11/08/2012

Carvão Incandescente


Um ferro de passar roupa na mão. Pesado. Parece que pesa mais do que eu. Quente. Tão quente que me afogueia o rosto. É um ferro em brasa: com brasas vivas lá dentro: um coração de brasas fulgentes a rechear um corpo oco. Um coração de fogo, mas que vai esmorecendo aos poucos e que é preciso avivar: soprar com força de um lado, até saíram fagulhas do outro.

Assento o ferro no descanso de ripas de latão; senão, se o pousar no lençol branco que forra a mesa de passar, corro o risco de ele fazer uma marca crestada triangular. É que a base é macia para poder deslizar na roupa, mas não é para lá se demorar. Tiro a mão da pega de madeira e observo-o: o corpo, escuro e todo rugoso, forma um bico na frente como a quilha de um barco e, por cima, tem uma chaminé na tampa (quase parece um pato com o seu bico aberto); na parte traseira, que é quadrada, tem uma pequena abertura, com uma peça redonda espetada do lado de cima, como se fosse uma porta, que se desliza um pouco para um lado ou para o outro, fechando ou abrindo, mais ou menos, para o ar circular e manter as brasas acesas. E, no cimo da tampa, que se prende ao corpo com uma pequena tranca parecida com uma manivela, está a pega em madeira, para agarrar o ferro sem queimar a mão. Pego-lhe outra vez e sinto-lhe o bafo quente. Por dentro arde esse coração em brasa, em cima de uma grelha de ferro um pouco levantada atrás, junto à abertura, para coar a cinza que se vai formando ao desmaiar do brasido.

A mesa de passar é improvisada numa ponta do balcão da loja, forrada com um cobertor e um lençol branco por cima. Tenho um cesto de verga cheio de roupa apanhada do estendal, para ser passada a ferro. E é atrás do balcão que inicio, com esforço, a tarefa de que a mãe me incumbiu. É a primeira vez que o faço sozinha, sem a mãe por perto. Das outras vezes, a mãe espetava-me o dedo, mais do que me ensinava: “isso não tem nada que saber, não tens visto como eu faço?”. É claro que a tenho observado, mas daí a aprender…
E, com pouca ou nenhuma habilidade, lá estico cada peça de roupa com a mão esquerda, enquanto a mão direita maneja o ferro por ela além, tilintando, à vez, ao pousar na roupa e no descanso. Mas isto de passar, vincar e dobrar a roupa tem a sua ciência. Quando chega a altura de passar umas calças, começo por olhar para elas sem saber como fazer. Dobro-as pelos vincos que já têm, estendo-as, levanto o ferro e tento…

O Henrique chega à loja, para vir aviar o que a mãe lhe mandou, e vê a minha dificuldade.
– Não sabes passar umas calças a ferro? Olha que não é assim que se faz!
Acho que não coro mais do que já estava. Ainda tento emendar, mas sem resultado.
– Deixa cá ver.
É ele que me ensina. Sim, é bem verdade, um rapaz é que me ensina a passar calças a ferro. A mãe dele ensinou-lhe aquilo que a minha não foi capaz de me ensinar. Ele mostra-me e explica-me como se faz: vincar uma perna da calça de cada vez, passar de um lado e depois do outro, dobrando com um certo jeito a outra perna em cima para não estorvar; depois repetir o mesmo na outra; assim não se corre o risco de fazer dois vincos porque não se passam as duas ao mesmo tempo.

É tão bom quando alguém nos acende uma luz, mesmo que seja com carvão incandescente.

23/06/2012

A Casa dos Ratos 2.2


O gato Tonecas, caçador de pássaros e de sonhos, espreitou, espreitou, mexeu e remexeu no cesto, subiu-lhe para cima, aflito por desencantar de lá a ninhada, até que o tombou.
A dona, na cozinha, ouviu e acorreu em socorro dos indefesos.
— Malandro! Isso não se faz aos meninos, seu atrevido!
— Miau… miau!... – como quem diz “não sou culpado”, ficou ali a observar a dona a compor aquela cena tão estranha.
Frustradas as intenções do bichano, que não teve outro remédio que não o de conformar-se (conformar-se não, que ele era lá rapaz para se conformar!... eles não haviam de perder pela demora!), Bia aconchegou os ratinhos no seu ninho, vedando bem o cesto, ao mesmo tempo que repreendia o Tonecas, passando-lhe, depois, a mão pelo pêlo:
— Não se mexe aqui, ouviste? Uns bichinhos tão lindos e o menino com apetites? Ai, ai, ai!...
O Tonecas fingiu-se obediente e, amuado, ficou por ali como que a tomar conta deles. De vez em quando parecia lançar-lhes uns olhares de irmão mais velho, mas longe de se enamorar pelos ratinhos, estudava alguma forma de os meter para o bucho.

Enquanto isso, a dona foi procurar, na sua caixinha de costura, umas fitas fininhas de cores, que tinha comprado há uns tempos para uns trabalhos que não chegou a fazer. Vinham mesmo a calhar: verde, amarelo, vermelho e azul. Também havia uma fita branca e outra cor-de-rosa, mas rejeitou essas cores por lhe parecerem muito femininas… e não sabia ainda se entre os seus bebés havia meninas. Amanhã iria comprar uma gaiola apropriada para eles e enfeitá-los-ia, cada qual com o seu lacinho de seda colorida ao pescoço, para ficarem janotas. Ah, eles haviam de ficar medonhamente lindos com os seus lacinhos coloridos!
Esperava que, assim, o Tonecas os visse com outros olhos, que, afinal, eram coisa fina, intocável, e tirasse deles o sentido como petisco.


15/06/2012

A Casa dos Ratos 2.1


O gato Tonecas era um gatarrão feio, de bigodes grandes e fartos. Lembrava o Gato Malhado da Andorinha Sinhá. Saltava de telhado em telhado, deambulava pelos quintais e, quando lá lhe parecia, às vezes passados dias, regressava para casa trepando o muro alto do pátio.

Do alto do seu trono observava o seu reino antes de se dispor a descer. Algumas vezes percorria o muro até ao telhado da alpendorada, pela frente da cozinha e da adega, à caça dos pássaros que por lá poisavam. Quando descia, esgueirava-se pelo alpendre, rente à parede, para dentro da cozinha se a porta não estivesse bem fechada, ou sorrateiramente pela janela se entreaberta. Encontrava sempre maneira de entrar; em último caso dava a volta à casa e entrava pela gateira, rente ao chão, no portão da garagem; com alguma sorte a porta de dentro, que dava acesso à casa, haveria de estar só encostada!

Mas era educado: não subia à mesa nem aos armários. Dava uma volta pela cozinha e pelo resto da casa, se alguma porta interior estivesse aberta e, se não visse ninguém, voltava a sair e estendia-se ao sol no alpendre, ou enroscava-se na sua cama improvisada lá num canto.

Naquele dia não entrou em casa. Encontrou no alpendre algo que lhe despertou a atenção. Espreitou, por umas frestas, para dentro daquele cesto de papéis bem vedado por cima. Lá de dentro vinha um odor que lhe abriu o apetite… miau!...

02/06/2012

Procurando Entender a Mãe


A vida para a mãe é tão simples: resume-se ao trabalho na terra: “É da terra que vem tudo”.

Ela diz que a sua vida foi sempre essa enquanto era rapariga: “andar acarvada no campo a mondar arroz… e comer umas batatitas azedas!...”
– “Ninguém passa o que eu passei!”
Trabalhar de sol a sol; sair de casa ainda de noite e, no regresso, dormir a andar pelo caminho e passar à porta de casa sem dar conta, até as colegas a despertarem: “Ó Maria, aonde é que tu vais? Olha que a tua casa já ficou lá para trás!...”
– “Ninguém passa o que eu passei…”
É verdade que ninguém passa o que os outros passam. Cada pessoa tem que viver a sua própria vida. Não há duas vidas iguais. Mas o que a mãe quer dizer é que teve uma vida dura, passou tormentos.
– “Quem é que hoje passava o que eu passei?!”
Ela diz que, naquele tempo, não havia dinheiro; e que a mãe dela a mandava ir vender figos para “arranjar algum dinheirito”. E lá ia ela, com uma cesta à cabeça, até à praia – “Ó minha senhora, quer figos?” – “e p’ra quê?... p’ra arranjar cinco escuditos… e vinha todo o caminho a contar a moeditas”.
– “Tu sabes lá o que é a vida!... hoje em dia nem sabem que vivem no mundo!”
Por isso, a mãe vive intensamente a sua vida ao ar livre da natureza; porque não sabe viver de outra maneira; e porque não quer viver de outra maneira.
Eu sei que a vida dela, em solteira, não foi sempre assim como diz. A tia disse-me que a mãe até foi uma privilegiada, porque foi aprender a costura, coisa a que as irmãs, as duas mais novas do que ela, não tiveram acesso; e, depois, ficava em casa a costurar enquanto elas iam para a lavoura.
Mas foi aquilo que ela conta o que mais a marcou. Penso que a mãe agora quer vingar-se disso. Hoje, se persiste nesse tipo de trabalho, o faz mais por uma necessidade de liberdade, e também por uma certa necessidade de independência económica. Ela não quer precisar do pai para as suas coisas. Gosta de ir ao mercado e vender fruta, hortaliças, criação, ovos… e poder, no fim, contar o dinheiro, mas agora já não para dar à sua mãe, mas para a sua carteira.

É isso a vida para ela. Então, tenta moldar-me à sua imagem e semelhança.

13/04/2012

A Casa dos Ratos 1


Um dia, pela manhãzinha, o senhor João encontrou uma ninhada de ratinhos, dentro de um saco de trigo.

A adega estava escura e silenciosa quando o senhor João entrou. Em casa ainda todos dormiam. Como o sono o tinha abandonado, pensara então que era melhor levantar-se e ir fazer umas arrumações no celeiro, pela fresca. O celeiro ficava por cima da adega, ao lado da cozinha. Subiu, com cautela, as escadas escuras, de madeira velha a ranger sob os seus passos, sem acender a luz, até ao celeiro, onde o sol começava a querer espreitar por uma janelinha fosca de pó e de teias de aranha. “Isto tem que levar uma grande limpeza”, acenou com a cabeça, em gesto de assentimento aos seus próprios pensamentos.
— Olá!... – desconfiou ele assim que pôs os olhos numa das tampas do comprido cadeirado dos cereais – alguém deixou isto mal fechado... por certo já entrou rataria.
Mal começou a levantar a tampa... e lá estavam eles! Saltou um, depois outro, de dentro do saco de trigo de boca desatada. E, enroladinhos uns nos outros, aninhados no quentinho do ninho em cima do trigo, quatro filhotes pequenininhos que ainda não abriam olho. Puxou instintiva e rapidamente as abas ao saco do trigo, fechando-o com ambas as mãos... E agora?... Que iria fazer, agora, com estes hóspedes cinzentos, horrendos roedores vira-latas?

26/03/2012

O último abraço


De cada vez que relembrava o último abraço, antes de lhe ter fugido, Luísa revivia toda a emoção desse momento. Aliás, a emoção era cada vez maior à medida que o tempo passava e as saudades apertavam. Revia a fofura do corpo de José Miguel colado ao seu; sentia os braços que a envolviam sem nada suspeitarem; o pescoço quentinho onde mergulhara a cara e deixara marcas de baton dos beijos desajeitados, sofridos, mas disfarçados; as costas que afagara de encontro a si num último adeus.
Na altura, sabia que a separação iria doer, no entanto, pensava que o tempo acabaria por curar tudo. Mas não. O tempo trazia a saudade, essa mágoa violenta que a oprimia, sufocava, deprimia. Doía-lhe o peito muitas das noites. Uma opressão constante, mesmo durante o sono, que lhe causava pesadelos. Eram as mãos do José Miguel que vinham para lhe arrancar o coração enquanto ela dormia. E ela debatia-se entre deixar que ele lho tirasse e morrer de amor, ou morrer na mesma de amor sem lho entregar.
Quando acordava, a dor era não só aperto no peito, mas, umas vezes, latejava-lhe no pescoço e corria-lhe ao ouvido esquerdo, outras vezes estendia-se ao braço do mesmo lado, e outras irradiava-lhe para as costas. Era como se tivesse sido erigida uma muralha fortificada ao redor do coração, para o impedir de sair ou alguém de entrar. Então, acendia a luz e suspirava fundo repetidas vezes, para ver se a dor passava. Tentava não pensar nele, mas quanto mais força fazia para o afastar do pensamento, mais ele se lhe intrometia. E voltava o último abraço, com toda a carga emocional e ainda mais alguma. E desejava outro abraço, um próximo abraço que os reconciliasse. Virava-se de bruços como se se deitasse sobre ele, imaginava-se a abraçá-lo de novo. E adormecia nesse abraço. A sussurrar-lhe amor e a pedir-lhe perdão.

27/02/2012

Ovelha Tresmalhada


A manhã, que, como de costume, começara a ferver ainda mal o sol acordara, quase parou quando ele entrou e se dirigiu a uma mesa vaga, bem a meio da pastelaria.

Rogério não tinha pressa. Habitualmente pedia uma bica e uma nata, ao balcão, que engolia apressado, mas hoje não era dia de aulas.

Enquanto esperava que o viessem atender, pensou que devia ter mais dias assim: tranquilos, depois de noites completas, dormidas como se deve, sem a azáfama dos trabalhos para entregar, que lhe roubavam todas as horas de descanso. Engenharia Informática estava a ser mais difícil do que pensara, mas havia de dar conta daquilo.

Os pais tinham ficado emigrados em França, onde nascera e crescera, e ele procurava-se por cá, sozinho, num país que queria que viesse a ser o seu, depois de ouvir tantas histórias que os pais sempre lhe contaram. Se eles, quando eram da sua idade, não tivessem fugido da aldeia, do país, se não se tivessem aventurado a um mundo largo e desconhecido, talvez ele hoje não passasse de um guardador de rebanhos, igual ao que o pai estava destinado a ser… ou talvez nem tivesse nascido…

Mas lá na freguesia ainda haviam de ouvir falar do filho do Chico da Silva e da Alzira Pereira.

poderá também gostar de:

Mais Rabiscos