20/12/2021

Presépio na Montra – continuando

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Mas como são cada vez menos, as figurinhas!... 

Ah, pois... lembro-me de que no ano passado, o meu amigo Zeca me pediu para trocar algumas comigo, das que eu tinha repetidas… mas conseguiu levar-me à certa, deixando-me bem menos das suas do que eu lhe dei das minhas. Das ovelhas levou-me metade do rebanho e, dos músicos, fardados a rigor, ficaram poucos, já nem parece uma banda filarmónica completa… que tonta que eu fui! Bem, é certo que me deu este moinho, parecido com o moinho das sapatilhas, que o meu moleiro não tinha casa; e este poço para a minha lavadeira tirar água e lavar as suas roupas, e mais umas bolas para a árvore de Natal que encontrei agora aqui misturadas com as fitinhas prateadas; por falar nisso, ainda me falta apanhar o pinheiro. É sempre um problema isso, pois, num ano destes que passou, apanhei uma ralhadela do pai por ter cortado um onde não devia, disse que estraguei um pinheirinho novo que estava a crescer e que fazia lá falta. Agora não sei o que faça… se vá procurar algum para cortar – mas eu sei lá onde é que não fará falta?! – ou se não faço árvore de Natal… na verdade, acho que mais importante é o presépio, que representa o nascimento do menino Jesus, e é o que comemoramos no Natal: o nascimento de Jesus. Mas a árvore de Natal, costumava erguê-la por cima da gruta do menino, como que para proteger das investidas da invernia e dar algum aconchego e abrigo àquele local tão inóspito onde teve de nascer o rei dos reis, por não haver lugar para eles nas hospedarias de Belém. É que estavam todas cheias de pessoas vindas de outras regiões, tal como José e Maria que tiveram de vir de Nazaré para darem os seus nomes no recenseamento na cidade onde pertenciam. Tão longe a caminhada a pé, apenas Maria sentada no burrito, pois estava de gravidez avançada e ser-lhe-ia muito penoso vir a pé todo o caminho. Coitadinho do burrito, um bom serviço que prestou a Maria e a Jesus! E, depois, juntamente com a vaquinha que dormia na gruta, ainda aqueceu com o seu bafo o menino depois de ele nascer.


14/11/2019

Quase como ouvi contar

Na era do antigamente - em tempos magros, de fome, quando os meninos, mal saídos da parca mama das mães, cedo iam ser criados dos senhores mais abastados, a fim de poderem ter um pouco mais para a boca do que na casa paterna -, o pastorinho do rebanho das cabritas todos os dias levava os animais a pastar em roda da capelita de San Sadurninho. Na bolsa do farnelito, umas míseras côdeas de broa seca, que o seu amo lhe mandava para o dia inteiro.

A fome apertava, a broa era dura de roer, e o santo na capelita tinha azeite numa griseta para arder.
O rapazito, faminto, eleva uma côdea em direcção ao santo, como quem espera uma bênção que a transforme em manjar do céu.

– Ó mê xantinho xan Xadurninho vosmixê dá lixenxa que eu molhe aqui nha broa no xeu guijaujinho?

E o santo, como bem de ver, nada de responder!
E torna o moço:

– Ó mê xantinho xan Xadurninho vosmixê dá lixenxa que eu molhe aqui nha broa no xeu guijaujinho?

E o Santo parecia que era mudo... ou fazia-se.

– Mas vosmixê não ouve ou quê?... Ó mê xantinho xan Xadurninho, xantinho da nha devoxão, vosmixê dá lixenxa que eu molhe nha broa aí, aí, nexe ajeitinho dexe xeu guijão?

E resposta, nenhuma!

– Ai vosmixê não responde? É porque quem cala conxente! Poix atão eu molho, e hei-de molhar e xopotear!

E assim, todos os dias, o coitadinho condutava a magra e seca broa com o azeite do santinho, que foi até ao lamber do acabar.

21/10/2018

Tempestade Vendaval

Sobravam tempos a ameaçar. Céus nublados e semblantes. Desconsertos, sem concertos nem sinfonias. Danças em dó maior.

E chegou, viu e quis vencer.
Em cegueira que se apodera das fragilidades, e destrói em segundos o que levou anos a mal erguer.
Ela desce e rodopia, roda e pia, pia e roda. Enrosca-se e enrola. Rola, rebola, revolve e revolta, às voltas, às soltas, sem tento nem portento que lhe trave e freio; sem meio de remir o que largou ou o devir.

Tempestade vendaval desengonçada atravessa a praça e as ruas; as vielas mais escondidas; os jardins e as florestas; as aldeias preguiçosas e cidades buliçosas, desde o casebre mais tosco até ao palácio real; castiçais e candelabros são apagados num fôlego, sem dó nem piedade de plebeu ou divindade.

Tempestade furacão, fura gente, fura almas, desalmada, descompensada, destrambelhada, sem coração nem entranhas, que causa dores tamanhas, torturas, tonturas e desgostos; salta em rostos pregões aos quatro ventos, arrastando-se pela lama, destelhando até à cama, rodopiando à lareira, soprando pela boca faúlhas de fogueira. Invertebrada sai pelos mundos de qualquer jeito e maneira, sem jeito nem maneira, de soltura e caganeira. Garganeira.

Mas creio firmemente num só Deus que nos governa e vela; quando nos atravancam uma porta, Ele escancara-nos uma janela.

24/05/2018

Se chove...


Chove. Chove se chove!

A andorinha estacionada no fio do telefone espaneja as asas de consolação.
Agora: um relâmpago, seguido de trovão que ecoa céu cinzento além.
A andorinha, porém, continua no mesmo sítio, alegre no seu banho de chuveiro, soltando, de vez em quando, a sua cantilena de satisfação.
Em baixo, dois melros pulam no tapete verde molhado do pasto verde recém-cortado; outra andorinha rasou o muro alto, indo enfiar-se debaixo do telheiro, direita ao ninho acolhedor das suas crias, que lá vivem o seu pequeno mundo o dia inteiro.

Os melros acabam por abandonar o recinto; e a andorinha, não minto, continua no seu duche matinal; ao mesmo tempo que um outro pardal se passeia em pequenos voos rasantes às folhagens verdes das plantas do canteiro do quintal, nelas pousando aqui e ali sem se demorar, beijando pérolas luzentes e macias de água, como quem as quisesse namorar.

A chuva abrandou um pouco, e a andorinha deu por finalizada a sua mais que tarefa refrescante sagrada. Foi e voou pelos ares na parda madrugada, enquanto eu observava pela janela, encantada.

Logo logo, a chuva recomeçou. E a andorinha voltou. Ao mesmo preciso lugar. E dali mirava o mundo ao redor. Era a sua praia. 

Eu é que não me posso quedar mais tempo à janela a mirar, não vá o mundo fugir ou parar. Daqui para a frente, se quiser escrever o que a andorinha fizer, só se me propuser inventar.

E se chove!...

10/12/2017

Presépio na Montra I – Nem que chovesse


O dia tem estado chuvoso. Uma chuva miudinha molha-parvos, que deixa o tempo baço, tipo nevoeiro denso.

Depois do almoço, observei, pela janela, que o fusco do dia estava a querer aliviar, a raiar uma pequena luminosidade. Sim, parecia uma *aberta. Saí à rua para confirmar se não chovia. Era, de facto, uma aberta e tinha de aproveitá-la. Calcei as botas e vesti uma capa impermeável para o caso de a chuva voltar. Peguei numa caixa de papelão e fiz-me ao caminho.

Sabia onde o encontrar. Lá em baixo, para lá da curva da estrada, a seguir à ladeira. E lá estava ele, em manchas verdes, na barreira inclinada. Pousei a caixa de cartão e toquei com as mãos aquele tapete luzidio de musgo fofo e húmido; mas não estava muito encharcado quando arranquei um pedaço grande, com muito cuidado para não se despedaçar. Queria-o o mais inteiro possível, mas sem ser maior que o tamanho da caixa.

Depositei-o no fundo do caixote e arranquei mais até o encher de alto coruto. Não me demorei muito nesta tarefa. O musgo era abundante ali, eu já o sabia.

Carreguei esse volume pela estrada acima, mas tive de parar algumas vezes pelo caminho, pousando-o na berma da estrada molhada, para descansar um pouco. Estava a querer começar a chover de novo, tinha de me despachar. Ainda por cima o fundo da caixa começou a ceder com a humidade e o peso e… caramba!, rompeu-se quando o tentei levantar do chão depois de mais uma paragem. Baixei-o logo, não dando tempo a que o musgo se esgueirasse pelo fundo abaixo. Tinha-lhe pegado pelas bordas do fundo, mas não era capaz de o abraçar todo com as mãos por baixo – ai, esta minha falta de habilidade… O que valeu é que já estava perto de casa. Deixei-o ali e fui a casa, direitinha à oficina do pai, à procura de algo que me desenrascasse. Encontrei uma pequena tábua fina e estreita – minha tábua de salvação – que seria pouco mais comprida que o caixote. Levei-a e enfiei-a por debaixo da caixa. Levantei o peso com algum esforço, agora parecia mais pesada ainda, ou seria do meu cansaço de andar para cima e para baixo, apressada com medo da chuva, que ameaçava. Mas nem que chovesse! Ele não ficaria lá.

Trouxe-o para casa, ainda antes que os pinguinhos miudinhos caíssem outra vez. Agora aqui está ele a postos para poder montar o presépio.
__________
*aberta = pausa na chuva até voltar a chover

16/08/2017

Atalho no Silêncio


A vida é composta de tantos momentos! 
Por vezes andamos ao sabor das ondas, outras vezes somos nós que imprimimos o rumo ao nosso barco, e tantas vezes contra a corrente. 
Algumas vezes podemos ir no seu embalo, outras devemos resguardar-nos. É preciso que encontremos o equilíbrio. Não nos releguemos para segundo plano, porque não nos podemos deixar fraquejar perante as cantigas das ondas; recebamos os seus beijos mas recusemos o seu jugo. 
Por vezes também precisamos que mais Alguém pegue nos nossos remos e reme connosco ou por nós. Pois muitas vezes o vento embala-nos, mas outras fustiga-nos. Não podemos deixar que a fúria do vento nos seque a alma, mas antes, deixemo-nos impregnar da suavidade da brisa mais ligeira, para que sejam os nossos dias como seda pura. 

E há sempre alguma (in)transparência na nossa vida que nos aquieta os passos por momentos – mais ou menos longos. Importa conseguir ver a luz para lá de qualquer neblina. Observar a luz evita certas tormentas. 

Convém estarmos abertos à aprendizagem – há quem nunca aprenda! –, a vida permite-nos aprender, tantas vezes a duras penas. Somemos vivências, todas as vivências, e depois guardemos só o que for bom de guardar. 

Acima de tudo, devemos ter consciência do que valemos, de modo a manter os pés bem assentes no chão: nem subir às nuvens, nem enfiar-nos num buraco. Mesmo que chegue a hora em que nos sentimos entre o voo e as pedras do caminho; por vezes atalho no silêncio, grito mudo de penitência e ou contemplação. 

A infância teceu-nos alvoradas na alma, que mais tarde nos fogem das mãos gretadas. Não nos resignemos!

28/04/2017

Gaivotas II


"Uma gaivota voava, voava,
Asas de vento,
Coração de mar.
Como ela,
Somos livres,
Somos livres de voar."


O dia entardeceu nublado. Aproximei-me do mar para lhe sentir o fresco. O areal cheio de gaivotas pousadas na areia. 
Dizem que gaivotas em terra significa tempestade no mar. Que quando o mar está agitado, as gaivotas vêm para a terra. Será isso um sinal a avisar que vai haver tempestade no mar?... O povo também diz: Gaivotas pela terra adentro, sinal de mau tempo. Pressentirão elas o mau tempo? Não sei. Eu gosto de as ver, ao longe. São tão bonitas no ar! Quando voam são muito bonitas, e em terra também o são. Junto ao mar têm-me feito companhia, horas a fio, em dias óptimos e mar espectacular. E marcam a distância: se tento aproximar-me, lá vão elas em voo. São bonitas, ao longe. Fascinam-me com a sua beleza. 

Ontem também notei que havia algumas gaivotas onde o mar não é assim tão perto. Andavam à procura de alimento. Uma, que parecia ter uma pata ferida, pulando só na outra pata, ficava para trás. Fiquei com pena. 
Lembrei-me do rifão que também já ouvi: gaivotas por terra, ou fome ou guerra. Seja como for, gosto das gaivotas! São como todos nós, como todos os outros seres vivos empenhados na sua sobrevivência. Gostam de peixe, quando há. Quando não têm, comem o que encontrarem. 


Canto e recanto aquela canção da gaivota. Uma música simples, canção de embalar, que me emociona. No caminho das pedras é promissor - o que quer que venha, será, com certeza, melhor. A ingenuidade, se calhar, assim me o dita. Meus quinze anos – tempo de semear sonhos. 
Fecho os olhos para sentir os sonhos com mais intensidade, e para não sentir mais nada. 

Pois eu gosto das gaivotas! 
Espero que sejam felizes. Como elas, espero ser livre e feliz.

O tempo está bom para semear sonhos…

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