27/09/2009

Tatuagens Escondidas [1]

A morte... ainda não consigo escrever sobre isto com tranquilidade. Mas forço-me a fazê-lo nestas páginas soltas deste quase-diário. Preciso de espantar os meus fantasmas, resolver ou perdoar-me as minhas culpas, desfazer as tatuagens escondidas.
Primeiro foi a Princesa, a gatinha branca que conhecia os meus passos, que miava para mim como se estivesse a falar comigo, que se coçava nas minhas pernas para dar e receber mimo; depois foi o avô, que passava as tardes sentado na cadeira no patim, junto de quem eu brincava de o imitar a abrir a boca, e que me ensinava lengalengas e as primeiras letras; recentemente, a avó, a minha maior amiga, da qual eu ainda não consigo deixar de sentir um peso no peito e um nó na garganta. Pelo meio, um menino vizinho que estava doente, e também a outra avó, mãe da mãe, mas dela não tenho marcas tão fundas porque não passava tanto tempo com ela, só a via mais ao domingo depois da catequese. Quando morreu, há uns anos, eu fiquei a brincar no jardim até ser severamente repreendida; foi quando percebi que se não se podia brincar era porque a morte era um acontecimento muito triste e sisudo, em que se tinha de chorar, estar sempre a chorar, mesmo que naquela hora não se sentisse vontade. Então eu pensava que havia alguma coisa errada comigo, por preferir ficar no jardim, sem conseguir aguentar aquele ambiente de tristeza e choro em que eu, menina sempre tão chorona por tudo e por nada, me sentia triste e muito abalada, mas não conseguia chorar.

21/09/2009

Asa ferida


Fugia do que não podia controlar. Fugia magoado com a dor de se sentir inseguro, perdendo-se na fronteira entre a verdade e o medo dela.
Tivera uma efémera felicidade que ainda lhe corria nas veias, lhe percorria as artérias, lhe inundava o cérebro, ao mesmo tempo que se transformava num regato de solidão. “Os lugares dos outros atingem-nos na nossa insegurança!” – Era o pensamento que o levava a um lago parado: um lugar que não estava vago, que era habitado por cisnes brancos, onde não cabia um patinho feio.
Contudo, não conseguia evitar de a imaginar no voo das gaivotas. As gaivotas e os sonhos possuem a liberdade de voar por entre as nuvens, indiferentes à agrura da viagem, apenas sentindo o odor a maresia no arco-íris que perseguem. O voo das gaivotas é sustentado pelas asas; são elas a segurança do voo no sopro do vento.
Mas nem ele era uma gaivota nem as suas asas lhe permitiam voar. Era um patinho feio de asa ferida, que tinha sido atingida na sua ainda débil segurança. Não, não podia aventurar-se no voo - as suas asas mal lhe amparavam a fuga.

17/09/2009

Flores, Cerejas e Pedras

"Meu senhor eu vendo flores
Mas ninguém mas quer comprar
São tão baratas, tão lindas
Mais lindas não pode achar."

Vou cantar esta canção na festa da minha Profissão de Fé.
Sim, porque depois da Profissão de Fé, vai haver outra festa, em que todos vamos participar com umas pequenas peças de teatro, danças e canções.
Está a aproximar-se o dia e os ensaios andam a chatear-me. Não são propriamente os ensaios que me chateiam, apesar de eu já saber a minha canção de cor e salteado e ter de ensaiar ainda mais com os dois seminaristas que vão acompanhar-me à viola. Não, não é isso que mais me chateia.
Nos dias dos ensaios vou directamente da escola para lá de autocarro; mas na volta para casa é uma estafa a pé durante meia hora... bem, algumas vezes ainda é mais, muito mais, quando, pelo caminho, vamos apanhar cerejas tão vermelhinhas, àquelas cerejeiras carregadinhas delas, que só de olhar fica-se com água na boca. O pior é quando a dona lá vai dar connosco... ai, ai, já mais do que uma vez... isso é que foi fugir! Isso é que é aventura! Mas eu acho que não fazemos mal nenhum. Roubar para comer não é pecado, dizem-me as colegas. A avó dizia-me que pecado era estragar, mas para matar a fome não; mas que nunca fosse às uvas, porque essas davam trabalho e despesa a tratar com sulfato e enxofre; isso era pecado porque dava prejuízo. Pecado é, portanto, prejudicar alguém. Então, ir às cerejas, não faz mal. Acho que não, pois se não as comermos nós, comem-nas os pardais... elas são tantas e tão pequenas que os donos não são capazes de dar vencimento a apanhar tanta coisa...
Mas o que me chateia, mesmo, mesmo, é quando somos corridas à pedrada pelo grupo dos rapazes. Eu não sei o que se passa naquelas cabeças chochas para nos atirarem pedras, ou porque será que são assim tão maus. O que é certo é que todas as miúdas têm medo deles. Tentamos sempre manter a distância. Mas se ficamos para trás fazem-nos uma espera... se vamos à frente acabam por nos alcançar...
Por isso é que estou desejosa de que acabem os ensaios.
E também que chegue o dia de eu cantar as flores.

"Meu senhor comprai as flores
Que ventura só vos dão
E à floreira que as cultiva
Dão-lhe vida, gosto e pão."

08/09/2009

Fuga


Disse para si próprio que era loucura.
Quando tinha 23 anos deixara-se envolver, perdidamente, num romance dourado com a sua professora preferida daquele segundo semestre, a mais bela das mulheres, que agora, passados quase três anos, estava ali deitada naquela cama do hospital, com os filhos a cobri-la de beijos, depois de ter estado entre a vida e a morte.
Como era possível que não soubesse nada da sua vida, que tinha filhos, marido?...
Este pensamento atormentou-o. Se tinha filhos, devia haver um homem que a amava... porque não estava ele aqui? Não conseguiu acalmar a agitação provocada pela ideia de que outro homem, apesar de ausente, preenchia um lugar a que ele não tinha direito. "Eu não posso passar sem ela, não agora que a reencontrei."
Mas a verdade é que ela o tinha deixado... sim, claro, havia outro homem... o menino mais pequeno não teria 2 anos e o mais velho uns 7. Como pudera ser tão inocente? Que fazia ele ali, então? Só conseguiu, de momento, imaginar uma solução: iria embora.
Talvez que ela tivesse gostado realmente dele, mas as circunstâncias tinham-nos levado por caminhos diferentes, apesar de agora se terem voltado a cruzar... não, não sabia porque o destino os pusera de novo frente a frente... não sabia como a encarar de novo.
Isto estava a produzir-lhe um turbilhão de sensações confusas, contraditórias, que lhe tornavam dolorosa a sua permanência ali. Afastar-se-ia... rapidamente, antes que se arrependesse.
Deitou um último olhar àquele quadro, enquanto se dirigia à porta, sentindo-se estilhaçar todo por dentro.
Talvez voltasse... ou então não.

09/08/2009

[5] Gotas recolhidas

A carrinha da Instituição ficou de levar o José no dia seguinte para fazer uma visita ao Centro de Dia e almoçar lá. Este vestiu a roupa de domingo e foi. Gostou do que viu e da refeição, e concordou em fazer uns dias de experiência, após o que fez a inscrição e foi admitido. Passou a ter refeições decentes, higiene pessoal como deve ser, e roupa tratada. A casa e a cama foram desinfestadas e esta levou um colchão e cobertores novos. Passado uns tempos já nem parecia o mesmo, de aspecto asseado e bem alimentado.
O pedreiro foi mandado ver o telhado e fez um orçamento. Chegou-se à conclusão de que o dinheiro do José era mais do que suficiente, não sendo necessário recorrer a qualquer ajuda externa. Afinal, por via do dinheiro, ele não tinha necessidade de ter estado tanto tempo naquela miséria. Mandou-se, assim, fazer um telhado novo, substituir o soalho de madeira, velha e podre, por material facilmente lavável, fazer obras exteriores na entrada da porta principal da habitação e, ainda, substituir uma janela em muito mau estado.

Durante o tempo em que decorreram as obras, o José passou a dormir na Instituição, na Unidade de Apoio Integrado (UAI) – uma resposta social de permanência temporária, de períodos de quinze dias, renováveis no caso de se justificar, destinada a pessoas com necessidades de apoio social e de cuidados de saúde continuados, com os objectivos de lhes criar condições de autonomia, de forma a habilitá-las a regressar ao seu domicílio; ou de convalescença de doentes, após alta hospitalar, e ensino às famílias e outros prestadores de cuidados informais do modo de os cuidar; e receber outros idosos ou doentes para descanso dos familiares. Este caso enquadrou-se perfeitamente nesta resposta, mas o José teve sorte, pois passado algum tempo, a Segurança Social deixou de querer continuar a comparticipar esta resposta social, o que levou depois a deixar cair esse acordo de cooperação e passar essas camas, afectas a essa resposta, para alargamento da resposta social de Lar de Idosos. Caso, na altura, não houvesse UAI, teria sido mais difícil o acolhimento do José durante o período em que decorreram as obras, o que levaria a ter de se procurar outra solução, talvez com recurso à comunidade, apesar de ninguém se ter disponibilizado para ajudar ou mostrado grande interesse pelo facto. Isso era assunto para a Associação resolver, ela é que está vocacionada para isso, é para isso que ela existe – parece ser pensamento consensual generalizado.

Depois das obras concluídas e melhoradas as condições interiores, a higiene habitacional passou a ser assegurada pela Instituição e o José pôde usufruir de uma melhoria na sua qualidade de vida.

Junto com o telhado veio “cama, mesa e roupa lavada”: meio caminho andado para a felicidade.

Fim

11/07/2009

Dizer adeus


Dormi pouco esta noite e levantei-me cedo, ao contrário do costume, pois gosto muito de dormir e de me levantar o mais tarde que puder. Mas hoje não consegui. Tenho um nó na garganta, queria chorar mas não sou capaz.
As imagens perseguem-me onde quer que esteja, aonde quer que eu vá, faça eu o que fizer. Franzi-me, abanei a cabeça para um lado e para o outro, mas não adiantou nada: os pensamentos continuam a incomodar-me.
Estou sozinha em casa e isso torna-me ainda mais pensativa e faz as recordações revolverem ainda mais na cabeça. Mais do que triste, tudo está a ser muito perturbante. Como os laços de família podem ser tão frágeis! Arranco um suspiro fundo: minha querida avó... nós nem nos despedimos!... éramos as melhores amigas, eu era a sua companhia e a avó a minha. Agora que estou de férias, todos os meus maiores bocadinhos livres eram para si... eu sei que estava doente, mas não pensei que... estou a sentir tanto a sua falta!
Por fim, as lágrimas vêm em meu socorro.

07/07/2009

A gente habitua-se


A gente habitua-se. Quer se queira que não, a gente acaba sempre por se habituar...
Habitua-se ao passado, que mais do que passado, torrado, moído, cru ou cozido; cosido ou tecido, ou só alinhavado; espalmado, enrolado, estendido, comprido ou nem tanto; tanto nos mói como nos mata, tanto nos afasta como nos oprime e ou muitas vezes nos salva ou redime.
A gente habitua-se ao presente, que é presente, dádiva ou castigo; por vezes um perigo e outras sorte; muitas vezes vida e outras morte.
A gente habitua-se ao futuro. Maduro ou duro; que pode ser resplandescente ou escuro, negro, fumegante, frio, quente, fervente, escaldante, pungente; sempre igual ou diferente; mas que se anseia puro, vivente.
A gente habitua-se!
Quer se esperneie quer não, acaba sempre por se habituar... e conformar...
Ou não...

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