12/03/2010

Ao Domingo


- Só agora? Ficaste a despir o padre?!
Já me habituei a este tipo de ralhete, de voz forte, do pai, ao domingo quase à hora de almoço. Ele quer que eu ajude a mãe na cozinha, mas é ela que não me quer lá… manda-me sempre de lá para fora, diz que eu só atrapalho, que não sei fazer nada… quando a culpa não é minha, é ela que não me ensina. Por isso, não tenho que me apressar. Na casa de Deus estou melhor do que na minha.
Não tarda, vou fazer doze anos e já há um certo tempo que pensava em ajudar a dar catequese, mas tinha vergonha de o dizer ao senhor prior. A Fernanda, que fez a Profissão de Fé comigo, ajuda no grupo do primeiro ano e eu comecei a achar que também podia ir aprendendo. Há dias disse-o à tia e ela, num domingo destes, levou-me à sacristia, no fim da missa, e falou com o senhor prior.
Não sou de falar muito. Sou um bocado tímida. Por isso, a tia falou por mim.
Comecei logo no domingo seguinte e estou a gostar muito. Para já, fiquei a auxiliar no grupo do segundo ano; tenho um guia para seguir as lições e cabe-me preparar uma por mês. Posso dizer que é muito interessante como e o que se aprende assim, a ensinar, muito mais do que quando frequentava a catequese para aprender.
É esta a razão de me demorar a chegar a casa e, também, porque gosto de me encontrar com as minhas amigas pelo caminho. Mas o domingo é um dia diferente dos outros dias da semana. Será assim tão difícil de perceber?

29/01/2010

Pontos nos i

O sonho foi igual ao de todas as noites. Sonhei que a janela, a mesma janela de sempre, estava fechada e que para lá dela é que era o mundo: lá fora é o mundo e eu fico sempre inquieta enquanto não abro a janela ao sol que por ela me chega. Revolvo-me e não durmo enquanto não acordar.
Quando os mesmos sonhos se sucedem noites a fio passam a ser parte da vida. Quando reclino a cabeça no travesseiro para dormir já sei o que acontece a seguir: a janela, o mundo lá fora à espera, impaciente para entrar no dia seguinte.
Assim entraste na minha vida: todos os dias um pouco, sempre um pouco mais, um sonho que se repete; e passaste a ser-me vida, janela para o mundo. Entraste-me pela porta e foste-me janela. Mirei os meus olhos aos teus e aos poucos gostei de ti até me tornar adicta. Sim, porque me és droga: remédio do qual dependo para me curar as mazelas e, ao mesmo tempo, veneno que me mantém submissa, me envenena lentamente, me mata todos os dias um pouco.
Conheci-te num tempo em que o tempo já não era o que era. Vieste por mãos queridas e eras delas, mas as minhas te tomaram para mim. A culpa não foi minha: foste tu que, sem pudor, me seduziste, te apropriaste da minha vida e fizeste com que me fosse apaixonando por ti. E és-me sol, luar, água para beber, lume para me queimar.

As pálpebras pesam nos olhos cansados, a cabeça fecha-se, as costas doem…
- Coça-me as costas.
Sinto as mãos percorrerem-me os ombros doridos e uma paz silenciar-me as veias e as artérias alteradas. Era assim que deveria ser sempre. Era assim que eu queria estar sempre: tranquila, sem nada desejar, sem mais nada querer.
- O que é que é o comer? Falta muito para o jantar? Já estou com fome.
E lá se vai o sossego! Chega-nos um cheiro estranho. Fumo. Vou até à cozinha, o jantar foi outra vez queimado: o caldo está entornado!

Isto não é normal. Não pode ser normal. Não consigo fazer tanto ao mesmo tempo, com a mente sempre com resmas de coisas para pensar. E tu fazes-te prioridade. Absorves-me. És-me o mundo que me traz alucinada. Que me tira a vida. E o teu papel não deveria ser esse. Não pode ser esse!

Toca o telefone:
- Estou! Sim… onde? Vou já de seguida!
Entro no carro e saio para a estrada. Ligo o rádio na estação preferida:

"It's got to be-ee-ee-ee-ee-ee-ee perfect
It's got to be-ee-ee-ee-ee-ee-ee worth it
yeah.
Too many people take second best
But I won't take anything less
It's got to be
yeah
pe-e-e-e-e-erfect!"

Perfeito! Sair da rotina é o melhor que me pode acontecer. E canto, grito, a par desta música que me faz esquecer, por uns momentos, a loucura em que se está a tornar a minha vida…

11/01/2010

Chuva

Lá fora a chuva cai: ouço-a a bater nas telhas. Presto atenção e saboreio o som da chuvada como se fosse música. Suspendo os deveres da escola e enrolo-me na mantinha sobre a cama para mais confortavelmente a apreciar. Só tenho medo se fizer trovões; a avó costumava dizer que era o Pai do Céu a ralhar...

Olho para o tecto de forro de madeira e para as paredes decoradas a caixas de fósforos e sorrio: sinto-me tão bem no meu quartinho - o meu pequeno mundo!
O que começou por ser uma pequenina colecção de caixas de fósforos com motivos de flores tornou-se já numa colecção enorme destas caixinhas de todos os estilos: os meus amigos, sabendo desta minha paixão, começaram a granjeá-las para mim. E eu, que comecei a colá-las à volta da janela, vou já na terceira parede quase cheia. O pai bem começou por ralhar e dizer que eu estava a fazer um duplo disparate: estragava as paredes e a colecção perdia todo o valor, mas depois acabou por se render e apreciar também; a mãe é que não acha muita graça, diz que eu só perco tempo com coisas que não dão interesse nenhum e o que eu havia de fazer não faço. Ela nunca me irá entender.
Eu sei que isto não vai durar para sempre, que acabará por se estragar ou por alguém estragar; algumas já se descolaram e voltei a colá-las, outras tive mesmo que as substituir porque se deterioraram completamente, mas também não me importa o tempo que dure, o que interessa é que eu goste e me sinta bem enquanto durar.
É como a chuva que continua lá fora... há coisas que nos são agradáveis ao coração, mesmo que os outros não o entendam.

(Publicado em: Memória Alada, 2011)

23/12/2009

Esperança Despida

Palhaço não era… nem se sentia, muito embora se rissem dele e com ele. Uma figura caricata que poderia parecer um palhaço, com aquela indumentária que vestia, fazendo gosto em ostentar as medalhas que as feirantes lhe colocavam ao peito à segunda-feira no mercado. Elas achavam-lhe graça e, dançando à roda dele, faziam-lhe uma festa. O David, na sua simplicidade, ficava envaidecido e vinha contar tudo, com a sua tão conhecida gaguez que fazia com que todos puxassem por ele. Que elas tinham dançado com ele e que: “fofoforam aquelas maaaluuuca…ca…cas é é daaaaququeeelas é é é pepeeeixeiras esgueeeeirooouas é é é qqque me deeeram a as medaaaalhas”. Um simples, que trabalhava de carregador no mercado a troco de gorjetas. Palhaço não. Nunca pela pequena cabeça lhe passou que se divertiam à sua custa, muito embora alguns o fizessem, pagando-lhe copos de vinho quando sabiam que isso o faria descarrilar. Palhaços são os que, sem alma, se aproveitam da pequenez dos outros para se divertirem à sua custa. Quando o picavam ou chateavam, ele encarava-os com aqueles olhos, entortadamente, e gaguejante ameaçava que chamava a Guarda.
E o tempo ia passando satisfatoriamente, feito de primavera e verão, até lhe chegar o outono e lhe assomar o inverno. Então um Inverno mais forte, estando ele mais fraco, despiu-lhe a esperança do Natal. Desabou-lhe o telhado do casebre sobrevivente da aldeia semi-fantasma de habitantes. E a chuva e a geada dormiram com ele.
O Natal despido de esperança é um gelado inverno: um inverno que gela os ossos e a alma o ano inteiro, com artes de transformar qualquer um em pobre palhaço.

(M. Fa. R. – 22.12.2009)


A todos um Bom Natal, vestido de Esperança e calor humano,
para que se sinta menos gelado o frio que soprar em 2010.

Um Ano Novo de Paz e Amor!

30/11/2009

Tatuagens Escondidas [4]


O mês de Novembro banhou-me de melancolia. Logo a mim, que até sou sempre tão alegre e tão sem problemas. O ambiente carregado dos dois primeiros dias, em que a vida girou em torno da morte, é que desencadeou esta carga negativa. De cada vez que penso em entrar no cemitério o mundo cai-me aos pés. Mas quis levar uma flor à avó; era o mínimo que podia fazer por tanto que ela foi para mim. Quando penso nela bate-me uma saudade tão grande!
Fui descendo a ladeira íngreme, em romagem com as outras pessoas, depois da missa, e, lá em baixo, lá estava aquele grande painel assombrado de casinhas e lápides brancas e cruzes, agora apinhado de gente, de flores e de velas acesas, que se podia ver cá do alto, brilhando por entre os muros caiados de branco, com um jardim de sicomoros na frente. Um local deveras assustador…
Embrenhada mais nesta visão fantasmagórica do que no coro de avé-marias, que se iam desfiando no cortejo encabeçado por duas lanternas e uma cruz ao centro, que luziam por cima dos olhares, levadas por três homens vestidos com umas vestes vermelhas de sangue, escorreguei nas pedras da beira do caminho e caí. Prontamente socorrida por quem ia ao pé de mim, larguei algumas lágrimas, mais pela vergonha do que pelas dores que sufoquei. Rasgaram-se as meias compridas, esfarrapei os joelhos que ficaram cravejados de pedrinhas e a sangrar, e quiseram obrigar-me a voltar para trás para ir à farmácia fazer um curativo. Mas teimei em prosseguir. A coragem tinha de se impor ao resto: tinha de deixar de ser a menina frágil e infantil que todos faziam de mim. Só no fim de levar a cabo o que ia fazer é que fui tratar das feridas.

Agora, pensando nisto tudo, lembro-me da canção que me faziam cantar sempre, em todo o lado, quando era pequenina, e a que achavam muita graça:

"Naquela linda manhã
Estando a brincar no jardim
A certa altura a mamã
Chamou-me e disse-me assim:

Não brinques só a correr
Tropeças sem querer
Depois ficas mal.
Respondi: pronto está bem
Mas antes, porém, esqueci-me de tal.

Não me lembro depois como foi
Escorreguei caí no chão.
No joelho ficou um dói-dói
No nariz um arranhão.
Desde então prometi ser melhor
De ser boa e ser feliz.
Faço agora tudo quanto
A mamã me diz."

Era apenas uma canção, porque reparo que não faço tudo quanto a mãe me diz. Já não sou a menina dócil que me querem. A rebeldia começou a apoderar-se muito de mim, juntamente com toda a melancolia que me envolve.

12/11/2009

Coração Descalço

Há histórias nascidas da bruma e do sol poente. Há poemas que se soltam de terramotos e de tornados. De vendavais. De névoas; ou de brisas mansas. Há laços feitos de marés e de encantamento. Poeiras de nebulosas que são gritos de esplendor. Ventanias – canções de amor.
Hesitantes, embalados por um sentimento oceânico, movidos por um sopro do olhar, experimentam tocar-se. E acontece o abraço… quente. E nele dois corações que pulsam em uníssono…
Foi uma carência de alma e de corpo que o fez afogar-se bem no meio daquele mar.
Seria tão inesperado assim? Será que mesmo nada o faria prever?
No fundo, lá bem no fundo de Taiki, uma secreta e escondida esperança de que pudesse acontecer. Ele sabia, tinha lido de Jorge Amado, que «A felicidade não se pode alimentar apenas de recordações do passado, necessita também dos sonhos do futuro.»
E o futuro se calhar estava ali, agora, naquilo que lhe parecia um sonho. Algo como música dançava, rodopiava em volta. Os olhos de Taiki abriram-se e as lágrimas retidas escorregaram-lhe em gotas pelo rosto insaciado. E as palavras não ditas a quererem-se adivinhar nos olhares…
Uma necessidade contida de ter alguém, nascida da aurora perdida, fazia com que se sentisse cada vez mais carente…
É quando o perpassa uma vertigem de medo: porque é que as mulheres não trazem manual de instruções? E atrapalha-se como um menino perdido, ali, de coração descalço.
– Oh! Eu não sei o que sinto…

[Continua em Longos Percursos, não deixem de Ler.]
Este foi só mais um meu pequeno contributo na história de Taiki, a pedido do Fontez.

05/11/2009

O Silêncio e a Dor

Não nos faz muito bem namorar silêncios.
Mas quando desenhamos a dor fogem-nos sempre as cores mais primaveris para outros pincéis, e os riscos que nos voam da mão e que nos sobrevoam a tela são em formas de raios saídos de trovoadas.
Nos silêncios apagam-se verbos que engoliriam certezas, dúvidas, afrontas, quedas, humilhações, entronizações, ódios, paixões, uma infinidade de credos ou razões.
A dor, essa, quase sempre se pinta em tons de negro. E muitas vezes de sangue.
Quando o silêncio e a dor se misturam só há lugar para tintas descoloradas que escorrem por entre as vértebras de uma cadeia, onde a noite e o dia, fundidos e amordaçados, se vêem aprisionados sem frestas para respirar.
O silêncio é morte: violência verbal.
O silêncio também é vida: saber calar.
E a dor é um fantasma que o silêncio não consegue ocultar.

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