Um Voo

"Memória Alada" está à venda em: Edium Editores on-line;
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Ou poderão pedir-mo directamente através do e-mail que está no perfil.

Segunda-feira, 27 de Fevereiro de 2012

Ovelha Tresmalhada


A manhã, que, como de costume, começara a ferver ainda mal o sol acordara, quase parou quando ele entrou e se dirigiu a uma mesa vaga, bem a meio da pastelaria.

Rogério não tinha pressa. Habitualmente pedia uma bica e uma nata, ao balcão, que engolia apressado, mas hoje não era dia de aulas.

Enquanto esperava que o viessem atender, pensou que devia ter mais dias assim: tranquilos, depois de noites completas, dormidas como se deve, sem a azáfama dos trabalhos para entregar, que lhe roubavam todas as horas de descanso. Engenharia Informática estava a ser mais difícil do que pensara, mas havia de dar conta daquilo.

Os pais tinham ficado emigrados em França, onde nascera e crescera, e ele procurava-se por cá, sozinho, num país que queria que viesse a ser o seu, depois de ouvir tantas histórias que os pais sempre lhe contaram. Se eles, quando eram da sua idade, não tivessem fugido da aldeia, do país, se não se tivessem aventurado a um mundo largo e desconhecido, talvez ele hoje não passasse de um guardador de rebanhos, igual ao que o pai estava destinado a ser… ou talvez nem tivesse nascido…

Mas lá na freguesia ainda haviam de ouvir falar do filho do Chico da Silva e da Alzira Pereira.

Terça-feira, 7 de Fevereiro de 2012

Os Pés pelas Mãos


Agulhas e linhas; pano branco e bastidor; riscos cheios a cordão…
A cheio vai passar a ser, assim, o meu mundo.
Comecei a aprender a bordar a máquina. Agora vivo para isso. As terças e as quintas são para ir aprender, os restantes dias da semana são para praticar.
O primeiro dia foi muito monótono: um bastidor todo a ponto de cordão até aprender a dar o balanço… que ainda não dou bem. Enquanto não se dá o balanço certo, é um meter os pés pelas mãos, linhas rebentadas, agulhas partidas…
Isto de colorir desenhos com linha, à máquina de costura, tem que se lhe diga. Temos de tirar o calcador à máquina e cobrir-lhe os dentes com uma pequena peça, para que o pano corra livre, esticado no bastidor. São as mãos que lhe dão o jeito para que a agulha leve a linha ao bordado, mas são os pés que tocam o pedal, para fazer a agulha com a linha andar para baixo e para cima, a bordar. Ora isto, no princípio, não se coordena muito bem. As mãos e os pés não se entendem, ou melhor, os pés querem ir atrás das mãos, mas não devem. Os pés não podem ir atrás das mãos, senão a agulha anda ao contrário e a linha parte-se. Os pés têm de ganhar ritmo, embalo para a frente, sabendo quando avançar, abrandar e parar, enquanto as mãos voam livres. Os pés tocam a máquina; as mãos pintam poesia.
É aí que está o meter os pés pelas mãos, enquanto cada qual não souber fazer, coordenadamente, a sua parte. Partem-se linhas e agulhas; borda-se ao lado do risco; sai o desenho todo deformado. Mas eu vou aprendendo.
Aos poucos, hei-de aprender a bordar na perfeição.

Quinta-feira, 5 de Janeiro de 2012

Frio


De súbito sentiu frio.
Um gelo fino começou a apoderar-se-lhe das mãos. Um nevoeiro branco, denso, semelhante a escuridão, a inundar-lhe os pensamentos. E um tornado na alma, uma ânsia no coração, um degredo, um medo, uma solidão… e uma coragem vadia, que ora o tocava, ora lhe fugia.

Uma procelosa história de amor tinha-lhe batido uma vez à porta e ele deixara-a entrar, sem reservas. Mas ela tão depressa como entrara assim saíra, não sem antes fazer a porta em pedaços, como se fora um disparo de canhão. E agora o frio entrava. Entrava tudo, porque não havia porta para o proteger.
Mas não se lamentava de ter amado, de amar ainda, mesmo que um amor sofrido. O que o constrangia era não conseguir sair para fora de si, atravessar os destroços mal arrumados e sempre revolvidos, ao encontro da verdade que tinha medo de desvendar.
E assim se enredava numa malfadada dor, que o não abandonaria enquanto permanecesse cobardemente sentado, à espera nem sabia de quê. Que ela viesse até si? Isso seria brilhar o sol no céu da sua noite. Um milagre improvável. Mas ele podia ir até ela, já descobrira onde morava… e, sem que ela o suspeitasse, já a tocava ao longe com o olhar, já a suspirava em cada beijo imaginado, já a sintonizava dia após dia em cada poro da sua pele. Sim, podia ir até ela. Não se sentia era nesse direito. Mentia: o que tinha era medo. Medo. Medo… Medo!
E sentiu mais frio…

Quinta-feira, 15 de Dezembro de 2011

Que se faça Natal


Vem aí o Natal.
Dezembro, mês do frio… muito frio!
A cada dia que passa, a tristeza e a revolta invadem-me mais a alma, são o meu pão de cada dia. Imagino as mesas postas, com toalhas alegres e coloridas, cheias de doces, filhoses e outros fritos polvilhados de açúcar e canela. Mesas fartas de saborosos petiscos e carnes variadas. Crianças a correrem pela casa, com os sorrisos alegres de quem nada lhes falta. Elas sabem que as prendas já estão à sua espera, dentro dos embrulhos atados com os laços prateados e dourados. Em cada lareira crepita um lume aconchegante que aquece lares e corações.
E eu… eu passo por um período difícil na minha vida, que nunca pensei possível de me vir a acontecer. Sinto-me impotente para sair deste mundo cada vez mais ruinoso, à beirinha de cair num poço sem fundo. Já perdi tudo o que era possível perder, até a dignidade.

Eu também tive uma família na qual punha todo o meu orgulho. Linda, harmoniosa, que dava gosto de se ver, até ao dia em que a adversidade me bateu à porta e me foi, aos poucos, deixando na rua da amargura.
Vi o sol a desaparecer do meu dia e este precipitar-se numa noite sem fim, quando os primeiros raios da crise deram o seu sinal, numa casa onde nunca tinha faltado nada. E tudo o que tinha vindo a construir, com todo o empenho, se foi desmoronando como um castelo de cartas.

Os meus fantasmas atormentam-me continuamente. Foi o meu desemprego inesperado e algum tempo depois a falência da pequena empresa da família.
Como é que se pagavam as prestações dos carros, da casa, da mobília? Tudo teve que ser vendido, por muito menos de metade do preço de compra original, para pagar as dívidas, e não chegou. O cartão de crédito foi gasto até ao limite. Em vez de uma casa, passou a ser um quarto alugado para dois adultos e duas crianças. As crianças começaram a ir muitas vezes para a escola sem pequeno-almoço e sem nada para o lanche, quando não sobrava nada para lhes dar de comer. E aconteceu a ruptura familiar, pois “em casa onde não há pão, todos ralham e ninguém tem razão”. E as crianças foram levadas para uma Instituição porque estavam em risco.

Dizem que uma grande dor sozinha mata menos do que muitas mais pequenas. Não sei, mas talvez... porque as facadas que me têm sido sucessivamente espetadas, me levaram a ir definhando lentamente até que, um dia destes, tudo se poderá vir a consumar definitivamente, por aí, numa qualquer sarjeta.

Agora só a miséria mora comigo, ou eu com ela. Eu sou este corpo à espera de uma qualquer cama ou canto onde afogue a pobreza, onde esqueça as cores gélidas de um frio que se me entranhou nas carnes já decepadas de um espírito que um dia foi luminoso, para ser, em cada dia, protagonista num espectáculo da fome.

E é sempre a mesma coisa todos os anos por esta altura. Lembra-se muito os pobres, dá-se umas esmolas aos pobrezinhos, uns caldos, umas sopas de Natal e depois cada um vai à sua vida até ao ano seguinte, porque já descarregaram a consciência. Como se o pobre só comesse uma vez por ano! Será isto espírito de Natal?
Eu sempre ouvi dizer que Natal é quando o Homem quiser. Mas se calhar, é só mesmo quando o Homem quiser!
Por isso é que os que tem o grande poder, capaz de reverter as condições das pessoas como eu, de vez em quando juntam-se para trocarem impressões sobre assuntos relacionados com pobreza… mas ficam-se pelos discursos e pelas jantaradas obscenas onde isso se discute, com os media a dar cobertura.
Queria que essa comida lhes soubesse a podre e a vomitassem em vez das palavras gastas!
Neste Natal, queria que a pobreza lhes entrasse por todos os orifícios do corpo... por todos os poros da pele.
Talvez que assim tivessem a real percepção do que é a pobreza... e compreendessem um pouco da verdadeira dimensão do Natal.

(Publicado pela primeira vez a 04.12.2008 em Sonhar que... é possível acabar com a Pobreza)


Que se faça NATAL para todos.
Um Santo, Feliz e Harmonioso Natal, repleto da sua verdadeira dimensão e essência!


Segunda-feira, 5 de Dezembro de 2011

Pausa para publicidade



Aí está o meu livrito!

:)

Sexta-feira, 11 de Novembro de 2011

Em Voo


Dizem que voltamos sempre aos lugares onde fomos felizes.
Então, chega um tempo em que já não conseguimos conter mais o que nos quer extravasar do peito.
Balançamos, balançamos... e o salto acontece.

"Para mim um balanço
é mesmo balançar,
balançar até dar balanço
e sair..."

Mesmo sem rede.
E temos que abrir as mãos, como diz a canção da Mafalda Veiga.
Abrir as mãos, as asas... e voar.

Mesmo que antes tenhamos tido as mãos presas, as asas cortadas.

Mas chega a altura de soltar o grito:

"Agarras a minha mão
com a tua mão
e prendes-me a dizer
que me estás a salvar.
De quê?
De viver o perigo.
De quê?
De rasgar o peito.
Com o quê?
De morrer,
mas de que paixão?
De quê?
Se o que mata mais é não ver
o que a noite esconde
e não ter
nem sentir
o vento ardente
a soprar o coração..." !!!

Por mais frágeis que sejam as asas, elas são para VOAR!

Sexta-feira, 14 de Outubro de 2011

Vindimas


Começa a cair o Outono sobre as terras e as gentes. Com ele vêm as vindimas.
Os carros de bois apetrecham-se de tinas e cestos para recolher as uvas vindimadas. No ar, um aroma doce paira juntamente com o sol por cima das nossas cabeças. Até parece que é o sol que é perfumado.

A mãe fez-me uma saia em plástico transparente, com elástico na cintura, para eu vestir por cima da roupa. Assim não me sujo nem me molho se chover. O meu cortar dos cachos para o cesto de verga é intervalado pelo depenicar de bagos saborosíssimos para a boca. Hoje é uma barrigada! A navalha que me coube para cortar os cachos não resulta tão bem como uma tesoura e é perigosa para os meus desastrados dedos, mas não havia uma tesoura para mim e, para o trabalho que eu faço, dá muito bem, foi a resposta que ouvi quando reclamei. Mas é uma aventura e um prazer andar pelo meio das videiras, quase encoberta por elas, e escutar as conversas dos adultos, que até se esquecem dos mais novos por ali à solta.
As mulheres, que andam a dias por dias nas vindimas de uns e de outros, nunca se fartam de tagarelar. Ali se desfiam vidas, próprias e alheias, se descobrem segredos guardados quase a sete chaves, mas, afinal, não tão bem guardados assim. A Manuela foi enganada pelo namorado; a mulher do ti Augusto Silva, já daquela idade, anda grávida outra vez, coitada; a Celeste já está a passar da idade casadoira e agora arranjaram-lhe uma alcofa com um rapaz que ela nem conhecia; a Alzira escreve-se com um rapaz que está no Brasil; o Zé da ti Olinda deixou a Rosalina, um namoro já de há uns anos, e enrabichou-se por uma da banda de além… e por aí afora: a ti Amélia e a cunhada agora não se dão por causa das partilhas do sogro e andam a pôr os homens delas, que são irmãos, um contra o outro…
As vindimas são de uvas e são de gente. E eu fico a pensar em como as vidas dos adultos são tão complicadas, ou como eles próprios as complicam. Nas vindimas cortam-se cachos e corta-se tudo, até os meus dedos. Pois é, cortei-me. Tinha que ser: com esta navalha, a minha distracção a ouvir o que não era para mim, e a minha natural aptidão para os desastres, só podia! O tio, que andava por ali a acarretar os cestos cheios de cachos para a tina no carro de bois, raspou, com a navalha, um bocado de feltro do seu chapéu preto e colou-mo no golpe para não saírem por lá as tais ditas “tripas”, como de costume. Como, por causa disto, já não me dava jeito continuar a vindimar, segui carreiro acima até à adega.

Pela parede da adega trepa uma lagartixa e entra por uma fresta. Lá dentro é fresco. O chão é de terra negra pisada pelos pés, como pisadas pelos pés vão ser as uvas dentro do depósito de cimento quadrado. Ainda está vazio, à espera das uvas que vão chegar mais logo para se transformarem num mosto viscoso e peganhento que depois será vinho. Nos anos passados fui reparando nisso tudo: como as uvas eram pisadas e deixadas a ferver durante dias no depósito, sendo mexidas novamente com os pés, de vez em quando, até o vinho estar pronto a ser retirado para as pipas onde continuava ainda a ferver; como os engaços eram depois espremidos na prensa para fazer mais vinho – o vinho do repiso; e como estes engaços depois de espremidos eram abafados para fazer aguardente na alambiqueira.
Este ano não deverá ser diferente. Está tudo a postos.

Terça-feira, 13 de Setembro de 2011

A Pedinchice


Uma caixa de fósforos e meio litro de petróleo; um quilo de prego de meio solho e de ripa, misturados; um pacote de cloreto e um quarto de quilo de sabão azul; um pacote de massa de meada; meio quilo de açúcar amarelo. Com conta, peso e medida. Os rebuçados quase todos. Sem conta nem medida.
Foi assim uma tarde inteira atrás do balcão da loja. E uma enorme ralhadela furiosa do pai.
Aos poucos, o pai tem vindo a confiar-me a loja. Desde pequena fui aprendendo e ajudando e, agora, para além de aviar os fregueses, anoto as faltas de mercadoria e faço as encomendas aos vendedores quando o pai não está, confiro a mercadoria que os viajantes vêm entregar e arrumo-a nas prateleiras; e, ainda, tenho ao meu encargo o registo das facturas das compras no livro.
Esta tarde, o pai teve que sair e eu fiquei sozinha a tarde toda, como algumas outras vezes. Até me desenrasquei bem… só com os rebuçados é que correu mal.
- O frasco dos rebuçados está quase vazio porquê?
- Vendi-os…
- E onde é que está o dinheiro? – perguntou o pai, de gaveta aberta, depois de conferir as vendas que eu tinha anotado.
Fui apanhada. E tive que dizer toda a verdade, que era só uma: tinha-os dado à Nelita, à São e à Fernanda.
A voz do pai ecoou pela loja inteira e, decerto, pela rua além. Eu encolhi-me com medo de que a trovoada trouxesse chuva, mas a nuvem negra passou ao lado e escapei desta. Não escaparei de uma próxima, deixou o pai prometido. Mas não acontecerá mais, também deixei prometido eu.
Desta vez, estas minhas amigas conseguiram levar-me à certa quando me vieram chamar para jogar à macaca com elas. Como eu lhes disse que não podia sair, encostaram-se ao balcão a dizerem que então tinha que lhes dar rebuçados para as compensar; e voltaram mais vezes, com falinhas mansas, a pedir  sempre mais. Mas não voltarei a cair noutra, porque agora vejo como fui palerma ao deixar-me levar na pedinchice delas e no que elas me diziam.
Afinal, se elas gostassem de mim, como eu gosto delas e, ainda para mais, sendo duas delas mais velhas do que eu, não teriam ousado abusar da minha bondade e fraqueza, agindo daquela maneira, só pensando nelas e nada em mim.

Segunda-feira, 29 de Agosto de 2011

Droga Maldita!


O lado negro acabou por levar vantagem.
Existe um reino dos mortos-vivos que lança uma capa negra, como rede pesqueira, sobre um mar ingénuo e carente.
As aves partiram em debandada, sem rumo nem norte, deixando-o entregue à sua má sorte. E ele não se conseguiu desenvencilhar, nunca mais, da rede. Ainda espreitou, algumas vezes, por um buraco que alguém lhe alargou, mas o corpo não obedeceu e acabou por sucumbir à desgraçada mente, cada vez mais fraca e doente. Tó. Droga maldita, que escreve a morte sem piedade nem dó.
RIP.

Acolhe nos braços, Pai, este teu filho pródigo.

Sexta-feira, 19 de Agosto de 2011

Desfolhada


A madrugada e a manhã foram longas.
Aquece. Está quente. Cada vez mais quente. Tão quente de uma luz de fogo que doira.
Espigas de milho, loiras, reluzem na eira ao calor do sol.
À medida que estas haviam sido despidas das camisas, logo cestos as tinham aparado para, depois de cheios, serem levadas para a eira e estendidas ao sol a corarem como oiro.
Era uma montanha enorme, que custou a vencer.
Os milheiros tinham sido cortados da terra com foicinhos, um a um, dias antes. Também me calhou a mim, para aprender, mas os canoilos eram grossos e a minha habilidade não era nenhuma. Cortei-me num dedo. A mãe disse que saíam por lá as tripas grossas. E “vai-te embora, vai-te embora… que não sabes fazer nada.”
Não percebi isso das “tripas grossas”, assim como há muitas outras coisas que não percebo, e depois riem-se de mim por eu não perceber, mas também ninguém me explica nada, e uma pessoa não nasce ensinada. E não é verdade que eu não saiba fazer nada, chateia-me que me digam isso, é só que há trabalhos a que não estou habituada. Mas a mãe tem a mania de me comparar com as outras raparigas que têm à volta da minha idade, que começaram a trabalhar ainda crianças e que, por isso, trabalham como “gente grande”, como ela diz, e que eu não presto para nada. Eu não lhe levo a mal de ela me dizer que não presto para nada, porque penso que percebo o que ela quer dizer: que sou muito miúda e franzina e assim não tenho força nenhuma. É que ela nunca teve jeito para as palavras.
Enrolei um lenço no dedo, por causa do sangue que escorria, e fui para casa, mas isso já passou e hoje já deu para ajudar a descamisar o milho.
Foi o ti Joaquim Fernandes que trouxe todo o milho na palha, em várias carradas de carro de bois, para o troço da oliveira ao pé da adega da nossa antiga casa. É aí que está a eira. Ontem à noite juntou-se um grande grupo à volta da montanha de milheiros e deram-lhe um grande avanço, à luz da lua e do petromax. Hoje começámos cedo. A tia e a madrinha vieram ajudar-nos, à mãe e a mim, e acabámos com o que faltava. O pai tinha-me arranjado, de um pau de moita, um bico para descamisar as espigas, e eu desenrasquei-me muito bem.
Agora cheira a espigas de milho acabadas de desfolhar. Um cheirinho tão bom e doce, que o sol espalha por aí além.