29/06/2009

História da Carochinha

A mãe mandou-me varrer a cozinha. E eu varri-a. Mas, no fim, ralhou comigo porque tinha ficado toda mal varrida. Eu acho que ficou bem, mas ela diz que deixei lixo atrás. Não vejo onde, mas pronto, ela tinha que implicar. Nada nunca está à vontade dela.
“Era uma vez uma Carochinha que achou 5 tostões quando varria a cozinha.” Era assim que começava a história que eu tinha bordada no bibe quando andava na terceira classe. E a Carochinha aparecia com uma vassoura na mão a varrer. “Comprou fitas e laços e pôs-se à janela.” E aparecia a figura da Carochinha à janela. “Quem quer casar com a Carochinha, que é tão linda e bonitinha?”
As minhas colegas, no recreio da escola, faziam roda à volta de mim com o meu bibe na mão a ver os bonecos bordados e a ler: “Passou o gato: miau, quero eu!”… “Passou o cão, ão, ão, quero eu!”… “Mas ela não quis!”…
Gostava de me sentir o centro das atenções quando levava o bibe vestido para a escola. Sentia-me uma Carochinha enfeitada com fitas e laços. Agora, que sou mais crescida, não é assim. A mãe parece que faz, cada vez mais, de propósito para me fazer sentir um Patinho Feio… e sem vontade própria. Ela é que sabe; ela é que faz; ela é que manda. Mas ela não sabe nada. Continuo a sentir-me o centro das atenções, mas por motivos contrários: sinto-me desprezada na maneira como me faz vestir. E não sou só eu que o sinto, já mais alguém o notou, que eu bem o ouvi cochichar.
Mas chegará uma altura em que ela não mandará mais em mim. Hei-de arranjar um modo de ser eu própria a vestir-me à minha maneira, para ficar bonita como a Carochinha…

23/06/2009

Finalmente


Os braços estendidos com as mãos abertas são asas que planam ancoradas à ânsia de um encontro perdido de afecto; planar é uma forma de suster a respiração, para absorver uma explosão de sentidos inebriante.
 Há uma tela a tingir-se de um colorido novo: a entrada de dois passarinhos com a insegurança de um primeiro voo. Dois olhitos ansiosos, seguidos de outros dois assustados, exploram o espaço desconhecido. Ao fundo, a luz: a figura central, única. Agora, nada mais importa. As pernitas saltitam sem sentir o chão e os bracitos abrem-se e esticam-se para abarcar toda a emoção e deixar esvair toda a saudade, numa configuração de amor e terapia. Dói. Oprime. Sufoca. Mas é vida que flui. Chovem beijos salgados, prisioneiros de um mar de abraços, em sucessivas ondas, que acabam por se espraiar até ao relaxamento; uma dança de mãos que acariciam rostos, de olhares e sons que traduzem a grandiosidade do colo de mãe.
 Agora, nada mais importa: só mãe e filhos juntos, de novo!

09/06/2009

Cinza

O sorriso já de si amargo morreu-lhe por completo nos lábios; a luz esmoreceu-lhe no olhar. O brilho opaco que ainda despontava no seu rosto foi-se apagando como uma torcida que deixa de fumegar.
O lume vai-se lentamente apagando na fogueira já gasta. Não quer arder. Não quer cintilar. Gasta. Apagada. Sem fulgor. Tudo é negro no canto cada vez mais escuro. Vai-se extinguindo a lenha dando lugar à cinza que se vai acumulando e encobrindo, porventura, algum brasido ainda quente. Um coração, ainda rubro, que teima em não parar de bater. Mas por quanto tempo mais, se um mundo de escombros em putrefacção lhe rasgam as carnes e a alma? Só cinza. Lixo. À sua volta o que mais encontra é lixo, lixo, lixo, lixo, lixo, lixo, lixo, lixo, lixo, lixo, lixo…

Cinzas?

04/06/2009

Como é que se estuda?

- A Matemática é coisa para homens. – Respondeu a Júlia à minha pergunta sobre as notas dos testes.
Faltei uns dias às aulas porque estive doente com papeira e tive que ficar em casa. Por isso hoje, de regresso a estas lides, perguntei, ansiosa, às colegas pelas notas dos testes. Fiquei a saber que, no geral, não foram lá grande coisa e que tive negativa no teste de Matemática.
Negativa?!... Não queria acreditar, mas elas insistiam. Como era possível ter negativa se o teste me tinha corrido bem? Se eu achei as equações e os problemas tão fáceis e os resolvi como se fossem a coisa mais simples deste mundo? Desconsolada e nervosa não via a hora de saber o que é que tinha errado.

Tocou para a entrada e, desta vez, fomos para uma sala do primeiro andar. Geralmente temos sempre aulas no rés-do-chão, logo na primeira ou, por vezes, na segunda sala porque na turma há uma menina, a Ana, que anda de muletas. Tem um aparelho no corpo todo por causa de uma doença que teve em bebé e que lhe causou aquela deficiência. Todas a ajudamos, mas ela habituou-se a isso e parece que anda a abusar de nós. Começou a ficar muito teimosa e só quer que lhe façam todas as vontades. Há dias atirou com as muletas para longe porque se chateou com uma das colegas. Hoje duas empregadas tiveram que a levar ao colo, pela escada acima, para que pudesse ir para a sala de aula, enquanto ela se debatia por teimar em ir sozinha. Às vezes não há quem a entenda! Mas também não sei por que nos levaram para o primeiro andar, se sabem desta dificuldade da Ana, mas decerto terá havido algum motivo forte.

Houve um ruge-ruge entre nós quando entrámos na sala. Era da parte da tarde, estava calor, e percebeu-se um odor abafado e estranho que nos empurrava para fora. Abriu-se logo as janelas; o burburinho tornou-se conversa aberta: que desagradável! Cheirava a rapazes.
- Silêncio, meninas! – Assim pôs, o professor, termo às conversas.
Não tardou muito para que ele se dirigisse a mim. Senti um enorme calor no rosto, prevendo a vergonha pela qual iria passar. Começou a colocar-me questões sobre os problemas e as equações do teste, ao que eu respondi sem ter dificuldade, segura do que respondia. Depois entregou-me o teste. Nessa altura tive a surpresa com que não contava: vinte valores!
Pois se eu sabia que me tinha corrido bem! Mas nunca pensei que fosse possível ter acertado tudinho. Por isso é que as colegas me mentiram, para ver como eu reagiria… se me atrapalhava… mas enganaram-se. Ficaram foi cheias de inveja! Ah! Mas foi muito bem feito!
Ainda há pouco, no recreio, me confrontaram novamente, perguntando-me se eu teria copiado. Copiado?! Eu não copiei! Nunca fiz isso! Mas como é que se copia num teste? E ainda, para mais, num teste de Matemática? E não têm saído de volta de mim, a querer saber como é que eu estudo… que lhes ensine a estudar Matemática. Mas aí, eu não tenho como as ajudar, pois também não sei. Eu, simplesmente, não estudo Matemática. Eu apenas faço os exercícios todos.

(Publicado em: Memória Alada, 2011)

27/05/2009

Pardais à solta



Não tenho jeito para a Educação Física. A nota mais baixa que tenho é a esta disciplina. Invejo as colegas que fazem saltos em comprimento enormes, que conseguem saltar muito alto, que no campo de jogos são as melhores. Eu sou das mais fraquinhas, se não a mais fraca mesmo. Não sei por que não consigo. Sinto-me mal comigo mesma por ser assim. Mas adoro a sensação de liberdade que a disciplina me dá. Quando nos juntamos todas, de equipamentos vestidos, parecemos um bando de pardais à solta no restolho de um trigal, a esvoaçar aqui, a pular acolá, a correr além…
Hoje, a nossa turma juntou-se à dos rapazes e fomos para o campo de futebol, que fica do outro lado da vila, já depois da ponte, onde o rio já é só um, depois de os dois se unirem um ao outro. Lá fomos, chilreando pelo caminho, em pequenos bandos. A nossa professora quase não nos dava atenção, tão entretida que ia com o professor da outra turma. Pelos vistos são namorados, pois iam sempre a conversar, muito juntinhos, todo o caminho. As colegas que iam no meu grupo disseram que duas meninas da turma, a Celeste e a Guida, também têm namorados, aqueles dois que vinham com elas lá atrás. Mas eu achei tão estranho… namorarem assim tão novos… será que estão mesmo apaixonados? Eu acho impossível… Como é que se se apaixona assim com esta idade?... Como será isso de se estar apaixonado? Eu acho estes rapazes tão criancinhas e tão sem jeito, que não me parece que seja capaz de gostar de algum, aliás, acho muito improvável que isso aconteça. Isso ainda não é para a minha idade. Não, não é isso que quero para mim... agora.

20/05/2009

As meias das cerejinhas

Ganhei, do pai, umas meias, até à curva da perna, com umas bolinhas penduradas de lado que parecem duas cerejas. Há que tempos que eu as desejava. Já tinha sorrido para elas... e elas para mim, através da montra. Até já tinha começado a poupar para elas, deixando de comprar daquelas farturas deliciosas, polvilhadas de açúcar e canela, que a dona Mariazinha vem vender ao portão do colégio, e também das saborosíssimas sandes de fiambre fininho, que eu nunca tinha provado na vida antes de vir estudar para a vila. Mas hoje o pai comprou-me as benditas meias. Comprou porque eu as ganhei. Foi a minha recompensa por ser uma menina corajosa.
Às vezes tem que se ser corajosa à força. E foi o que me aconteceu no sábado passado, à tarde. O pai levou-me com ele a Coimbra… quer dizer, não levou, ou melhor, não chegámos lá, porque o carro avariou pelo caminho. E aqui entra a minha coragem forçada: o carro ficou na beira da estrada comigo lá dentro, enquanto o pai foi procurar ajuda.
Disse-me que tinha que ficar ali porque não me podia levar, que ficasse sossegada, sem medo, que depois me compraria uma coisa. Pediu a um cantoneiro, que andava ali a limpar as valetas, que fosse olhando por mim e pelo carro, e apanhou boleia à procura de um mecânico. Fiquei ali, a contar os carros que passavam, até lhes perder o conto, e a olhar o senhor a raspar a ervas com a enxada, vendo-o ir-se afastando a pouco e pouco. Uma vez ele veio perguntar-me: “A menina está bem?”, e eu só acenei, com a cabeça, que sim. Devem ter-se passado muitas horas até o pai voltar, pois já estava a começar a ficar chateada e cheia de fome, e a tarde ia bastante avançada quando ele lá apareceu com um senhor, que se pôs de volta do carro até que ele começou a trabalhar.
Depois o pai deu uma gratificação ao cantoneiro e voltámos para casa, mas ainda parámos num café para eu lanchar um bolo e um garoto. Foi uma aventura e tanto! E hoje o pai comprou-me as meias das cerejinhas que eu tanto queria e, também, um casaco comprido. Assim, o carro até pode avariar mais vezes!

15/05/2009

Leituras

A leitura exerce um enorme fascínio sobre mim. Ler permite-me a fuga para um mundo encantado, um mundo onde posso descobrir muito do que a minha curiosidade me pede e que não obtenho de outra maneira. Ler satisfaz-me e inquieta-me. Satisfaz-me porque me proporciona momentos de verdadeiro prazer e delírio, ao descobrir coisas novas; inquieta-me porque sinto uma avidez de ler tanta coisa a que não tenho acesso.
Já li quase tudo o que havia em casa para ler; leio o que vou encontrando e pedindo emprestado; leio os livros que vou buscar à biblioteca - àquela carrinha que passa por cá de tempos a tempos, e da qual não me deixam trazer todos os livros que quero, nem dos que quero, só dos da fita verde – mas leio também os que o meu amigo Zeca traz; leio outros que ele me empresta, do Tio Patinhas e de outros heróis de Banda Desenhada, se bem que alguns não fazem muito o meu género, mas à falta de outros, é melhor do que nada; leio também as revistas de fotonovelas e a Crónica que a minha amiga Manuela compra quase todas as semanas e me empresta, mas leio às escondidas, porque tenho medo que o pai me veja ler essas coisas… não é por nada, que acho que não faço mal nenhum, até porque já fiz onze anos, mas ele pode não compreender e ralhar comigo com aquela sua voz de trovão que me faz encolher toda.
E é claro que também leio os livros da escola, mas esses é por obrigação, apesar de quase nem precisar de os ler, pois o que percebo nas aulas quase me basta para apreender a matéria e tirar boas notas.
Há dias encontrei uns livros antigos do pai e, entre eles, uma Bíblia que tem feito as minhas delícias. Tenho vindo a lê-la, aos poucos, desde o seu início, enquanto a mãe me espreita no quarto, ficando a pensar que estou a estudar. Ela até diz às vizinhas que tem uma filha que não faz mais nada senão estudar, que não puxa para fazer mais nadinha; vê outras meninas da minha idade que fazem tudo em casa às mães, mas eu, que não sabe a quem é que eu saí…

(Publicado em: Memória Alada, 2011)

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