05/08/2026
A Casa dos Ratos 5
04/07/2026
A Casa dos Ratos 4
Os ratinhos na sua gaiola
Vão brincando e vão sonhando
Que um dia, não sabem quando
Mas um dia, qualquer dia
Hão-de roer e roer
Ou esticar, ou encolher
Mesmo a muito doer
E passar
De dentro para o outro lado
Debaixo dos bigodes do gato
Que os vigia deitado
Dolente e anafado
À espera de os caçar.
Desengane-se o gatarrão
Que não. Bem pode esperar sentado.
Da prisão à liberdade
Há grades com frestas estreitas
Que os separam do mundo
Aqui têm o que comer
Túneis por onde correr
Camas fofas e quentinhas
E enfeites ao pescoço
E lá fora o perigo espreita
Mas isto de se ser rato
Tem muito que se lhe diga…
Não é com fitas e laços
Nem com uma qualquer espiga
Numa gaiola bonita
Que se prende um ratinho.
A ânsia de aventura
Da frescura da noite ao luar
De liberdade e tontura
A roer o seu belo manjar
Será sempre o que perdura
Para lá de qualquer fechadura
Que teime em o agarrar.
(continua)
25/05/2026
[4] Ainda mais gotas
Mas como é que pode viver aqui, assim, senhor José? O telhado precisa de ser arranjado, senão qualquer dia cai… e mesmo, quando chegar o Inverno chove aqui com força e molha-lhe a cama toda… depois pode ficar doente. Ele assente: Pois era… pois era… mas como é que há-de ser? Se quiser, manda-se cá um pedreiro ver e fazer um orçamento… e tenta-se que alguém dê uma ajuda, ou algum subsídio… Encolhe os ombros. Pergunta-se-lhe quanto recebe de pensão. Diz que não sabe, que é o que lhe dão no banco.
Tenta-se saber como é que passa o dia. Diz que é por aí. Às vezes pega na enxada e entretém-se a roçar umas ervas atrás de casa. E outras, vem para a rua ver e falar com quem passa. Come umas sardinhas assadas com pão ou umas batatas cozidas e bebe uma pinga. Não bebe leite. Mas, às vezes, acolá a dona do restaurante manda-o lá ir buscar uma sopa.
Perguntam-lhe se não gostaria de experimentar a ir até ao Centro de Dia… almoçava lá… vão lá passar o dia pessoas que conhece… tinha lá companhia para se distrair… Nunca se sabe! – Responde.
A Assistente Social insiste se não tem nenhum papel da pensão. Ele procura na carteira… cheia de notas… pasme-se: muitas notas! Um perigo! O dinheiro acumulado de vários meses. Traz aí o dinheiro todo que tem… Não. Tem mais no banco… uma conta a prazo.
(continua)
11/11/2025
Po-esia
Um dia meio pardo, com o sol a espreitar aqui e ali.
A bicicleta do pai chamou-me, luzindo numa nesga de sol que lhe pousou.
Não me fiz rogada, pois para brincar estou sempre pronta.
Aprendi, não há muito, a andar de perna traçada sob o quadro
daquelas rodas enormes, e depressa fiquei viciada em pedalar, agora sentada
no selim.
Afoita, já sem os pés no chão, vá de enrolar com os pedais,
fazendo girar as rodas, para que a bicicleta tomasse balanço e depois, sem
esforço, só a guiasse ladeira abaixo levando-me à boleia.
E era como se tivesse asas… poesia para voar.
Sem os pés assentes no chão, no que é o real, tanto pode haver poesia, como só e apenas o pó, da po-esia.
A bicicleta voou pela descida acentuada, como se a estrada fosse céu, mas eu não tinha pára-quedas.
Sem ser capaz de acompanhar o voo, com
medo de não fazer a curva lá em baixo, atirei-me para a barreira do terreno do
lado direito e fiquei ali caída para trás, enquanto a bicicleta foi rolando
certinha e direitinha, até se espetar contra o portão da casa azul ao fundo.
Quando o chão deixa de ser esse céu de poesia, para passar a
ser apenas o pó que nos envolve, também se cai por dentro; ainda que às vezes
seja apenas uma paragem mais ou menos pequena, antes de tornar ao voo.
Felizmente, apenas sofri uns arranhões e a bicicleta não se estragou muito; só tive de me esforçar um bocado para lhe endireitar o guiador e depois, ladeira acima, trazê-la de volta, apeada.
28/12/2024
Presépio na Montra e a revisita
11/12/2023
A Casa dos Ratos — intermezzo (8)
05/09/2023
A Casa dos Ratos — intermezzo (6.1)
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