21/06/2011

Pontos nos iiiiii


O que é que eu faço aqui?
Colo o nariz ao vidro da janela e pergunto-me: mas o que é que eu faço aqui, neste mundo tão grande e frio?
Penso em abri-la e debruçar-me no parapeito, sorver um sopro de vento, um doce-amargo do tempo...
E há tanta vida lá fora à espera para eu passar.
Ouço, ao longe, tambores... ouço-te as palavras no vento. Grito por ti, para que me livres do pesadelo, mas o vento sopra ao contrário e não chega até ti o eco da minha voz.
Quando ousarei partir o vidro da janela e abrir as asas para me soltar?

02/06/2011

Gaivotas


A praia estende-se pelo enorme areal quase deserto a esta hora. O sol cai a pique sufocando-me os olhos de luz. Torra.

Acabei de almoçar e apeteceu-me vir espreitar o mar; quero aproveitar bem estes dias de inteira liberdade, sem os pais a controlar-me.
Eles, depois de eu muito os chatear, lá me deixaram vir passar esta semana na praia com as primas, na casa que elas alugaram. Mas eu prometi que teria juízo, e tenho. Só vou para a praia quando as primas também vão… bem, excepto agora. Elas não quiseram vir a esta hora, com tanto calor, e eu não pude esperar. O mar é tão perto que eu o avistava no intervalo das dunas, e o seu barulho fazia eco em mim.

Primeiro, sentei-me no muro a olhá-lo. Uma imensidão que toca no céu sem nuvens, onde as gaivotas se perdem. Depois, avancei até à orla da espuma, atraída pelo enrolar das ondas inquietas. Fui deixando os rastos dos pés na areia húmida, junto aos das gaivotas, até os mergulhar na água ansiosa. Que fria! Recuei. Caminhei ao longo da areia beijada pelo mar, a apanhar conchinhas, fugindo aos pulinhos de cada vez que o mar se aproximava.

Recolhi-me, por fim, junto às barracas da praia, procurando um pouco da sua sombra. Estendi a toalha à sombrinha e tirei o vestido; por baixo, o fato de banho novo que eu tanto queria. É azul-escuro, com umas risquinhas em azul mais claro no peito, que dão com a cor dos meus olhos, os quais protegi do sol nesta sombra onde me deitei a olhar o céu longamente. Apurei todos os sentidos. Um bando de gaivotas passa a voar – três e três: seis; sete; oito e mais outra: nove. E é o marulhar das ondas; o vento do mar nas narinas e nos ouvidos; as abas da barraquinha a dar a dar. Mais outro bando de gaivotas – doze – a voar. Para onde voam as gaivotas?

Agora voa uma em sentido contrário. Eu sou como essa gaivota. Perdida. Solitária. Se calhar, rejeitada pelo bando e que, por isso, voa para o outro lado. Também eu, muitas vezes, me afasto à procura de um lugar para mim, um lugar só meu, onde só eu entro. Eu e as gaivotas que me voam nos sonhos.

19/05/2011

Cresci II


Cresci.
E o que é que se ganha em crescer? Ter doze anos já não é o mesmo que ter dez ou onze. É verdade que eu já não queria ser uma criancinha pequena e gosto que me olhem como uma rapariguinha crescida, mas às vezes é uma chatice. Chatice e não só. Também dói. Agora, depois de ser menstruada pela primeira vez, já sei que ser mulher também dói. E muito. Quando isso aconteceu, na semana passada, doeu tanto, tanto, que eu não sabia o que fazer para que as dores parassem; estas eram maiores do que a vergonha que tive de engolir para pedir ajuda à mãe. E ela, em vez de me ajudar logo, até parece que ficou com um sorriso de troça: “Ah, isso é o sinal da mulher.” O sinal da mulher, o sinal da mulher…, isso sabia eu! Não que ela alguma vez me tivesse dito alguma coisa; se não tivesse sido a avó, enquanto ainda vivia, a falar comigo de mulher para mulher, seria apanhada desprevenida e o choque seria bem maior. Só que a avó não me disse que dava dores assim tão insuportáveis. E eu rebolava em cima da cama e no chão sem encontrar posição nenhuma que me desse algum conforto. Depois a mãe lá me arranjou uma toalha quente para pôr em cima da barriga, e as dores lá foram amainando. De cada vez que penso nisso começo a temer a próxima vez.

(Publicado em: Memória Alada, 2011)

10/05/2011

Breve Aragem do Mar na Alma


Uma aragem fresca passou-lhe ao de leve pelo rosto como um beijo, como uma carícia de despedida com uma mensagem dentro. Que lhe queria dizer aquela aragem?
Stella abraçava-o e ele deixou que lhe aconchegasse o corpo gelado no seu quentinho, abandonando a cabeça no seu ombro, fechando os olhos, sem querer pensar nada. Mas pensava. Taiki pensava que há coisas que não se devem adiar tanto tempo. Pensava e pensava, tentando respirar aquele ar impregnado de maresia.
O vento, por vezes, traz-nos perfumes de recordações, e incita-nos na procura de um sinal de permanência nelas, ou então de um ponto de viragem.
Sim, claro, percebia, tinha recebido um beijo de despedida de Loiris. Era essa a mensagem definitiva que lhe roçou a face, a dizer-lhe que não podia viver agarrado a uma recordação que não frutificaria. Era preciso encerrar um capítulo da sua vida, para que vida nova brotasse. Mas não seria nada fácil… não seria nada fácil…
A carta fora escrita, entregue em mãos e respondida. Mesmo que não estivesse à espera de resposta, e não estava, a resposta viera. Viera num leve bater de asas de um anjo que o rodeou num voo perfumado de maresia. Sentiu novo roçar pelo rosto, nova aragem, novo beijo. Estremeceu, abrindo os olhos na procura dessas finíssimas asas transparentes, mas o que encontrou foram os lábios de Stella tão perto dos seus:
- Olha como tremes. Que ideia a tua vires para aqui, assim, sem um casaco… e o susto me pregaste!
Olhou para ela, incapaz de articular palavra, mas aconchegando-se mais naqueles braços, verdadeiros e seguros, que o puxavam para fora do areal.


(Um trecho meu para Mar da Alma do Fontez na sequência de colaborações anteriores na história de Taiki.) 

23/04/2011

Em Tempos de Morte e Ressurreição


Quem não tem dinheiro não tem vícios.
Num rasgo de lucidez, Alcides decidiu parar.

As contas continuavam a amontoar-se. Jogar, que começara por ser um hobby, passou a ser um meio de tentar arranjar dinheiro pra pagar as dívidas, mas acabou por ser um vício que as amontoou ainda mais. Um beco sem saída, um precipício, um abismo.

Há caminhos que, quando percorridos desenfreadamente, levam ao abismo. À noite. À escuridão. À morte. Quem gasta mais do que aquilo que pode pagar cairá, com certeza, nas mãos daqueles a quem fica a dever. Depois não se pode queixar de que a vida lhe foi madrasta. Não. Ele é que não soube fazer da vida sua mãe, porque fechou os olhos e os ouvidos quando ela o procurou ensinar. Pensou ser maior do que ela e que já nada tinha que aprender. Era maior e vacinado. Já sabia tudo. Ela era antiquada, não era do mundo de hoje.

São assim muitos filhos em relação aos pais quando pensam que já sabem mais do que eles e dispensam a sua sabedoria de experiência feita. São assim os homens em relação à História quando a olham como passado velho e gasto que passou e nada mais. Que os tempos de hoje são diferentes, muito diferentes… E quem não avança recua. E é verdade. Até é verdade. Mas tem que se ver muito bem por onde se vai avançar. Porque nem todos os caminhos são de fiar. É claro que qualquer um se engana (até o GPS pode falhar). Quem nunca se enganou que atire a primeira pedra. Mas há que ter a coragem de ver e admitir o erro, parar e voltar atrás.

Alcides parou. Fez-se-lhe stop. Parou. O sinal de STOP avermelhou-se-lhe na cabeça e espalhou-se-lhe pelo corpo retesando-lhe os músculos, paralisando-lhe o sangue nas veias e deixando-o branco de morte. E pensou. Que vida era aquela sua que em nada se parecia com vida? Como que uma quase dormência que o trazia sedado, amarrado a um mundo de alucinação. Uma mentira. Uma mentira real, ou uma real mentira era o que era.

Parar, só quando se dá de caras com um sinal de stop numa barragem intransponível, é chegar ao limite sem se ter dado tempo para apreciar qualquer paisagem pelo caminho. E a travagem tinha sido tão brusca que o deixara descalço e esfrangalhado. Ainda atordoado viu que não dava para continuar, mas o caminho para trás podia ser longo e pedregoso; bastante penoso para se fazer sem calçado. E mais branco ainda ficou.  Deixou-se, assim, ficar no chão, a pensar que sozinho não era capaz de sair daquela situação. Melhor sorte teria ao cair no abismo agora, atirar-se já. Se vida não era, morte seria.

Mas alto lá! Stop! Morte, sim, mas não a dele. Mate-se o vício que esse é que tem que morrer. Pois ele, Alcides Baptista, ressuscitaria para a vida. Não seria, se calhar, de um dia para o outro… nem ao terceiro dia, mas a vontade firme de vencer, que lhe ressurgia como aurora, não era um viciozeco que lhe a havia de tirar!

14/04/2011

Em Tempo de Andorinhas


Tinham chegado as andorinhas. E enquanto umas depressa começaram a recolar os ninhos antigos outras construíam os seus próprios, de raiz. Migalha a migalha. Gota a gota. Pedaço a pedaço. Logo pela manhãzinha a laborar e sempre de alegres gorjeados.
Dentro de pouco tempo as famílias aumentariam e formar-se-iam novas famílias. Novas asas. Novos voos. Novos ninhos. Os beirais estavam a ficar florescentes de vida. É certo que também deixavam um lastro de porcaria pelo chão além, mas nem só de belezas se compõe a vida…

O menino saltou-lhe. Isso fez Matilde voltar a atenção, do que se passava lá fora, para o que se passava dentro. Dentro de casa. E dentro de si. Dava para estabelecer alguma analogia. Há vidas tão cheias de beleza e que dão em porcaria; e há porcarias de vida que dão em coisas boas. Assim se passava consigo: um misto de feio e belo; de conspurcado e puro.
Se houvera horas em que se sentira uma desgraçada, deixava que esses sentimentos ficassem agora em plano secundário, queria colocar isso fora das suas preocupações. A sua preocupação, de momento, era uma só: o filho no seu ventre. Não queria que ele absorvesse as suas tristezas, as suas mágoas, os seus fantasmas, por isso essas coisas tinham de ser atiradas para longe.
Engravidara numa fase negra da sua vida, que mais negra ainda ficara quando o seu pseudo-namorado a fizera escolher: ou ele ou a gravidez. Ele não devia ter feito isso: perdera. Arrancara-lhe um bocado da vida, mas perdera. Quase ganhara, pois não tinha sido fácil, também, enfrentar as feras em casa. Se não tivesse tido ninguém a jogar consigo na sua equipa, ele teria acabado por ganhar, porque era o mais forte, o mais bem treinado, e a ela tinham-lhe fugido todas as forças.

Tinham passado quase três meses desde então – por alturas do Natal, quando a mãe andava aflita à espera do espírito do Natal, que não havia meios de se manifestar, mas em que ele viera subtilmente, sem se fazer abertamente notado, aonde era mais necessário. E o seu filho, com sentença de morte chantageada, tinha escapado à matança dos inocentes.
Ainda não arrecadara muitas vitórias, ainda fraquejava algumas vezes quando a vida lhe doía na alma. No entanto, aquele jogador de futebol, que lhe pontapeava lá dentro, era quem mais certeza lhe dava de que uma vida humana deve ser preservada acima de qualquer outro valor; acima de qualquer vergonha, carreira, futuro, família ou amor; e ainda mais quando é carne da nossa carne, sangue do nosso sangue.

23/02/2011

Tempo de Acácias em Flor II


O sol embate-lhe com força na janela do quarto e espalha-se pelo aposento. Por momentos não consegue abrir os olhos sufocados de luz. Que era aquilo?
- Então, meu menino, toca a levantar que o sol vai alto.
 Era a mãe que tinha levantado o estore e afastado a cortina.
- Mãe, deixa-me estar... não tenho nada de interessante para fazer - diz ele cobrindo a cabeça com a roupa da cama.
Todos os dias se deixava dormir até à tarde, porque a noite era de vigília. Os dias andavam a ser trocados pelas noites havia tempos. Mas desde que visitava semanalmente o psicólogo algo já tinha começado a mudar. No início dessas visitas começara por não abrir a boca. Ali ficava, amuado o tempo todo, sem nada para dizer. Não precisava daquilo, não era maluco; maluco era, de certeza, quem o encaminhara para lá. Não era ele que precisava daquilo. A sua família é que andava doida, todos andavam doidos lá em casa. Ele não. Ele reservava-se ainda na lucidez de bem saber como os outros não andavam bem e que só o faziam sofrer. Eram eles que tinham de resolver os problemas em que se tinham metido e que, por via disso, o faziam fazer figuras tristes diante de um psicólogo, que o espreitava por cima dos óculos à espera que desemburrasse. Mas quem era ele para lhe arrancar alguma palavra? Pois bem podia esperar ali sentado enquanto ele permanecia mudo, de olhos fechados a olhar para dentro, recostado no divã.
E era como um jogo do sisudo, a ver quem primeiro perdia o ar grave. Um braço de ferro para ver quem cedia primeiro. A verdade é que não lhe apetecia falar e o terapeuta parecia não lhe facilitar nada. Tinha-lhe dito que falasse quando se sentisse capaz disso.
- Chegou o fim do nosso tempo.
Ouviu isso umas três vezes seguidas em outras tantas semanas, depois de uma longa hora em que não tinham havido trocas de outras palavras para além das iniciais. E saía cabisbaixo do gabinete, sem sequer tocá-lo com o olhar. Estranha maneira de fazer terapia, pensava.
Na quarta semana continuava sem vontade de falar, mas não fechou os olhos. Deitado, olhou o gabinete à volta e suspirou. Sentia-se culpado. Culpado por se sentir desmedidamente dependente dos outros e se ver traído. De repente faltara-lhe a protecção que tivera desde sempre e sucumbira. Mas escondera-o refugiando-se na noite, nos amigos, na bebida. Pronto, dissera-lho enfim, era isso que queria ouvir?
- Para início de conversa não está mal - respondera-lhe o terapeuta com um sorriso afectuoso.
A sua família era culpada do que ele estava a passar. Eles eram os culpados de tudo.
Mas ao fim de um tempo começou a sentir que, se calhar, deveria deixar de pôr as culpas todas nos outros. Os outros podem não ser totalmente culpados das nossas quedas, dos nossos fracassos.
Queria pensar que os fantasmas que nos assombram nas noites escuras podem sumir-se no ar se os fulminarmos com uma luz que os envolva completamente. Não uma chamazita, que essa ainda adensaria mais as suas sombras, mas uma luz forte, potente, que os confunda e mate. Uma luz grande como esta que lhe chegava da janela.
- Se não te levantas para vir almoçar vou abrir a janela de par em par.
- Mãe, não!... não é preciso. Sabes bem como sou alérgico ao pó amarelo das acácias.

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