sexta-feira

Sombras III

De cara envolta como que numa nuvem de pó de talco e sentindo-se a flutuar em denso nevoeiro, parecia-lhe ouvir umas vozes perto de si.
Alguém, uma vida, um fim. Uma noite de luar negro. Era jovem e um espectro se acercara. E não havia resistido. Tudo se resumia, assim, a um ponto final.
Pela maneira como ouvia a descrição parecia-lhe ver aquele seu ex-aluno da faculdade, aquele que via sempre como se fosse numa miragem. Um delírio, uma ilusão, um oásis inalcançável no seu deserto. Por vezes um sonho, outras, um pesadelo no seu sono agitado do meio da tarde. Via-o: o corpo esbelto, a cara miúda, o cabelo meio comprido… Era ele… ou delirava? Sentiu uma dor aguda.
Num relance, algumas cenas passadas desfilaram pelos seus olhos. Viu-se a andar pelos corredores de mãos ocupadas pelo material de trabalho. Deslumbrou-se com aquele olhar que se cruzou com o seu pela primeira vez. Sentiu o coração bater apressado ao verificar que o tinha perto de si, na mesma sala. Experimentou uma sensação de frio na espinha, que a percorria, e pressentiu que a sua alma o amava. Reviu hipnotizada o seu sorriso que lhe falava mais do que muitas palavras. Viajou para além do impossível quando ele a amou. Reviveu momentos a que julgava não ter mais direito desde que perdera o único homem que até então tinha amado. Assistiu serena à confirmação pelo médico daquilo que já sabia. Olhou-o longamente enquanto dormia, retendo bem a sua imagem para não mais a perder. Mudou de cidade e deambulou por corredores diferentes, porque não podia cortar as asas a um anjo. Foi de novo mãe e pai ao mesmo tempo. Reviu-se a viver cada dia tendo como único objectivo a felicidade dos seus frágeis rebentos. Reconheceu-se a caminhar à pressa pela rua, acorrendo ao chamado de uma amiga. Avistou-o ao longe e fugiu de um encontro, sentindo o coração partir-se outra vez em mil pedaços. Lembrou-se dos meninos sozinhos em casa. Sentiu a vida irremediavelmente perdida quando viu o automóvel na sua direcção a grande velocidade. Nuvens e sombras a toldavam agora. Estava de novo no presente. Pensava. Não… Havia uma confusão qualquer. Onde estou? Sentiu frio. O coração acelerava… Alguém se aproximou rapidamente. Encarou-a.
- Está viva! …
Afinal, de quem falavam?

Tinha acabado de acordar de um sono do qual não era para acordar. Do qual ninguém acorda assim... facilmente!

14 comentários:

r_ogeri_o disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
antonio - o implume disse...

Fiquei um pouco perdido. Vou ter que reler...

Cris disse...

Ai, Fá, isto não se faz! Deixar a gente assim com o coração nas mãos! Palpita-me que vai acabar bem! Será?
Aguardo ansiosa pelas cenas do próximo episódio. Mais um momento de excelente escrita.
Beijinhos.

Multiolhares disse...

que será que existe nesse caminho, entre a vida e a morte?
bjs

Fa menor disse...

r_ogeri_o,
pretensioso! :))
mas também acho que sim, que podias...
Obrigada pelo coment!



António,
és capaz de ter razão... talvez tenha confundido um pouco...
mas se releres, captas.



Cris,
pois... logo se verá como acaba...
Obrigada!
Beijinhos



Muitiolhares,
:) que será?!
Bjinhos

André Couto disse...

Estou a adorar o decorrer da história. Mais. Quando dei por mim estava submerso na sua escrita a sentir, não... A viver! como se comigo fosse, a angústia de uma criança perdida.
Não tenho pretensões de lhe pedir uma certa direcção no seu conto. Apenas peço: Não pare de escrever.
Saudações.

André Couto disse...

Já agora, e se me permite utilizar o seu blogue como meio de comunicação, quero mandar um abraço ao Rogério.
Roger, como as pessoas que estão ao nosso lado, e de quem assumimos que tudo sabemos, são capazes de nos surpreender. Visitei o teu blogue e senti que passei a conhecer parte de ti que pessoalmente me passou ao lado. Desculpa não ter visto o teu interior. Desculpa ter-te pedido tantas vezes para passares a bola quando estava sozinho em frente à baliza!
Desculpa pedir-te isto:
Não deixes de escrever.
Por egoísmo te peço:
Agora que Te vi, não me negues o privilégio de Te conhecer melhor através do único meio que o torna possível: as palavras.
Afinal uma imagem não vale mais do que mil palavras.

André.

Fa menor disse...

André,
obrigada pela visita e simpático comentário. E ainda um obrigado especial pela força!

Espero que o Rogério veja as tuas palavras aqui...

Saudações
e volta mais vezes :)

Peregrina disse...

Corajoso, tentar descrever essa experiência que tão polémica é, que poucos a vivem [ou dizem viver]! Gostei :)

Beijinho*

Justine disse...

Ambiente onírico muito bem conseguido, em que o leitor fica na dúvida se está na realidade ou no sonho.
Como sempre, fico suspensa a aguardar continuação...

Carol disse...

Quero mais...

Fa menor disse...

Peregrina,
... o acordar dum "sono" em que a probabilidade de acordar é infima, penso que deve fazer a pessoa ficar um pouco confusa... não sei.
Beijinhos


Justine,
Ambiente muito mais que onírico...
pode dar essa sensação, mas eu pretendia que fosse mais sombrio, se calhar não consegui...
Beijinhos


Carol,
terá continuação... não sei é quando.
Beijinhos

marta disse...

Os filhos, o "futuro" pai (isto em ficção, na realidade ficariam em instituições, ou seriam separados e o pequeno adoptado) e a mãe...

Estou ansiosa pelo final... se é que este não foi o final.

Está lindo!

Beijinhos!

Fa menor disse...

Pois, se calhar há que meter aí a Comissão de Protecção de Menores ao barulho :P

Obrigada e
Beijinhos