.

É num apartamento, porta com porta com o dos pais dele, que se sente como que encerrada dentro duma caixa, de manhã à noite, enquanto ele sai para trazer, ao fim do mês, algum dinheiro para as despesas dos dois e do bebé que vem a caminho. Mas o maldito dinheiro mais parece ter-se erodido. Acaba por descobrir, mais tarde, que afinal os ordenados que ele diz ter em atraso já foram gastos a pagar as compras da mamã. Começa aqui a tempestade que vai provocando o distanciamento, rumo à morte de um amor que se foi tornando a fusão de um céu com um inferno. Luís nunca se libertará da mãe e Rosa nunca conseguirá penetrar esse casulo e, por mais que se esforce, não se consegue adaptar a essa vida. Assim, aos poucos, isso vai-se tornando numa enorme obstrução àquela vida a dois.

José nasce com estas linhas a delimitar o seu meio envolvente, e é ele o exponente que permite a Rosa emergir da loucura que já começava a apoderar-se dela. É por ele que, uns meses depois, decide regressar à terra, àquela tapeçaria de luz e cor, de cujo orvalho tanta falta sente. Luís, se os amar, acompanhá-los-á, pensa.

Com a promessa de que se mudaria definitivamente para a aldeia, Luís começa a passar com a esposa e o filho todos os fins-de-semana. Tudo parece bem encaminhado. De cada vez que estão juntos a paixão parece embriagá-los, o amor que os une parece derretê-los como se fossem chocolate.

Mas chega uma altura em que o que era certo começou a ser variável, e o que parecia ser, deixou de parecer. Luís alega afazeres que o retém na cidade e Rosa sabe que a silhueta da mamã nunca o largará. Mas ainda não sabe tudo. Um pressentimento avisador e conselheiro leva-a a procurar vasculhar o que porventura se passará.

E descobre. Mas descobre tarde demais. É como se um raio a fulminasse na vertical. O marido tem um amante. Um homem que vive com ele na sua casa, que partilha com ele a cama que era a sua. E sente-se conspurcada com esse lodo que lhe penetra a pele, a carne, as entranhas. E sente-se de repente atravessar por uma náusea que lhe arranca o coração, quando o marido, de rosto lívido como a cal, lhe confessa ainda mais.

E agora, é de cotovelo apoiado no parapeito da janela, e de mão sustentando a cara, que pensa no que há-de ser a sua vida, a partir do momento em que se tornou numa rosácea de pétalas murchas. Aquele momento em que recebeu a confirmação do já esperado. A confirmação de que contraiu HIV.

[Texto com 12x5=60 Palavras sugeridas - 6º Jogo no Eremitério]

22 comentários:

Fa menor disse...

Abri aqui outro separador...

antonio - o implume disse...

O teu mundo é denso, falta-lhe uns quantos espinhos aparados e mais rosas.

Fa menor disse...

Pois... mas há mundos assim! Sei-o.

Neste conto, quaisquer semelhanças com realidades não são meras coincidências.

Cris disse...

Parece mesmo que coincidências há muitas, infelizmente. O erro permanece no tempo, as consequências é que são cada vez mais graves. Mas nem assim se vislumbra uma mudança na forma de agir.

Cris disse...

Mais um texto que me deixou presa até à última letra. Muitos parabéns, Fá, pela inspiração, pela transpiração, pelos temas abordados, pela sensibilidade.
Beijinhos

Fa menor disse...

Cris,
é verdade. Se olharmos à nossa volta encontramos Retalhos que dariam filmes!

Obrigada por gostares de me ler :)
Beijinhos

André Couto disse...

ROSA

"Rosa em verso, rosa em prosa:
rosa rosa.
Verdadeira, recortada,
sempre votiva é a rosa.
Quem a dá, quem a ostenta,
quem a colhe, quem a inventa,
quem dela - a rosa - se lembra
faz o voto de quebrar
a pessoal solidão.
Se não troco o pão por rosas,
não troco a rosa por pão.
Rosa.
Rosa em verso, rosa em prosa:
rosa rosa.
Rosa nome, rosa coisa,
rosa flor, rosa rosa,
rosa traço de união.
Rosa fugaz, recolhida
noutra rosa já nascida.
De rosa em rosa é a vida.
Ó rosa breve fulgor,
lampejo na escuridão.
Se não troco o pão por rosas,
não troco a rosa por pão."

Alexandre O'Neill

Obrigado pela visita.
Não iremos estar de acordo naquela questão... Estaremos noutras certamente.
Cumprimentos.

Fa menor disse...

André,
Acredito que estaremos de acordo noutras coisas, sim.
Mas quando eu estiver em total desacordo com algo que mexa comigo, podes ter a certeza de que não ficarei calada.
Obrigada pela visita também. Será sempre um prazer saber-te por cá.
Cumprimentos

Ana disse...

viva :) estes rabiscos inspiradores já estão nos meus links ;)

vida de vidro disse...

Usaste de forma magistral as 60 palavras e contaste uma história que, hoje em dia, faz parte da nossa realidade. Muito bem. **

Multiolhares disse...

Quantas vidas desfeitas como esta, vidas com o aroma das rosas e a dor dos espinhos.
beijinhos

Gilbamar disse...

Quando a vida descobre a morte bem alí no aconchego do seu lar a dor é ainda maior. Como machuca e magoa a traição, mormente ao trazer desgraças. Belo teu blog. Será um prazer voltar a visitá-lo outras vezes.

Fraternos abraços neste domingo

Cátia disse...

Olá Amiga querida,

Apesar de saber de toda a tua capacidade e gosto pela escrita, conseguiste-me surpreender pela forma como conseguiste usar as 60 palavras. Sinceramente eu acho que nao teria conseguido... Muitos muitos parabens!

Nao posso deixar porém de deixar de lamentar a forma como termina, poderá passar uma má mensagem que nem nem é verdadeira... Fico com pena.

Beijinhos para ti

Fa menor disse...

Ana,
Obrigada!



Vida de Vidro,
Obrigada:)
A realidade por vezes toca a ficção!
Beijinhos



Multiolhares,
Vidas que se fazem e desfazem por se querem só rosas e não se suportarem os espinhos.
beijinhos



Gilbamar,
Se a traição dói, a desgraça aumenta a dor...
Obrigada pela visita e volte, sim!



Cátia,
pode-se dizer que, relativamente ao HIV, não existem grupos de risco. O que existem são comportamentos de risco. O que quer dizer que qualquer um está sujeito.

Já referi em cima que as semelhanças deste conto com realidades não são meras coincidências.

Esta história não é a história de uma rosa, mas partes de várias rosas que deram a história de uma Rosa...

Um grande beijinho
e critica sempre, que eu gosto!

Cátia disse...

Querida,

Fiquei com pena pela forma que terminou porque, por muito tempo, a doença foi (só) associada a grupos de risco, nomeadamente a homossexuais. Mas a verdade é que é uma doença que pode tocar-nos a todos, de todas as raças e estratos sociais. Chamei-te a atençao porque, o facto de o falares aqui, associado à homossexualidade, pode trazer esse preconceito. Porque foi falado em que o marido tinha um amante e não necessariamente em comportamentos de risco.

Mas como disse, o texto está optimo, gostei muito mesmo. Apenas nao podia deixar de dizer o que achei, como faço sempre :)

Beijinho grande amiga querida

Fa menor disse...

Mas se reparares, amiga, existe aqui um grande comportamento de risco.
O facto de haver uma relação extraconjugal com outra pessoa (independentemente de ser homem ou mulher) ao mesmo tempo que com o parceiro legítimo, sem serem tomadas as devidas precauções, faz com que se corra e se façam correr, vários riscos, nomeadamente no campo da saúde, para além da traição, que por si só, já é um grande mal que enferma o quotidiano das nossas sociedades.

Fizeste bem de levantar essa questão, dando oportunidade a falar de um assunto pertinente.

Um grande beijinho

marta disse...

Muito bom o texto, mas isso não é novidade. O tema é muito interessante também.

A falta de escrúpulos é o comportamento de risco, na minha opinião. E a necessidade das pessoas se esconderem, de fingirem o que não são, para serem aceites pela família, pelos amigos, pela sociedade, leva a que existam traições como a que descreves.
Muitas são histórias como esta que se contam no feminino e no masculino. Na minha opinião, resulta essencialmente de dois factores, a falta de caracter e o preconceito!

Beijinho grande!

Tiago R Cardoso disse...

que enorme escrita e perturbante momento, marcou-me...

Justine disse...

Admiro-te! "arrancaste" um belo texto dramático com aquelas impossíveis 60 palavras! Eu desta vez não tive disponibilidade para tal tarefa...:))

Fa menor disse...

Marta,
o teu comentário diz muito!
A falta de carácter e o preconceito são, muitas vezes, as desculpas para muitas situações de negligência e não só. Agora, a falta de escrúpulos começa a ser o dia-a-dia do nosso mundinho, levando inocentes a pagar facturas que não devem!

Obrigada e
Beijinho grande



Tiago,
Fico contente por teres gostado!
Obrigada



Justine,
pois, mas andei muito tempo a remoê-las! :)
Mas gostei muito de responder a mais este desafio.
Para Outubro há mais 12, por isso minha amiga, vá de começar a preparar...
Beijinho
E obrigada!

Peregrina disse...

Porque pensamos que nunca nos acontecerá a nós...

Gostei!

Um beijinho*

Fa menor disse...

Peregrina,
é verdade. Mas pode acontecer!
Beijo