30/11/2009

Tatuagens Escondidas [4]


O mês de Novembro banhou-me de melancolia. Logo a mim, que até sou sempre tão alegre e tão sem problemas. O ambiente carregado dos dois primeiros dias, em que a vida girou em torno da morte, é que desencadeou esta carga negativa. De cada vez que penso em entrar no cemitério o mundo cai-me aos pés. Mas quis levar uma flor à avó; era o mínimo que podia fazer por tanto que ela foi para mim. Quando penso nela bate-me uma saudade tão grande!
Fui descendo a ladeira íngreme, em romagem com as outras pessoas, depois da missa, e, lá em baixo, lá estava aquele grande painel assombrado de casinhas e lápides brancas e cruzes, agora apinhado de gente, de flores e de velas acesas, que se podia ver cá do alto, brilhando por entre os muros caiados de branco, com um jardim de sicomoros na frente. Um local deveras assustador…
Embrenhada mais nesta visão fantasmagórica do que no coro de avé-marias, que se iam desfiando no cortejo encabeçado por duas lanternas e uma cruz ao centro, que luziam por cima dos olhares, levadas por três homens vestidos com umas vestes vermelhas de sangue, escorreguei nas pedras da beira do caminho e caí. Prontamente socorrida por quem ia ao pé de mim, larguei algumas lágrimas, mais pela vergonha do que pelas dores que sufoquei. Rasgaram-se as meias compridas, esfarrapei os joelhos que ficaram cravejados de pedrinhas e a sangrar, e quiseram obrigar-me a voltar para trás para ir à farmácia fazer um curativo. Mas teimei em prosseguir. A coragem tinha de se impor ao resto: tinha de deixar de ser a menina frágil e infantil que todos faziam de mim. Só no fim de levar a cabo o que ia fazer é que fui tratar das feridas.

Agora, pensando nisto tudo, lembro-me da canção que me faziam cantar sempre, em todo o lado, quando era pequenina, e a que achavam muita graça:

"Naquela linda manhã
Estando a brincar no jardim
A certa altura a mamã
Chamou-me e disse-me assim:

Não brinques só a correr
Tropeças sem querer
Depois ficas mal.
Respondi: pronto está bem
Mas antes, porém, esqueci-me de tal.

Não me lembro depois como foi
Escorreguei caí no chão.
No joelho ficou um dói-dói
No nariz um arranhão.
Desde então prometi ser melhor
De ser boa e ser feliz.
Faço agora tudo quanto
A mamã me diz."

Era apenas uma canção, porque reparo que não faço tudo quanto a mãe me diz. Já não sou a menina dócil que me querem. A rebeldia começou a apoderar-se muito de mim, juntamente com toda a melancolia que me envolve.

12/11/2009

Coração Descalço

Há histórias nascidas da bruma e do sol poente. Há poemas que se soltam de terramotos e de tornados. De vendavais. De névoas; ou de brisas mansas. Há laços feitos de marés e de encantamento. Poeiras de nebulosas que são gritos de esplendor. Ventanias – canções de amor.
Hesitantes, embalados por um sentimento oceânico, movidos por um sopro do olhar, experimentam tocar-se. E acontece o abraço… quente. E nele dois corações que pulsam em uníssono…
Foi uma carência de alma e de corpo que o fez afogar-se bem no meio daquele mar.
Seria tão inesperado assim? Será que mesmo nada o faria prever?
No fundo, lá bem no fundo de Taiki, uma secreta e escondida esperança de que pudesse acontecer. Ele sabia, tinha lido de Jorge Amado, que «A felicidade não se pode alimentar apenas de recordações do passado, necessita também dos sonhos do futuro.»
E o futuro se calhar estava ali, agora, naquilo que lhe parecia um sonho. Algo como música dançava, rodopiava em volta. Os olhos de Taiki abriram-se e as lágrimas retidas escorregaram-lhe em gotas pelo rosto insaciado. E as palavras não ditas a quererem-se adivinhar nos olhares…
Uma necessidade contida de ter alguém, nascida da aurora perdida, fazia com que se sentisse cada vez mais carente…
É quando o perpassa uma vertigem de medo: porque é que as mulheres não trazem manual de instruções? E atrapalha-se como um menino perdido, ali, de coração descalço.
– Oh! Eu não sei o que sinto…

[Continua em Longos Percursos, não deixem de Ler.]
Este foi só mais um meu pequeno contributo na história de Taiki, a pedido do Fontez.

05/11/2009

O Silêncio e a Dor

Não nos faz muito bem namorar silêncios.
Mas quando desenhamos a dor fogem-nos sempre as cores mais primaveris para outros pincéis, e os riscos que nos voam da mão e que nos sobrevoam a tela são em formas de raios saídos de trovoadas.
Nos silêncios apagam-se verbos que engoliriam certezas, dúvidas, afrontas, quedas, humilhações, entronizações, ódios, paixões, uma infinidade de credos ou razões.
A dor, essa, quase sempre se pinta em tons de negro. E muitas vezes de sangue.
Quando o silêncio e a dor se misturam só há lugar para tintas descoloradas que escorrem por entre as vértebras de uma cadeia, onde a noite e o dia, fundidos e amordaçados, se vêem aprisionados sem frestas para respirar.
O silêncio é morte: violência verbal.
O silêncio também é vida: saber calar.
E a dor é um fantasma que o silêncio não consegue ocultar.

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