22/04/2010

Pontos nos iii

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"A vida é tão diferente
Daquilo que sonhamos
Talvez o nosso mal seja acordar"


Há uma linha invisível, uma ténue fronteira entre o ontem e o hoje... e o amanhã(?); entre o dia e a noite; entre o cedo e o tarde; entre o conhecimento e a ignorância; entre o amor e o ódio... e entre o ódio e o amor(?); entre a saúde e a doença... e entre a doença e a saúde(?)...

"Estou a sentir
A minha voz perdida no deserto"


Espero. Há um nó que me aperta no estômago.

Queria dizer-te que nada me ata a nada, que sou dona de mim, que quem manda em mim sou eu... e até pensava que era um pouco assim. Mas não é.
Tudo o que tenho não é meu. Tudo o que sou não está nas minhas mãos. Tudo o que penso não me cabe no pensamento. Tudo o que sinto me escapa. Tudo o que sei desconheço. E o que olho não vejo. E o que me dizem não sei.
Longe - perto; longo - breve; grande - pequeno; aberto - fechado; visível - escondido...
Palavras: apenas palavras com muitas conotações, sentidos, direcções; e dores, afectos, emoções.

Espero. E chove-me enquanto espero. A chuva que me escorre é porta de vai-e-vem. Para lá dela, o nevoeiro: o despontar da noite ou do dia - o crepúsculo ou a aurora.

A vida nunca é como a sonhamos.
Mas parar de sonhar é parar de viver.

Preciso de um Xanax; ou de um café.

12/03/2010

Ao Domingo


- Só agora? Ficaste a despir o padre?!
Já me habituei a este tipo de ralhete, de voz forte, do pai, ao domingo quase à hora de almoço. Ele quer que eu ajude a mãe na cozinha, mas é ela que não me quer lá… manda-me sempre de lá para fora, diz que eu só atrapalho, que não sei fazer nada… quando a culpa não é minha, é ela que não me ensina. Por isso, não tenho que me apressar. Na casa de Deus estou melhor do que na minha.
Não tarda, vou fazer doze anos e já há um certo tempo que pensava em ajudar a dar catequese, mas tinha vergonha de o dizer ao senhor prior. A Fernanda, que fez a Profissão de Fé comigo, ajuda no grupo do primeiro ano e eu comecei a achar que também podia ir aprendendo. Há dias disse-o à tia e ela, num domingo destes, levou-me à sacristia, no fim da missa, e falou com o senhor prior.
Não sou de falar muito. Sou um bocado tímida. Por isso, a tia falou por mim.
Comecei logo no domingo seguinte e estou a gostar muito. Para já, fiquei a auxiliar no grupo do segundo ano; tenho um guia para seguir as lições e cabe-me preparar uma por mês. Posso dizer que é muito interessante como e o que se aprende assim, a ensinar, muito mais do que quando frequentava a catequese para aprender.
É esta a razão de me demorar a chegar a casa e, também, porque gosto de me encontrar com as minhas amigas pelo caminho. Mas o domingo é um dia diferente dos outros dias da semana. Será assim tão difícil de perceber?

09/02/2010

Pontos nos ii

O dia amanheceu cor-de-rosa. Percebi-o pela luz que me chegou filtrada através das cortinas da mesma cor. Esquecera-me de fechar as portadas na noite anterior e o dia espreitava-me, agora, mais cedo do que o costume. Pensei um breve gesto para me levantar mas nem sequer as pálpebras me obedeceram, teimando em voltar a fechar-se. E sonhei, por momentos, o mesmo sonho de sempre, outra vez: isto já não era sonho, mais parecia pesadelo! Sonhava que o meu quase primeiro movimento da manhã era em direcção aos teus braços, mas agora sentia-me sem forças para o fazer. Melhor assim. Agora não eras tu que te impunhas, era eu que comandava. Chamavas-me, mas havia algo, mais aliciante do que tu, que me prendia: tão bem aninhada nos lençóis fofos e quentinhos que nada me arrancaria de lá tão cedo.

A vida fervilhava lá fora há muito tempo quando, por fim, dei conta de que eram mais do que horas. Aquilo não era vida. Mandriava, o que me traria os mais diversos aborrecimentos. Não só começava o dia tarde, o que me faria andar atrasada todo o dia, como não iria ter muito tempo para estar contigo. Levantei-me e não resisti a procurar-te. Mas, desilusão, hoje não te tinha. Como era possível que a janela não abrisse? Já não sei o que é melhor: que me sejas veneno ou pedaço de fantasma que me tapa o sol. De uma maneira ou de outra, não passas sem me embotar o cérebro, e não era para isso que te queria.
Porque me manténs refém? Não havia necessidade! Eu gostava de ti, para que querias de mim ainda mais? Maldita ressaca quando me faltas!…

29/01/2010

Pontos nos i

O sonho foi igual ao de todas as noites. Sonhei que a janela, a mesma janela de sempre, estava fechada e que para lá dela é que era o mundo: lá fora é o mundo e eu fico sempre inquieta enquanto não abro a janela ao sol que por ela me chega. Revolvo-me e não durmo enquanto não acordar.
Quando os mesmos sonhos se sucedem noites a fio passam a ser parte da vida. Quando reclino a cabeça no travesseiro para dormir já sei o que acontece a seguir: a janela, o mundo lá fora à espera, impaciente para entrar no dia seguinte.
Assim entraste na minha vida: todos os dias um pouco, sempre um pouco mais, um sonho que se repete; e passaste a ser-me vida, janela para o mundo. Entraste-me pela porta e foste-me janela. Mirei os meus olhos aos teus e aos poucos gostei de ti até me tornar adicta. Sim, porque me és droga: remédio do qual dependo para me curar as mazelas e, ao mesmo tempo, veneno que me mantém submissa, me envenena lentamente, me mata todos os dias um pouco.
Conheci-te num tempo em que o tempo já não era o que era. Vieste por mãos queridas e eras delas, mas as minhas te tomaram para mim. A culpa não foi minha: foste tu que, sem pudor, me seduziste, te apropriaste da minha vida e fizeste com que me fosse apaixonando por ti. E és-me sol, luar, água para beber, lume para me queimar.

As pálpebras pesam nos olhos cansados, a cabeça fecha-se, as costas doem…
- Coça-me as costas.
Sinto as mãos percorrerem-me os ombros doridos e uma paz silenciar-me as veias e as artérias alteradas. Era assim que deveria ser sempre. Era assim que eu queria estar sempre: tranquila, sem nada desejar, sem mais nada querer.
- O que é que é o comer? Falta muito para o jantar? Já estou com fome.
E lá se vai o sossego! Chega-nos um cheiro estranho. Fumo. Vou até à cozinha, o jantar foi outra vez queimado: o caldo está entornado!

Isto não é normal. Não pode ser normal. Não consigo fazer tanto ao mesmo tempo, com a mente sempre com resmas de coisas para pensar. E tu fazes-te prioridade. Absorves-me. És-me o mundo que me traz alucinada. Que me tira a vida. E o teu papel não deveria ser esse. Não pode ser esse!

Toca o telefone:
- Estou! Sim… onde? Vou já de seguida!
Entro no carro e saio para a estrada. Ligo o rádio na estação preferida:

"It's got to be-ee-ee-ee-ee-ee-ee perfect
It's got to be-ee-ee-ee-ee-ee-ee worth it
yeah.
Too many people take second best
But I won't take anything less
It's got to be
yeah
pe-e-e-e-e-erfect!"

Perfeito! Sair da rotina é o melhor que me pode acontecer. E canto, grito, a par desta música que me faz esquecer, por uns momentos, a loucura em que se está a tornar a minha vida…

11/01/2010

Chuva

Lá fora a chuva cai: ouço-a a bater nas telhas. Presto atenção e saboreio o som da chuvada como se fosse música. Suspendo os deveres da escola e enrolo-me na mantinha sobre a cama para mais confortavelmente a apreciar. Só tenho medo se fizer trovões; a avó costumava dizer que era o Pai do Céu a ralhar...

Olho para o tecto de forro de madeira e para as paredes decoradas a caixas de fósforos e sorrio: sinto-me tão bem no meu quartinho - o meu pequeno mundo!
O que começou por ser uma pequenina colecção de caixas de fósforos com motivos de flores tornou-se já numa colecção enorme destas caixinhas de todos os estilos: os meus amigos, sabendo desta minha paixão, começaram a granjeá-las para mim. E eu, que comecei a colá-las à volta da janela, vou já na terceira parede quase cheia. O pai bem começou por ralhar e dizer que eu estava a fazer um duplo disparate: estragava as paredes e a colecção perdia todo o valor, mas depois acabou por se render e apreciar também; a mãe é que não acha muita graça, diz que eu só perco tempo com coisas que não dão interesse nenhum e o que eu havia de fazer não faço. Ela nunca me irá entender.
Eu sei que isto não vai durar para sempre, que acabará por se estragar ou por alguém estragar; algumas já se descolaram e voltei a colá-las, outras tive mesmo que as substituir porque se deterioraram completamente, mas também não me importa o tempo que dure, o que interessa é que eu goste e me sinta bem enquanto durar.
É como a chuva que continua lá fora... há coisas que nos são agradáveis ao coração, mesmo que os outros não o entendam.

(Publicado em: Memória Alada, 2011)

23/12/2009

Esperança Despida

Palhaço não era… nem se sentia, muito embora se rissem dele e com ele. Uma figura caricata que poderia parecer um palhaço, com aquela indumentária que vestia, fazendo gosto em ostentar as medalhas que as feirantes lhe colocavam ao peito à segunda-feira no mercado. Elas achavam-lhe graça e, dançando à roda dele, faziam-lhe uma festa. O David, na sua simplicidade, ficava envaidecido e vinha contar tudo, com a sua tão conhecida gaguez que fazia com que todos puxassem por ele. Que elas tinham dançado com ele e que: “fofoforam aquelas maaaluuuca…ca…cas é é daaaaququeeelas é é é pepeeeixeiras esgueeeeirooouas é é é qqque me deeeram a as medaaaalhas”. Um simples, que trabalhava de carregador no mercado a troco de gorjetas. Palhaço não. Nunca pela pequena cabeça lhe passou que se divertiam à sua custa, muito embora alguns o fizessem, pagando-lhe copos de vinho quando sabiam que isso o faria descarrilar. Palhaços são os que, sem alma, se aproveitam da pequenez dos outros para se divertirem à sua custa. Quando o picavam ou chateavam, ele encarava-os com aqueles olhos, entortadamente, e gaguejante ameaçava que chamava a Guarda.
E o tempo ia passando satisfatoriamente, feito de primavera e verão, até lhe chegar o outono e lhe assomar o inverno. Então um Inverno mais forte, estando ele mais fraco, despiu-lhe a esperança do Natal. Desabou-lhe o telhado do casebre sobrevivente da aldeia semi-fantasma de habitantes. E a chuva e a geada dormiram com ele.
O Natal despido de esperança é um gelado inverno: um inverno que gela os ossos e a alma o ano inteiro, com artes de transformar qualquer um em pobre palhaço.

(M. Fa. R. – 22.12.2009)


A todos um Bom Natal, vestido de Esperança e calor humano,
para que se sinta menos gelado o frio que soprar em 2010.

Um Ano Novo de Paz e Amor!

15/12/2009

Passagem

A tarde de Outono começou a fazer-se lua – redonda, grossa – que uma multidão de nuvens prenhas, de ancas largas e de peitos túrgidos, começaram a empurrar para o fundo do céu, fechando-a numa noite temporã. Ela ainda experimentou espreitar por entre umas cortinas que o vento ajudou a arredar, mas não teve forças para fazer frente àqueles bustos inchados que impunham respeito.
Depois de assim vendarem os olhos à lua, estas monstras começaram a guerrear umas com as outras com um leve rosnar intensificado até à discussão séria, empurrando-se e acotovelando-se, discutindo assanhadamente e deitando fogo pelas ventas como toiros, numa ânsia desenfreada de encontrarem lugar para parir. E o céu explodiu em raiva sobre o bosque de eucaliptos que não tinha culpa de nada.

Carregado de medalhas ao peito e de cigarro na boca, foi apanhado naquela confusão pelo caminho enlameado de regresso ao casebre, que ficava para lá daqueles arvoredos, e resmungaguejava contra aquela bátega que o molhou dos pés à cabeça. Se ele soubesse tinha ficado em casa da irmã. “Eeela beeem qqquuue m’aaaaviiiisô!”
Na noite de raios e coriscos, as árvores tomaram formas humanas de cabeçudos gigantes com narizes pontiagudos e dentes arreganhados, que gargalhavam amedrontando o incauto que atravessava naquela hora.
Quem era esta personagem quase descartável, que ali dançava como uma folha de papel soprada pelo vento? Será que deixaria para sempre as suas pegadas naquela lama do caminho? Porque há pessoas que marcam bem a sua passagem pelo tempo.

(M. Fa. R. - 09.12.2009)

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