quarta-feira

O Sonho Que Me Foi Negado


Tenho corrido atrás de um sonho, sem nunca o conseguir apanhar. Fiz agora uma tentativa: comecei por estudar Matemática por um livro do meu primo Álvaro. 

Estudar foi o sonho que me foi negado; e ler, aquilo que me vai sendo permitido desde que eu consiga arranjar as leituras. Depois de esgotadas outras fontes, procurei na casa da tia Mila. Os livros do Álvaro estavam lá quase todos, e a tia tem vindo a emprestar-mos a cada vez que vou a casa dela. Deixo um e levo outro. 

A casa da tia exerceu sempre um grande fascínio sobre mim, desde que me lembro de fugir da minha casa para a dela, ali lado a lado uma com a outra. E, agora, que moro um pouquito mais longe, continua a ser uma enorme atracção: pelo seu enorme jardim que o tio tem bordado a pontos de pedras selvagens, com o esforço das suas mãos e da sua poesia; mas também pelo amor que os tios nunca deixaram de me dedicar. Ali sinto-me tão bem! Sinto-me em casa. Porque nos sentimos em casa quando nos vimos recebidos com afecto e carinho; então o nosso coração não só não se desapega desse lugar, como o busca cada vez com mais frequência. 

E, assim, é como se a casa da tia Mila fosse, agora, a minha biblioteca particular, depois de ler tudo o que havia na minha casa para ler. Primeiro, os romances foram a minha sedução; agora, o livro de Matemática. Sempre gostei muito de Matemática, tanto ou mais que as outras disciplinas. Letras e números ensinam-me a saborear a vida, dão-lhe colorido nos meus dias apagados, cinzentos, vazios do ar quente que me leve a flutuar e planar acima da terra. 

Quem sabe se eu estudar tudo muito bem e for fazendo os exercícios, possa ir aprendendo tudo e, depois, assim que surgir uma oportunidade, fazer um exame… 

Por agora vou estudando. Quando acabar este de Matemática hei-de pegar nos outros todos, um a um, e o futuro a Deus pertence.

quinta-feira

Considerações a petróleo



Aos domingos, depois da missa, costumo passar por casa da minha tia Rosária, que é pertinho da igreja, e ficar com as minhas primas, Sílvia e Graciete, a ver televisão. Dá sempre o Tarzan àquela hora e eu gosto de assistir. Em minha casa não temos televisão porque não há luz eléctrica na minha aldeia. 

As minhas primas é que têm sorte: assim, com luz eléctrica em casa, não precisam de lavar chaminés de vidro, farruscadas, dos candeeiros a petróleo. Já a mim, é trabalho que me calha quase todos os dias. Às vezes lá se vai uma chaminé… que azar! Escorrega da mão e, trás! era uma vez uma chaminé de vidro! 

A avó Maria é que me ensinou a lavar as chaminés, com muito jeitinho, dentro de um alguidar de zinco com água, usando um trapo e sabão azul e branco, e a secá-las depois com papel de jornal. Dizia que as minhas mãos, porque pequeninas, é que eram boas para fazer esse trabalho. Mandava-me também encher de petróleo os candeeiros : “põe tu, menina, põe tu, que eu não gosto nada desse cheiro.” 

A mim, o cheiro do petróleo nunca me fez diferença, habituei-me a ele desde pequenina, na loja, quando as freguesas o vinham comprar e eu observava o mano António a medi-lo por umas medidas de latão: de um litro, meio litro e um quarto de litro. Agora já sou eu que o avio e não me importo nada. Por baixo da torneira do bidão temos um pequeno tabuleiro em latão, que tem dentro uma gradilha esburacada de chapa onde assentam as medidas. Se a torneira pinga, ou quando se enchem as medidas demasiado e transbordam, não se perde nada, pois o tabuleirinho serve para aparar o petróleo que cai e fica depois retido por baixo da gradilha. 

Mas temos um gato para quem o petróleo não deveria ser coisa que se cheire: esse “rapazinho” gosta de se passear por lá, até desconfio que bebe do tabuleiro quando o petróleo se acumula acima da gradilha. Coitado, é um magricelas que só cheira a petróleo – ganhou, por isso, a alcunha de Petrolino – se se descuidar à lareira é bem capaz de pegar fogo...

sábado

O Desembaraço


De molhos de garrafões de plástico vazios nas mãos, aproximo-me da fonte para os encher de água. Sabe bem assentar os pés, descalçados os chinelos, no pequeno lastro alagado. No tempo do calor é fresquinha a água desta nascente que jorra continuamente em bica desembaraçada; como desembaraçadas são as duas mãos idosas que ali esfregam a roupa ensaboada na pedra. 
Dou as boas-tardes e peço licença para encher os garrafões, se não for incomodar. 
– Sirva-se à vontade! 
– Obrigada! Sabe bem estar aqui com os pés fresquinhos… – digo para meter conversa. 
– Pois é. Agora é mais fresquinha e no Inverno é mais morninha… 
Vou enchendo vasilha a vasilha, enquanto ela vai esfregando e molhando a roupa devagar na bacia com água, virando-se de lado para mim. 
 – Só há quem a venha aqui estorvar… – digo, pensando que posso estar a demorar, e ela precisará de se servir da bica da água. 
– Não estorva nada. A gente nunca estorva ninguém. 
– Se calhar andamos mas é por cá a estorvar-nos uns aos outros… 
– Não senhora! A gente não estorva nada. Antigamente tinham seis e sete e oito ou nove filhos e não se estorvavam uns aos outros… agora são menos, não há razão para se estorvar ninguém. 
– É bem verdade. Agora é só um, ou dois… quando é!... 
– E tudo se criava. Você se calhar não sabe… não era do seu tempo, mas, e quando se partia uma sardinha em dois ou três só com um bocadito de broa?… agora é só lambarices… e coisas caras. 
– Realmente… ainda dizem que agora os tempos são maus… e que não dá para se viver… as pessoas habituam-se ao que é bom, ao conforto, e já ninguém quer passar com pouco e fraco. 
– Ah, mas olhe, acolá em cima há uma rapariga, você não deve conhecer, que não é de cá… bem, quem mora ali são os pais, ela agora já não mora cá, que já está casada; quero dizer, casou e separou-se e voltou a casar ou a juntar-se… 
– Pois… agora já não se estranha isso… 
– É assim!... Pois essa rapariga trabalha, ou trabalhou, num talho. E contava ela que vinha a carne para o talho e ia-se vendendo para uns e para outros… e passava-se uma semana e nunca se vendia toda… e a carne que ficava começava a ganhar bichos, daqueles com um rabito, você não sabe?... têm um rabito… uns bichos com um rabito… e depois passavam aquela carne por uma máquina e bichos e tudo, moíam aquilo tudo… para… 
– Para fazer hambúrgueres?... 
– Isso. E sei lá mais o quê… olhe, depois era tudo vendidinho!... 
Sorri levemente, num misto de assentimento e incredulidade, acabando de encher os garrafões e acabando a conversa por ali mesmo com um adeus. 
E a água a jorrar sempre certinha e desembaraçada ficou; como certinhas e desembaraçadas as palavras de quem com mestria as ditou.

Subir O Caminho V


Empreendo a caminhada, como de outras vezes, deixando que o Snoopy corra à minha frente. 

Vou munida de silêncio, entrecortado pelos sons dos meus passos e dos meus pensamentos que, aos poucos, se vão quase quedando orantes, mas sem bem se quedarem. A dezena, entre os dedos, quer cumprir a sua missão e vai rolando de Ave-maria em Ave-maria, mas, às tantas, dou-me por perdida nas contas quando me distraio para fazer uma foto de qualquer coisa que me chamou a atenção. Depois sigo, sem bem saber já os mistérios passados. 

Também, o meu camarada de passeio se distancia da minha visão por eu ter parado um pouco. Sou obrigada a chamá-lo para que não avance, sei lá por onde, e me deixe só. Prendo-o e levo-o agora pela trela, com receio de que me fuja. O malandreco já me pregou assim algumas partidas, e agora tenho de ser mais cuidadosa. 

A tarde é soalheira, mas o ar é gélido; o caminho é de pedras esburacadas, meio enterradas; nuns sítios, carreiro; noutros, em escada. Uma pequenina ponte em laje de pedra sobre uma vala; nalguns lados encontro lama; noutros, erva verde rasteira nunca pisada. 

Subir o caminho, por entre penhascos e alecrins, até à capela, é música para o meu olhar; harmonia para os meus passos.


Subir O Caminho IV


E eis a fonte. Coberta de heras, revestida de musgos. O lastro quase repleto de agriões. Será que ainda tem água dentro, ou terá secado ou escoado toda pelas frestas? O que estará por detrás das janelas de olhar furtivo? Água? Ou apenas fantasias de outras eventualidades?

Um mundo abandonado, escorrido; leito de prantos, de confidências, calores, alvores e… também maledicências. Era uma bacia à cabeça com um alguidar emborcado em cima da roupa suja e, às vezes, também um cântaro debaixo do braço: assim se fazia o caminho, pelo calor ou de madrugada, para que a barrela voltasse bem asseada. Na pia roupa molhada, na pedra a roupa esfregada e batida, depois passada e torcida, pronta a ser estendida para secar no estendal… Aqui se lavaram roupas e outras vidas; se branquearam linhos e outras tendas; se despejaram sujidades e se debateram contendas; aqui chegaram panos com nódoas e foram corados ao sol; farrapos foram rasgados por não terem mais lavagem; braços e pernas se molharam, mas nem sempre se banharam; bocas entraram mudas mas não partiram caladas; por aqui passaram gentes desassombradas e outras que se viram marcadas por ferrões e ferroadas de moscardos e de vespas, mas também de palavras proferidas sem dó nem piedade: as mulheres quando se juntam “cai o Carmo e a Trindade”. Uma fonte de água pura, fresquinha para beber, onde tantas vezes vim encher o barrilito de barro; e nem essa água, apetecida e leve, lavou bocas encardidas, que só se sabiam bem entretidas a falar na vida alheia. Que fonte esta, sempre tão cheia e agora tão vazia!… 

Será que ainda tem água dentro, será que a nascente ainda não secou? Espreito a uma janela: nada, está seca; espreito a outra: esta está cheia. Experimento abrir a torneira que lhe fica abaixo: ainda não enferrujou muito e escorre. O Snoopy aproveita para beber. Eu não me aventuro a tanto. Ainda há água!, ao menos para o Snoopy. Porque “até os cachorrinhos comem das migalhas que caem da mesa dos seus donos.” (Mt. 15, 27) 


Como Pedro, também Te digo: 
Salva-me, Senhor! 
Tenho medo de andar sozinho 
Mas, creio que és Salvador. 

Nas águas da minha vida 

Agitadas pelo vento 
Eu não posso navegar 
Se não estiver atento.

Tu vens sempre ao meu encontro 
Eu é que não te reconheço 
Mas quando Tu te revelas 
Humilde, Te agradeço.

Sou um homem pecador 
Mesmo assim Tu me salvas 
Das quedas de que sou autor 
És sempre Tu que me levantas.

Nos meus medos e receios 
Para Ti, Senhor, me volto 
Nas minhas dúvidas e anseios 
Diante de Ti me prostro.

E quando Te reconheço 

Nada me pode abalar 
Só em teu braço seguro 
Eu me posso ancorar. 
(Pe. José António Carneiro)

segunda-feira

Subir O Caminho III


Tenho de ir em busca da fonte perdida. Este pensamento traz nova estrelinha que me ilumina, nova brisa que me sopra, nova bússola que me aponta o norte. Já outra vez a força se aproxima de mansinho e a energia quer começar a vir ao de cima. 

Já sei aonde irei! Hoje vou adentrar pela folhagem mais verde, onde as aves fazem os ninhos; onde há minas de águas puras e as rãs cantam em redor; onde brotam resquícios de quimeras, memórias de antigas Primaveras; onde a magia se alimenta de olhar as folhas ao vento. 

Levanto-me, tomo o pequeno-almoço e vou. 

Vou – ainda que pelo meio de canaviais e de silvas a ladear o carreiro atapetado de ervas. A vida é uma perpétua busca, rasgada de interrogações e de improvisos. 

Vou. Furo os silvados a arranharem-me os braços, encho as calças de carrapiços de tantas ervas bravas – quem anda no meio de abrolhos acaba com espetos nos pés – mas sigo em frente, pois muito embora a passagem esteja diferente – como tudo se deteriora e altera num instante! –, tenho a certeza de que dantes era por aqui o caminho, e sei também que “quem busca encontra” (Mt. 7, 8)

E mesmo pelo meio dos espinhos, sem sequer bem saber o que irei encontrar, a alma diz-me para ter fé. Terceiro Mistério Doloroso – a coroação de espinhos. 

Levo pela trela o meu companheiro de sempre. Não o solto, não vá ele correr atrás de algum coelho e se perca na paisagem que desconhece. Já outras vezes, por outras paragens, correu esbaforido à descoberta e depois já não deu mais comigo, só foi ter a casa mais tarde. Para mais, disseram-me que algures por aí foram montados laços para caçar javalis… não vá ele cair nalgum. Assim, ainda que lhe custe, e também a mim, pois puxa daqui, repuxa dali com uma força tal – já certa vez se enrolou a mim e me fez cair, até magoei dois dedos da mão –, que tenho que ir sempre a refreá-lo e a ralhar-lhe: “Snoopy, ao lado!”, “Snoopy, espera!”, “Snoopy, devagar!”…, o que não me permite vagar tranquilamente. 

E é nisto que, depois de uma cortina de canas mais cerrada, os olhos me mostram uma espécie de enseada. A fonte? É além. Além, logo abaixo da pequena escada de pedra gasta, que está parcialmente encoberta por uma barreira de silvas e ervas daninhas que se pegam à roupa. 

Senhor, 
É maravilhoso o perfume das flores, 
mas também as ervas daninhas têm a sua fragância. 
Cada um tem o seu lugar para crescer e desabrochar. 
E isso é belo...
Senhor, 
introduz-me no teu coração 
como se fosse uma semente. 
(Angela Toigo, Um rato fala com Deus)

quinta-feira

Subir o Caminho II


Acordo cansada. Com o coração a querer saltar-me para fora do peito. Há dois dias que ando cansada. Um cansaço em estado crescente a escrever-me no corpo rimas de todas as coisas e de coisíssima nenhuma. Sinto-me quase apática, quase sem qualquer vontade. Como se se tivesse levantado, à minha volta, uma nuvem de pó desta cruzada. O que quererá o corpo falar-me? Há, por vezes, palavras tão difíceis de se deixarem agarrar… e entender. 

Quem me dera uma chuva miudinha que me refrescasse a fronte latejante, que orvalhasse o pó do caminho. Que bom seria sentir o cheiro a terra molhada, para que esta penitência fosse menos custosa, um pouco menos pesada, menos severa; mais airosa, mais suave… mais lavada. 

É assim, no meu amargo soluço, que a madrugada me encontra, começando a espreitar-me, avidamente, por debaixo da porta. Primeiro, uma nesga de claridade, depois um céu aberto. E entra no quarto uma sinfonia de luz, recortada a chilreio da passarada. Percebo que as estrelas lá fora, no céu, já se despediram da noite, e está agora o dia a ser torneado pelo sol. E o meu corpo a pedir mais repouso, sem se atrever a levantar! 

O dia ergue-se e enche toda a casa, pássaro louco a esvoaçar esbaforido numa madrugada de Verão, sacudindo as asas e agitando tudo com elas. A manhã a esticar as penas, a espanejar as asas ao sol. E eu a encolher-me, a preguiçar, sem me apetecer espreguiçar-me, mole, apesar da luz intensa do sol a enfiar-se-me pelo quarto, pela cama afora, pelos lençóis adentro; apesar das vozearias da passarada, das labutas a começar lá fora. 

Maldito cansaço que me prega à cama, que não se desprega de mim. 


Há dias em que o sol nasce quadrado, 
em que o fogo gela 
e em que a maré está vazia 
de vontade de a encher 

Há dias em que o silêncio ensurdece, 

em que o amor perde a coragem 
e em que o norte perde o rumo. 

Nestes dias, 

há uma alma angustiada 
que clama por consolo 
mas o vento cala a sua voz. 

A esperança esmorece, 

a força desvanece, 
a fé hesita, 
a luz apaga-se. 

Nesta noite escura, 

que me sufoca a alegria 
e me impede de respirar a Tua paz, 
que eu saiba perseverar no meu caminho, 
mesmo sem saber qual é. 

Que eu saiba ter paciência 

e manter acesa a chama da confiança, 
mesmo sem saber porquê. 

Que eu saiba acreditar que nela permanecerei, 

impotente e só, 
apenas o tempo que for necessário…
(Raquel Dias, Há dias assim, em: Renascer Do medo à confiança)

sexta-feira

Subir O Caminho I


Tornei a pisar o chão. No dia seguinte e no outro, e no outro. Caminhos diversos, dura a caminhada. Deambulo à procura de Tudo e parece que não há por aqui nada. 

Estes caminhos são juncados de cardos. Talvez, para mim, “vasos de alabastro com bálsamo de nardo” (cf. Mc. 14, 3). 

Percorro trilhos dos outros lados, na busca do ponto que no primeiro dia abandonei. Talvez que houvesse uma convergência; talvez um sinal, talvez uma saliência que se pudesse pular, talvez uma frágil ponte, talvez um carreiro, talvez um sulco já antes trilhado… mas nada. Não encontro nada, nada disso.


– Onde estás, Deus?



E… onde é que Tu não estás?!


Às vezes temos que descer para voltar a subir 
Descer ao fundo dos nossos erros 
Descer ao abismo dos nossos medos 
Descer às questões pertinentes que 
(inconscientemente) fingimos não existir. 
Descer e aterrar na nossa impotência perante tudo e todos. 

Com medo ou sem ele 

A descida leva-nos por trilhos desérticos, 
a uma sensação de vazio, de solidão, 
quase deixando de fazer sentido 
o sentido que damos à vida. 
(Dulce Gomes)

sábado

Arrepiar Caminho VI


Continuamos a subida e chegamos à estrada principal.
Quinto Mistério Luminoso – Jesus institui a Sagrada Eucaristia. 

Estamos mesmo a chegar a casa e sinto fome, mas preciso, antes, de me lavar. Sinto-me pegajosa do suor que me lambe. É noite. 
Entro ao portão e desatrelo o meu companheiro de jornada. Ele vem cheio de sede; dou-lhe água. 
Três Ave-marias em honra da pureza de Nossa Senhora. Ave Maria, cheia de Graça… 
Tomo um duche rápido, morninho, e fico bem. 
Depois sento-me à mesa e pego no pão. 
Salvé Rainha, Mãe de Misericórdia… 

Quantas metáforas tem o caminho! Vivê-las, vivi-as eu, sem saber bem reconhecê-las – nunca fui muito boa a destrinçar metáforas; achá-las, ache-as quem lê. 


Saímos de casa para voltar a casa, mas a uma casa que já nada tem a ver com a primeira. Porquê? Estamos diferentes por dentro e, por isso, todo o mundo se alterou. 
(João Delicado, Ver para além do olhar)


quinta-feira

Arrepiar Caminho V


Seguimos agora estrada abaixo, por entre os eucaliptais. Daqui a pouco estaremos em casa. Depois de mais uma encruzilhada, dobramos a curva à direita e há aí um milheiral, que fica do lado direito, cheio de espantalhos a luzir. 
– Lembras-te, Snoopy, da primeira vez que os viste, quando ainda eras adolescente? Eriçaste o pêlo e ladraste a um. Agora já não te metem medo. Até costumas banhar-te sempre no ribeiro a seu lado quando aqui passas, no tempo em que ele leva água. Agora está seco.
Secou há umas semanas. 

Quarto mistério luminoso – A transfiguração de Jesus no monte Tabor. 

Passamos o milheiral e avançamos ladeira íngreme acima. E cá vou subindo, de dezena entre os dedos, meditando nos Mistérios de Nosso Senhor. 

Quem quer passar além do Bojador, tem que passar além da dor. 
(Fernando Pessoa, Mensagem)

Nisto aparece-nos de frente o dono do milheiral. 
– Então, a esta hora? És muito afoita. Eu vou para baixo agora e vou com medo! 
– Medo? Não há que ter medo. Quem anda com Deus não pode ter medo, porque anda bem acompanhado. 
– Tens razão. Eu levo aqui uma arma: um pau. Mas Deus é a melhor arma. 
– Então mas aonde é que vai a esta hora? 
– Vou pôr o rádio a tocar no meio do milheiral, para espantar os javalis. 
– Ah, vai dar-lhes música de baile! Boa ideia. Pode ser que eles assim aprendam a dançar – digo num sorriso. 
Fazemos as despedidas e cada qual segue o seu caminho. 
Oh, que caminho cheio de metáforas!