23/05/2026

A Casa dos Ratos 5

(anterior)

Elas chegaram, alegres e cheias de graça. Distraiu-se, o gatarrão, dos afazeres a que se tinha apostado. Vigiar os ratinhos cansava, e agora aquela música era-lhe familiar e querida, embora os seus ouvidos, treinados, não a ouvissem há muito. Ali estavam, naquela parte dos seus sonhos, as melodias de que mais gostava – os belos trinados das andorinhas. Tinha-lhes sentido a falta durante o Inverno, muito embora os ratinhos lhe tivessem vindo aplacar um pouco o vazio dessa perda. Só um pouco mesmo, porque ainda não lhes conseguira deitar as garras, o que o andava a deixar ansioso. 

Agora ali estavam elas a gozar o sol, encavalitadas nos fios telefónicos que sobrevoavam o pátio até à parede da casa. Trepou avidamente o poste de suporte da alpendorada até ao telhado, para as fitar mais de perto. Eram duas, e as canções que cantavam enfeitiçaram-no como cantos de sereias. Ah, maviosos tons! Que maravilhosa cor e aroma delicioso que o sol lhe vinha trazer! Bendito sol, bendito céu azul onde moravam os seus sonhos. Um dia ainda haveria de voar como elas…

(continua)

12/05/2026

[3] Mais Gotas

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Dia seguinte. Hora combinada. Ponto de encontro: a casa do José. Esta é na rua principal da localidade – uma fachada baixinha com um telhado aos altos e baixos – e contrasta com a grande maioria das habitações da rua, que são vivendas modernas.
O José já estava à espera na rua quando chegam os três visitadores. Conhece bem dois deles: o homem que falou com ele e uma das mulheres. A outra não sabe quem é. É-lhe apresentada como a senhora doutora da Associação, a Assistente Social. Ele diz que está bem. Entram pelo portão do telheiro e depois na cozinha: um arremedo de cozinha, diga-se. Não tem mesa, nem bancos, só um borralho com uma trempe e uma panela muito farruscada, em cima; ao canto, um montão de pinhas e carolos de milho. Diz que é para ajudar a fazer a fogueira à panela, para cozer as batatas. Junto ao borralho, um alguidar de barro verde, vidrado, com alguma loiça desbeiçada.
Casa de banho? Sim, tem... - responde. O cunhado quando era vivo mandou pôr um chuveiro e um esquentador com uma botija de gás, naquele canto do quartito escuro, ao fundo da casa de fora e mandou cimentar o chão. A água do banho? Escorre lá para fora por um buraco na quina da parede com o chão. Por cima, no tecto sem forro, vê-se o sol pelas frestas das telhas. Não tem medo da botija do gás aqui dentro? Não, nunca aconteceu nada… Mas não tem lavatório… nem sanita, onde é que faz as necessidades? Atão… no pátio, pois. E, lá fora, no alpendre está um espelho… é lá que corta a barba.
A pouca roupa de vestir está empilhada numa tarimba no lado oposto ao chuveiro. E podemos ver onde é a sua cama? Se vocês quiserem… diz com um encolher de ombros. Então vá, mostre-nos lá. Mostrou. Era na casa de fora. O soalho, de madeira carcomida, com uns sacos de linhagem espalhados, a fazer de tapetes, denunciava a chuva que se abatia nele. O telhado, de telhas de canudo velhas e partidas, à vista. Parece que chove cá dentro… Novo encolher de ombros: Hum, quando ela é muita não cabe nas telhas… eu ponho aí no chão uns baldes a aparar.
Na cama de ferro, junto a uma das paredes, um monte de cobertores negros e mantas de retalhos. Lençóis? Não é preciso, assim é mais quentinho. A servir de almofada, um cobertor dobrado, também negro… Um arrepio, seguido de outros dois. Até parece que as pulgas já começam a picar nos corpos…
Encostada à parede do lado oposto, uma arca grande, de madeira, onde estão batatas, milho e feijões. E roupa velha. Nenhuma mesa. Nem cadeiras. A porta da rua não abre. Quando arranjaram a estrada, a casa ficou mais funda, e agora a porta não abre. Quer dizer, abrir abre, mas não se pode passar por lá, porque levou tijolos por fora, para não entrar a água que escorre da estrada…

(continua)

11/11/2025

Po-esia

Um dia meio pardo, com o sol a espreitar aqui e ali.

A bicicleta do pai chamou-me, luzindo numa nesga de sol que lhe pousou.

Não me fiz rogada, pois para brincar estou sempre pronta.

Aprendi, não há muito, a andar de perna traçada sob o quadro daquelas rodas enormes, e depressa fiquei viciada em pedalar, agora sentada no selim.

Afoita, já sem os pés no chão, vá de enrolar com os pedais, fazendo girar as rodas, para que a bicicleta tomasse balanço e depois, sem esforço, só a guiasse ladeira abaixo levando-me à boleia.

E era como se tivesse asas… poesia para voar.

Sem os pés assentes no chão, no que é o real, tanto pode haver poesia, como só e apenas o pó, da po-esia.

A bicicleta voou pela descida acentuada, como se a estrada fosse céu, mas eu não tinha pára-quedas. 

Sem ser capaz de acompanhar o voo, com medo de não fazer a curva lá em baixo, atirei-me para a barreira do terreno do lado direito e fiquei ali caída para trás, enquanto a bicicleta foi rolando certinha e direitinha, até se espetar contra o portão da casa azul ao fundo.

Quando o chão deixa de ser esse céu de poesia, para passar a ser apenas o pó que nos envolve, também se cai por dentro; ainda que às vezes seja apenas uma paragem mais ou menos pequena, antes de tornar ao voo.

Felizmente, apenas sofri uns arranhões e a bicicleta não se estragou muito; só tive de me esforçar um bocado para lhe endireitar o guiador e depois, ladeira acima, trazê-la de volta, apeada.

28/12/2024

Presépio na Montra e a revisita


Volto ao presépio do tio Zé. O fascínio das suas figuras impeliu-me a revisitá-lo e a observá-lo mais demoradamente.

São figuras pequeninas, de barro pintadinho de cores bonitas, que na sua simplicidade tornam este presépio num lugar mágico, cativante, onde se misturam a criatividade com o belo; e como que a pureza sobressai e vem ao nosso encontro e nos quer falar.

Detive novamente o olhar na figurinha mais intrigante para mim: o Ano Velho com o Ano Novo às costas. Como cheguei a pensar que seria o Pai Natal carregando o Menino Jesus, tenho de o apreciar melhor. Que nos quererá mesmo dizer esta figura no presépio?!...

Que o tempo não termina com o fim do ano, mas continua em tempo Novo, ou renovado?...
Que o tempo de Natal tem o fim do ano e o início de outro pelo meio?...
Que um ano passa o testemunho de Natal ao outro ano?
Que Jesus Menino não é só no Natal, mas se transporta de um ano ao outro?

Sim, para esta figura estar no presépio, terá algo a ver com Jesus...

Ano velho e Ano Novo: dois tempos… figurando num homem velho carregando um Homem Novo! O Tempo que passa e que vem Menino ao nosso mundo… na “plenitude dos tempos”.

Ah, será que quererá significar que no Natal há um ano velho que acaba e um ano Novo que começa?... um antes e um depois? que ali há um marco histórico e sobrenatural? Um tempo velho e um tempo Novo?

Se o nascimento de Jesus é uma boa notícia, uma Boa Nova, será que nos vem dizer para deixarmos para trás o que é velho e começar o Novo?... ou de novo? que o que em nós é velho tem de dar lugar ao novo, ou renovado?...

Tantas interrogações a que uma simples figura nos pode levar!...

Mas acho que sim, que é isso... – uma coisa é certa: não podemos ficar indiferentes ao Natal, que é tempo de nascimento, de nascer sempre a cada ano, outra e outra vez, nascer de Novo, nascer O Novo. O Homem Velho dá lugar ao Homem Novo. Homem Novo que é Jesus, e que tem de ser também cada um de nós que O ama e segue.

O velho tem de dar lugar sempre ao Novo, à novidade – o velho tem de carregar sempre o Novo, como a criança de colo que fomos tem de ser carregada e mantida sempre em nós, pura, perfeita, inocente, humilde e linda.

Pois que se vá o ano velho que em nós se instalou e um Ano Novo connosco viva, em revisita constante de Jesus ao nosso mundo, ao nosso eu.


11/12/2023

A Casa dos Ratos — intermezzo (8)

 (anterior)

Toda a quadrilha tem um chefe. E eles eram quatro – adiantou-se o vermelhinho: “Eu sou o chefe! Vamos lá, que se faz tarde!” 

E aí vão o Vermelhinho, o Azulinho, o Verdinho e o Amarelinho numa desfilada apressada em fila pelo carreiro, no desfiladeiro do túnel a desembocar numa fresta, alargada pelo Tonecas de tanto por lá remexer. E uma luz lá ao fundo brilhava para eles, que já a estavam a ver. Mas são os olhos do Gato que brilham tanto no escuro na ânsia de os comer. Um sobressalto. Um salto. Um “Alto!... Para trás!... que está ali o rapaz!”
Tiveram de recuar e esperar por melhor oportunidade. 

O Tonecas percebera que tinham tentado fugir. Ficou mais alerta, mas à futrica. Desejava-os há tanto tempo que temia que lhe escapassem sem lhes conseguir tocar. Disfarçou, fechou um olho e abriu outro, espreitou pelo buraco, esperou, esperou, esperou, eles haviam de vir. Fingiu um sono profundo. E adormeceu... e acordou e… 

...é agOora! Deu um salto estendendo as mãos e… 

Quase, quase!... por um triz. Ao lado do seu nariz.

Caramba! (meneou a cabeça), como foi possível?! Estava apardalado... Tinham passado rapidamente debaixo dos seus bigodes, caladinhos como só ratos, que só viu o rabo do último. 

Ainda correu, esbracejou, procurou, fungou, miou, qual quê? Agora?! Muito tarde e a má hora! Já deviam ter-se alojado nalgum canto bem escondido. Ah, como lhe tinham apetecido, como lhe apeteciam ainda, que nóia! Cabisbaixo e atordoado retirou-se, já nada havia a fazer, melhor seria agora esquecer. 

05/09/2023

A Casa dos Ratos — intermezzo (6.1)



Depois de muito matutarem cada um para seu lado, os ratinhos reuniram-se enroscados no ninho e guincharam uns aos outros o que cada um tinha pensado. Era preciso encetar a fuga: consenso, veredicto!
Havia de ser bonito! Assim não podiam continuar! Era mais que altura de passar o pé, marchar!

Era hora, agora, de orquestrar uma estratégia com pés e cabeça, para que a evasão fosse bem sucedida, pois estavam fartos de sonhar com uma vida livre, mas a verem-se atados de pés e mãos, sem se atreverem a pôr pé em ramo verde.
Então, com o pé no estribo, mas de pés de lã, que é como quem diz: pé ante pé; e a pé firme, haviam de dar com os pés àquela vida que lhes tinham imposto do pé para a mão. Com muito cuidado, sem pôr os pés na argola, quer dizer: não podiam perder o pé, nesta altura de pôr-se em pé e agir! Fugir, pois, é a única solução, bater o pé ao patrão; ele que pensara protegê-los, mas os tinha aprisionado fazendo deles diversão.
 
Se bem o ditaram, melhor o haviam de fazer.
Era só procurar algum ponto mais fraco na gaiola e roer. Alargar uma fresta e, ala!, zarpar!
Lá fora haveria um largo mar, uma praia, uma casa grande a explorar. Oh, música para os seus finos ouvidos! Já se viam todos idos, à larga, no bem bom e bem bebidos.

08/01/2023

Presépio na Montra e A Fuga para o Egipto


Este meu presépio aqui na montra da loja é bem mais pequeno do que o do tio Zé. O dele é enorme! Estende-se pela adega além, em cima de um palanque de tábuas para dar uma altura, que foi revestido até ao chão de papel pardo, retirado de sacos grandes de farinha, enfeitado depois com fitas e bolas coloridas e brilhantes. E o mais importante: tem imensas figurinhas. Perco-me a observá-lo sem nunca me cansar. A cada Natal há sempre mais coisas que o tio vai acrescentando: luzes, água, um ou outro movimento, campainhas que tocam ao ser puxado um cordel que vem pela parede até à porta…
Para além das figuras iguais às que o meu presépio também tem, há outras que me causam alguma estranheza e admiração. Gosto tanto de apreciá-lo e de fazer perguntas! Ó tio, o que é este? Ó tio, e este? Ó tio, e ali aquele?... E o tio com a sua paciência pachorrenta vai-me explicando, como quem está a ensinar catequese – o tio é catequista.
 
Por exemplo, tem um velhinho de barbas brancas com um menino pequenino às costas: diz o tio, que é o Ano Velho que traz o Ano Novo. Tão giro! Nunca tal me passaria pela cabeça: o Ano Velho e o Ano Novo em figura de gente... (e enquadrado no presépio... humm... um homem velho carregando um Homem Novo! Algo a ver com Jesus terá... ainda cheguei a pensar que seria o Pai Natal e o Menino Jesus, que tola, sei lá!...)

Intrigou-me também uma figura de uma senhora que puxa pela mão, como que arrastando, uma criancita que parece ir a chorar. Lá mais atrás uma figura de um militar empunhando uma espada. O tio diz-me que a senhora e a criança vão a fugir dos soldados do Rei Herodes, aquele malvado, que mandou matar todos os inocentes meninos pequenos até aos dois anos de idade, para ver se entre eles apanhava o menino Jesus para o matar. Pois se Jesus é o Rei dos Judeus, pensava ele que vinha usurpar-lhe o seu lugar no trono, não percebendo que o Reino de Jesus é um reino de paz, de amor e de graça de Deus, de vida, de verdade e de justiça; um reino bem diferente dos deste mundo. 

Também detive o olhar, mais além, num burrito que carrega Nossa Senhora com o Menino ao colo, com S. José adiante a pé, segurando o burrinho pela arreata. Conta que vão em fuga a caminho do Egipto, para que Herodes não apanhe e mate o Menino. São José tinha sido avisado num sonho, por um anjo, para que fugissem para o Egipto e por lá permanecessem até que passasse o perigo e lhe fosse transmitido que poderiam regressar.


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